Terça-feira, 31 de Março de 2009
Saúde Mental - Introdução (por Maria Elisa Domingues

O programa Serviço de Saúde, da RTP 1, do dia 31 de Março de 2009, debruçou-se sobre o tema da Saúde Mental.

 

Introdução (por Maria Elisa Domingues)
Das dez principais causas de incapacidade a nível mundial, cinco são doenças psiquiátricas.
Considerando os anos de vida saudável perdidos, as perturbações mentais estão lado a lado com as patologias cardiovasculares e as patologias respiratórias, ultrapassando o conjunto das neoplasias.
A depressão, em particular, constitui um dos mais graves problemas de saúde pública, com que se debatem os países industrializados. Em Portugal, os doentes com depressão são o maior grupo do ambulatório e, no entanto, sabe-se que os casos de depressão estão ainda subdiagnosticados.
 
O Serviço de Saúde vai hoje abordar as doenças mentais mais prevalentes em Portugal.
Apesar das leis, que foram sempre avançadas para a época, até mesmo no anterior regime, produzimos uma boa lei de Saúde Mental, em 1963 e, depois, as leis de 98 e 99, que podem mesmo ser consideradas de excelentes. Mas manifestamos na Saúde Mental, a mesma incapacidade de implementar aquilo que concebemos no papel, que tanto prejudica e atrasa outros sectores da nossa sociedade.
 
Quando as boas práticas apontam para as vantagens de tratar os doentes através de serviços inseridos na comunidade, gastamos hoje 83% do orçamento da Saúde Mental em internamentos.
Além disso, a maioria dos recursos concentra-se hoje em Lisboa, Porto e Coimbra, deixando uma boa parte do país, sobretudo os mais carenciados, sem acesso aos serviços especializados. Porquê? É o que vamos tentar saber hoje.
 
A nossa reportagem acompanhou duas equipas, que há muito perceberam a vantagem dos cuidados de proximidade. Uma do Hospital de São Teotónio, em Viseu; outra da Casa de Saúde do Telhal.
 


publicado por servicodesaude às 20:01
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Saúde Mental - Reportagem

De segunda a sexta-feira, das nove da manhã às quatro da tarde, é este o ritmo diário dos seis enfermeiros do serviço comunitário do Departamento de Saúde Mental, do Hospital de São Teotónio, em Viseu. Cada enfermeiro visita em média dez casas por dia, o que dá um total de mais de seis mil visitas domiciliárias, ao fim de um ano.

 
Antes de 1950, o destino inevitável da maioria dos doentes psicóticos era a institucionalização prolongada num hospital psiquiátrico mas com a descoberta da clorpromazina e, mais tarde, dos neurolépticos de acção prolongada, o internamento passou a ser evitado, na medida do possível.
E as visitas, como a do enfermeiro Hélder servem para administrar a medicação, para dar apoio às famílias e ajudar na integração do doente na comunidade.
 
Margarida Marques (prestadora de cuidados): “Desde que toma a medicação está mais calma, mais sossegada”.
 
Hélder Lourenço (enfermeiro): “Somos como os padres ou os médicos da região. Os doentes sabem que se fossem eles a deslocarem-se se ao departamento de saúde não tinham possibilidades económicas. E sabem que, a qualquer momento que precisem da nossa ajuda, não só localmente, mas também em termos de consultas e internamento, têm prioridade.
 
Para este tipo de doentes mentais não existe propriamente uma cura mas sim um tratamento, usado quer na fase aguda da doença quer na prevenção de ocorrência de novas crises. Quando há recaídas, é o enfermeiro que faz a ligação entre doentes, famílias e a restante equipa.
 
No caso de Abílio, uma descompensação levou-o a automutilar-se com uma faca. Foi necessária a intervenção da equipa e, para o caso, o internamento. Mas por agora o homem que quer ser bombeiro voltou à guarda da irmã e à medicação mensal do enfermeiro Hélder.
 
Hélder Lourenço: “Quando os doentes perdem os cuidadores directos - mãe, pais e irmãos – gera-se um grande problema sobre quem é que vai cuidar deles. Porque nós vamos vê-los de quatro em quatro semanas, mas e entre esses dias? Quem é que está ali para orientar, ver se tomam a medicação? Há casos extremos...
 
Para lutar contra todos estes problemas, o hospital criou redes de suporte através de parcerias com instituições privadas de solidariedade social. Uma dessas parcerias tem ajudado à integração dos doentes na comunidade, através do programa Formação Profissional e Apoio à Integração em Mercado de Trabalho.
 
Mário Pereira (Director Técnico da ASSOL): “Tentamos, sempre que possível, e sempre que eles queiram, que façam aquilo que gostem. E que as experiencias socioprofissionais no exterior, não sendo propriamente situações de trabalho ou de emprego, são situações de valor comunitário, através das quais tentamos que as pessoas adquiram um estatuto comunitário reconhecido”.
 
Marta Caiado (notária): “O Elei enquadrou-se bastante bem no trabalho aqui no cartório e é bastante responsável. Organizou o arquivo praticamente sozinho, vai aos correios, entrega ofícios nas Finanças e efectua serviços que o cartório tem obrigatoriamente que fazer.
É uma pessoa extremamente diligente e responsável. E que pode perfeitamente fazer esse tipo de serviço sozinho”.
 
Se para uns doentes trabalhar é, sem dúvida, uma vitória, outros conseguiram ultrapassar a barreira do preconceito e da doença, ao viverem sozinhos em residências destinadas a pessoas com doença mental, que outra instituição, a Casa do Telhal, possui. Unidades autónomas e protegidas de acordo com a legislação portuguesa, onde os doentes têm uma vida em tudo idêntica a uma família regular.
 
Os que conseguem, têm o dia ocupado na formação profissional ou em estágios de empresas. Nos tempos livres, fazem as compras e as limpezas da casa, organizam o dia-a-dia ou, simplesmente, lêem um livro.
 
Pedro Hipólito (42 anos): “Conseguimos levar aqui uma vida que eu considero muito razoável, porque temos certas tarefas para fazer e ao mesmo tempo estamos a meia hora de comboio de Lisboa. E podemos ir visitar a família, dar um passeio, ir ao cinema, ir ao shopping, comprar roupa, se precisarmos. Temos uma certa liberdade”.
 
O estudo de cada caso como único, permite à equipa de saúde traçar novos objectivos e aproximar o doente da família, tantas vezes martirizadas com os problemas originados pela doença.
 
Maria do Carmo Leão (Coordenadora da Unidade de Vida Autónoma): “Quando começamos a trabalhar com o doente há sempre uma grande desconfiança por parte da família, mas à medida que vão vendo que o doente até se mantém e consegue trabalhar, às vezes aproximam-se e já temos tido surpresas. Já tivemos um utente que passou da Unidade de Vida para casa da família. As famílias começam a acreditar mas é um processo demorado”.
 
Em Portugal, o internamento continua a consumir mais de 80% dos recursos, quando toda a evidência científica mostra que as intervenções na comunidade, além de mais efectivas, são as preferidas dos doentes e suas famílias.
 
Luís Santos (42 anos): “Tem a função laboral que é muito importante para a nossa reinserção na sociedade. E proporciona-nos mais saúde e qualidade de vida. Agora é um Luís que conseguiu dar a volta com o apoio de toda a equipa. Agora posso dizer que estou feliz com a vida, realizado, e o futuro será cada vez melhor”.
 
Com a implementação do Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016, pretende-se cada vez mais criar condições para dar dignidade e igualdade a quem sofre de doença mental crónica.
 
Em Portugal, apenas uma parte das pessoas que têm problemas de saúde mental, têm acesso aos serviços públicos especializados. E mesmo o número de 1,7% é escasso, se tivermos em conta que pelo menos entre 5% a 8% da população sofre de uma perturbação mental de uma certa gravidade.
 
Junte-se ainda ao envelhecimento da população a depressão que, segundo dados do Ministério da Saúde, afecta cerca de 20% da população portuguesa, e o quadro clínico da Saúde Mental, em Portugal, não é o mais animador.


publicado por servicodesaude às 19:09
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Saúde Mental - Estigma e Reabilitação

Margarida Cordo, psicóloga, terapeuta familiar e psico-terapeuta, é a coordenadora dos Serviços de Reabilitação da Casa de Saúde do Telhal. É membro de várias associações científicas e escritora, por exemplo do livro “Diário de Maria”, diário de uma pessoa com doença mental. 

O que se nota nestes doentes das Unidades de Vida Autónoma, com uma certa autonomia, é uma atitude de auto-estima, de orgulho em si próprios, que é uma atitude geralmente muito diferente daquela que as pessoas têm quando estão institucionalizadas.
Margarida Cordo (psicóloga): De facto. A nossa experiência com o processo de institucionalização - e já começámos há 13 anos -, tem-nos ajudado a perceber que há muito para fazer. Há todo o desfazer de um estigma que está associado geralmente às pessoas com doença mental. E continua a estar; no fundo é um processo gradual.
O trabalho que temos desenvolvido tem a ver com toda uma tentativa de reconversão da instituição para a sociedade. Mas temos a noção que nem todas as pessoas conseguirão atingir este bem-estar e qualidade de vida.
 
A maior parte destes doentes, da Casa do Telhal sofrem de psicoses graves, nomeadamente esquizofrenias, doença bipolar
Margarida Cordo: E o contacto com a realidade, nesse quadro, nem sempre é aquele que se espera. O estigma associado às pessoas com doença mental é esse mesmo; a dificuldade de ter um contacto sereno com a realidade, na nossa prespectiva.
E também tem a ver com o facto de, durante muitos anos, a psiquiatria e os doentes psiquiátricos terem estado confinados aos hospitais, devido ao enquadramento e à abordagem que era feita a estas doenças. E ainda estão em demasia.
 
Este programa, de 2006 a 2017, tem como objectivo converter as instituições hospitalares para que possam oferecer serviços que permitam uma melhor qualidade de vida às pessoas com doença mental. Desde formação adequada, integração no mercado de trabalho, até à integração residencial.
No fundo, objectivos que permitam a estas pessoas a luta pela dignidade.
 
Apesar dos números não serem muito diferentes dos que existem no resto do mundo, ou da Europa; em Portugal, o papel da família ainda é determinante e fornece uma rede de apoio a estes doentes…
Margarida Cordo: Com a família também temos vindo a seguir um trabalho de psico-educação, para que aprendam a lidar com estas realidades.
As residências que temos na comunidade recebem aquelas pessoas que não conseguimos integrar nas famílias. Ainda assim, não se pode de forma simplista acusar as famílias, que têm que trabalhar e têm outras pessoas a seu cargo.
Quando dizemos que não têm alternativa residencial é exactamente nessa perspectiva. Mas continuamos a contar com o apoio da família, no suporte afectivo e no que está ao seu alcance fazerem.
 
Fala-se na reportagem de um caso que foi possível restituir à família.
Desde que a pessoa venha mais serena, menos agressiva, que não constitua um perigo, até mesmo para ela própria, a resposta das famílias é boa?
Margarida Cordo: Quando procuramos integrar as pessoas na sociedade, e sobretudo quando falamos de pessoas que estiveram institucionalizadas durante muito tempo, a primeira atitude das famílias é alguma resistência. E esta resistência tem a ver com alguma ameaça pressentida porque quando as pessoas com doença psiquiátrica entram numa instituição é quase como um “descanso” para as famílias que por vezes viram as suas próprias vidas muito perturbadas. Ou seja, há uma solução intermédia não apenas para o problema mental do seu familiar, mas para si próprios.
 
Por vezes quando se fala em reabilitar e tentar reinserir, acaba por ser uma ameaça. E o nosso trabalho passa por lhes transmitir que quando a pessoa com doença mental for reinserida já vai para casa noutras condições, tem outra autonomia e outra perspectiva de vida.
 
A própria farmacologia dá hoje respostas diferentes daquelas que havia há uns anos atrás? A partir dos anos 50, o aparecimento dos antipsicóticos foi tornando a reabilitação possível. Antes disso era impossível.


publicado por servicodesaude às 18:11
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Saúde Mental - Leis e Planos de Saúde Mental

Prof. José Miguel Caldas de Almeida (psiquiatra e coordenador Nacional Para a Saúde Mental, é presidente da Comissão para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental, tendo coordenado o Plano Nacional de Saúde Mental que se está a implementar.

É também professor de Psiquiatria e Saúde Mental na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, do qual também é director, tendo estado ao serviço da Organização Mundial de Saúde e participado no Relatório Mundial de Saúde 2001).
 
Desde 1963, mesmo durante o Antigo Regime, sempre tivémos uma boa lei de Saúde Mental, que já previa a criação de centros de saúde mental em todos os distritos, por exemplo. Temos uma excelente lei desde 1998. Temos bons especialistas, exemplos de boas práticas pelo país, algumas já com algumas dezenas de anos, mas não conseguimos implementar as medidas necessárias, duma forma organizada e sistemática em todo o país, e continuamos a concentrar uma percentagem de recursos sem justificação no internamento…
Porquê esta dificuldade em fazer o que tem que ser feito?
 
Prof. José Miguel Caldas de Almeida (psiquiatra, coordenador Nacional Para a Saúde Mental): Penso que é uma responsabilidade de todos. Do poder político, que só em momentos muito raros se interessou e apostou na Saúde Mental. Nossa, enquanto profissionais, que nem sempre termos conseguido criar os consensos necessários e perdemos demasiado tempo em lutas sem sentido. E é também uma responsabilidade de todos nós enquanto sociedade.
Temos tido dificuldade em valorizar as pessoas com doenças mentais e a Saúde Mental, em geral. Portugal tem sempre escondido os problemas da Saúde Mental; não tem discutido suficientemente.
Tudo isto dificulta as reformas nos Serviços de Saúde Mental, que são complicadas. A psiquiatria esteve durante séculos separada do resto da Medicina. Os hospitais psiquiátricos ficavam longe das cidades…
Outros países conseguiram mais facilmente. A Espanha, por exemplo, está 15 ou 20 anos à nossa frente. Porque foram capazes de criar consensos que nós não criámos.
 
A evolução política espanhola foi parecida com a nossa. Foi mais difícil criar esses consensos ao nível das classes socioprofissionais? São interesses corporativos instalados que têm dificultado a implementação de outro tipo de serviços de Saúde Mental?
Prof. José Miguel Caldas de Almeida: Em Espanha, a seguir à queda do regime franquista, toda a psiquiatria, com excepção de pequenos sectores, apostou consensualmente na reforma psiquiátrica. O que aliás acontece na maior parte dos processos de democratização.
Em Portugal não aconteceu. A seguir ao 25 de Abril, embora tenha havido alguns progressos, houve muitas lutas internas, mesmo entre os profissionais.
 
O texto do Plano Nacional de Saúde Mental é extremamente bem feito e aponta o que está mal. Aqui parece existir uma invulgar capacidade de diagnosticar o que está mal, mas depois existe uma enorme incapacidade de pôr as medidas em prática, o que é lamentável, porque as vítimas – que são os doentes -, são os mais frágeis…

 



publicado por servicodesaude às 17:18
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Saúde Mental - Depressão: estigma e incapacidade

Dr. Álvaro Carvalho (médico de Saúde Mental e Psiquiátrica residente. Foi director do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental, do Hospital São Francisco Xavier e esteve ligado por diversas vezes à reestruturação da Saúde Mental, tendo sido o director do Serviço de Psiquiatria e de Saúde Mental da DGS, de 1996 a 2000.

Hoje, para além de docente na Faculdade de Ciências Médicas, integra a Coordenação Nacional para a Saúde Mental. E esteve, desde o início, ligado aos Centros de Responsabilidade Integrada. 
Os problemas de psiquiatria são hoje dos mais graves das sociedades. Entre as dez maiores causas de incapacidade no mundo, cinco são de origem psiquiátrica e, no entanto, ainda há um grande estigma em relação à doença mental…
Dr. Álvaro Carvalho (psiquiatra): Sim, sim. Há uma incapacidade sobretudo em relação à actividade produtiva. E era preciso sensibilizar os poderes públicos e políticos para este problema.
A depressão, por exemplo, neste estudo que a OMS fez em 1996, estava em quarto lugar com a perspectiva de subir a primeiro ou segundo, em poucos anos.
O que tem sido feito entre nós é muito limitado e inconsequente. Se os poderes públicos assumirem esta importância da Saúde Mental, as resistências que possam existir, a integração a nível profissional ou até o estigma que a população em geral ainda mantém, podem alterar-se.
As pessoas ainda dizem que sofrem “dos nervos” e vão ao neurologista em vez de ir ao psiquiatra, porque ir ao psiquiatra pressupõe a existência de um problema psíquico.
Felizmente, a prevalência das psicoses esquizofrénicas anda à volta de 1% relativamente à população em geral. São situações muito dramáticas que deixam as pessoas muito impressionadas porque ouvem vozes, sentem-se perseguidas, têm alterações de comportamento, ou até comportamentos agressivos, o que assusta as pessoas.
 
Mas mesmo a depressão, que não assusta tanto, apesar de poder ser muito incapacitante, não leva a pessoa ao médico. E essa é uma das razões porque está subdiagnosticada…
Dr. Álvaro Carvalho (psiquiatra): Existem vários tipos de depressão. Felizmente que a maioria das situações depressivas são “menores” e não há o risco de algo dramático, como nas graves, que é o suicídio. Mas entre nós ainda é relativamente frequente as pessoas tomarem complexos vitamínicos ou simplesmente tranquilizantes.
Um dos sintomas mais comuns nas depressões “menores” é a dificuldade de adormecer.
E muitas vezes anda-se ali meses, ou mesmo anos, com situações que se podem agravar, e a tomar medicamentos que podem dar dependência e que não vão resolver o verdadeiro problema.
 
Dr. Ricardo Gusmão (especialista em psiquiatria), fez a sua tese de doutoramento sobre “a depressão”. Segundo a sua tese, muitos médicos de família não têm a capacidade de diagnosticar alguns casos de depressão e essa será uma das razões pela qual estará subestimada…
Dr. Ricardo Gusmão: Sim, mas o problema não é intrínseco à qualidade dos médicos de família. É algo que diz respeito aos profissionais de saúde, à actividade docente, e tem a ver com o facto da saúde mental não estar integrada nas outras áreas do ensino médico.
Tento comunicar a importância de diagnosticar e tratar a depressão. A depressão é uma doença sistémica que tem impacto ao nível de todo o corpo, do que as pessoas pensam, sentem e ao nível das emoções.
Tem um impacto ao nível do tubo digestivo, das dores de cabeça, dos ossos, dos músculos. E muitas vezes as pessoas não identificam como sendo um problema psicológico, sendo estes os componentes aparentes das síndromes depressivas.
O ensino médico é muito concentrado nos sistemas: ossos, fígado, estômago, coração, cérebro, nervos periféricos... Há por vezes a dificuldade de compreender o indivíduo como um todo e esquecemo-nos que o cérebro é o núcleo central, que controla tudo o que está da pele para dentro mas também da pele para fora.
E há uma grande dificuldade em perceber que o sofrimento mental faz parte da vida e é normal, e depois distingui-lo daquilo que é patologia.

 



publicado por servicodesaude às 16:20
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Saúde Mental - Acolhimento de doentes mentais e bipolares

Telefonema de Maria do Carmo Barroso, 46 anos, operadora de lavandaria do Entroncamento.

Tenho uma irmã com 51 anos, tem doença bipolar e vive com uma tia de 65 anos.
O problema são as crises. Está a ser tratada mas a minha tia diz que já não vai aguentar a próxima crise. Deita tudo fora, não deixa dormir ninguém…
Ela não pode ficar sozinha e precisava de um local onde pudesse estar até passar a crise. Porque o problema dela é deixar de tomar a medicação quando sente que está melhor.
 
Já vimos esta situação. O que é que acontece às pessoas quando perdem o único familiar que cuida delas? O acolhimento faz-se mas num número reduzido de casos …
Dr. Álvaro de Carvalho: Esta senhora (bipolar) pertence à zona do nosso hospital, de São Francisco de Xavier, actualmente Centro Hospitalar Lisboa Ocidental. Há equipas dos serviços oficiais ali na zona e há hipótese de internamento, numa situação de crise, que se justifique. Mas regra geral um doente bipolar não tem as mesmas implicações que um doente esquizofrénico e há crises que podem ser controladas em ambulatório.
Aguardamos a todo o momento que as Unidades de Vida Protegidas e Autónomas (unidades residenciais para as pessoas com doença mental) possam surgir em maior número e em maior número de especificações.
 
Prof. José Miguel Caldas de Almeida: Este caso é paradigmático e coloca dois problemas diferentes. O primeiro, é a necessidade dos doentes terem uma equipa que seja responsável por eles. É muito difícil estes doentes serem tratados apenas por um profissional. É uma doença que se arrasta ao longo da vida, que pode ter vários surtos e fases de evolução diferentes, e só uma equipa multidisciplinar - com psiquiatras, psicólogos e enfermeiros - é que tem a capacidade para lidar com estes doentes.
E é preciso haver uma rede com vários dispositivos. Tem que haver um internamento num hospital geral para que, nestas crises (que podem ser de algumas semanas), o doente seja imediatamente assistido e a família não tenha que passar pela situação de ter um doente psicótico em casa, e esperar dias ou semanas para ter uma resposta.
 
Depois devia haver um programa individual para cada doente que incluísse outras respostas, como o hospital de dia e um programa psico-educacional, que envolvesse a família. O que esta doente precisa é estar em contacto com uma equipa de saúde mental e até vive numa das poucas áreas em Portugal onde existem equipas que podem dar este tipo de apoio.
Outro problema, é as pessoas não terem família que lhes possa dar esse apoio. E estas residências já existem há 10 anos em Portugal e num número razoável para se perceber que funcionam. E que, portanto, são necessárias mais.
 
Essa é uma das grandes apostas do Plano Nacional de Saúde Mental. Primeiro, todo o território ser coberto por estas equipas que referi. E que em todas as zonas do país possa haver acesso às tais residências, para que os casos que não podem ficar com a família tenham de facto uma perspectiva.


publicado por servicodesaude às 15:22
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Saúde Mental - Unidades Psiquiátricas de Proximidade (1-2)

Ambas trabalham na Unidade Psiquiátrica de Odivelas. Servem uma comunidade de 135 mil habitantes, com carências de diversa ordem...

Marta Gaspar (enfermeira): Sim, sem dúvida. Notamos diariamente uma grande procura dos nossos serviços. Trabalhamos com os centros de saúde da zona. A equipa é composta por uma assistente social e um enfermeiro que, mensalmente, fazem reuniões com os cuidados continuados e visitas domiciliárias a casos de doença mental que precisam de ser avaliados.
 
Privilegiam o contacto de proximidade, que é o que melhor se adapta à doença mental?
Marta Gaspar (enfermeira): Na comunidade é importante conhecer o meio em que os doentes estão inseridos, quais os problemas que afectam as pessoas com doença mental, e poder desenvolver estratégias articuladas com as redes de apoio social, para que estas pessoas tenham maior qualidade de vida e prevenir o internamento, se possível.
 
E apoiar certas famílias?
Nélia Canudo (psicóloga): A nossa equipa, no ano passado, relativamente às outras equipas do hospital, foi a que teve uma taxa de internamento e de reinternamento mais baixa, precisamente, porque existe esta equipa na comunidade que faz uma detecção precoce e mais completa dos problemas.
 
A equipa faz um trabalho não só com a pessoa que está doente. Há um grande sofrimento por parte das famílias e um grande desconhecimento da doença mental. A dinâmica familiar, o estilo de relação teve que ser adaptada à doença e, muitas vezes, quando a pessoa já conseguiu estabilizar, entretanto o funcionamento anterior “cristalizou”. E quando a pessoa tenta readquirir o seu papel e as suas funções familiares - a que tem direito -, “já lá não cabe”. E isso muitas vezes até provoca uma outra crise. É este trabalho na comunidade que nos cabe fazer.


publicado por servicodesaude às 14:24
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Saúde Mental - Internamento compulsivo: psicose grave

Telefonema de Maria Pereira, de Vila Real:

Tenho uma irmã mais nova e que está há meses completamente isolada. Deixou de trabalhar, quase não se alimenta… E o diagnóstico que lhe foi feito há uns anos atrás é que tinha uma psicose maníaco-depressiva.
Na altura houve um internamento porque houve manifestações de agressividade para o exterior. Depois do internamento ficou melhor, mas depois acabou por piorar porque não toma a medicação. E esse é o grande problema, é não dar continuidade ao tratamento. Ou seja, agora houve uma recaída.
Não há ninguém que consiga chegar perto e ela não toma a medicação. Já marquei duas consultas psiquiátricas e não quis comparecer. A sofrer com isto está a minha mãe, e não sabemos o que fazer.
Já recorri ao Serviço de Psiquiatria do Hospital de Bragança e dizem que tem que haver uma agressão pública ou uma automutilação para ser internada compulsivamente. Fomos ao Ministério Público e dizem o mesmo. Fizémos todas as diligências e isto é uma situação desesperante.
Para além disso está a pôr em risco o emprego, está sem trabalhar há meses, de baixa, com atestados passados pelo médico de família, com muito favor.
 
A sua irmã não admite que está doente?
Não, não admite. Entra em delírio total e é muito desesperante.
Na teoria ouvimos muitas soluções, na prática gostava de saber o que fazer numa situação destas…
 
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra): A lei é clara e explícita. Há dois tipos de internamento compulsivo. Ou há um internamento normal, que tem que ser através do tribunal e este tem que ouvir o médico. O médico é que tem que avaliar e ver se é, ou não, uma situação para internamento compulsivo. Ou então, se a situação for de facto muito urgente, pode-se dirigir a um hospital de qualquer zona do país…
 
Mas a senhora disse já o ter feito…
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra): Quando há uma situação psicótica, em que a pessoa não reconhece que está doente, há um recurso obrigatório ao delegado de saúde (que é a autoridade de saúde) que, face ao parecer do médico psiquiátrico, ou até do clínico geral, emite um mandato, que pode ser conduzido através das forças policiais. Isto quando há perigo eminente, de acordo com a lei, “relativamente aos bens pessoais ou patrimoniais, pessoais ou alheios”.
Ao que parece, a senhora está em perigo eminente de saúde, eventualmente de vida, são grandes os transtornos do ponto de vista familiar e está, pelos vistos, francamente psicótica, portanto é este o caminho a seguir.
 
Prof. José Miguel Caldas de Almeida: Fico surpreendido, porque este caso, hoje em dia e à partida, não apresenta grandes dificuldades. Temos meios terapêuticos que permitem uma rápida compensação do estado do doente.
Mas volto ao mesmo: é preciso uma equipa que acompanhe o caso. Se o doente não toma a medicação, a equipa vai a casa para assegurar a continuidade da medicação. Porque se as pessoas deixam de aderir à terapêutica podem descompensar outra vez. A continuidade da medicação é a chave do sucesso para as pessoas conseguirem reabilitar-se.
Infelizmente em Portugal ainda há muitos casos destes porque há pouca informação, e porque muitos dos interlocutores desta cadeia não sabem o que fazer.
Não é preciso haver agressão para haver internamento compulsivo, desde que haja uma situação psicótica grave. Que traga perigo para os outros ou para o próprio.
 
Aqui há duas maneiras de agir. Ou seguir o caminho que o Dr. Álvaro de Carvalho referiu, junto do delegado de saúde. Ou então, seguir uma forma menos ortodoxa, e pegarem na doente, mesmo com ajuda de outros familiares, amigos, ou os bombeiros, e levarem-na a um serviço de urgência de um hospital. Se for um caso de psicose aguda é internada, e passado poucos dias a doente está compensada. Depois, se entrar num programa adequado, tudo pode mudar.


publicado por servicodesaude às 13:26
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Saúde Mental - Depressão e Bipolaridade

A depressão é, na área das doenças mentais, uma das mais prevalentes. Existem vários tipos, mas na sua forma mais grave ela é, ou pode ser, uma doença crónica?

Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): A depressão pode ser uma doença crónica. Embora o que me pareça que os dois telefonemas anteriores se referem a casos de doença bipolar, na sua fase depressiva.
O que há em comum entre os dois casos é que não aceitam que estão doentes. E o internamento compulsivo é uma medida essencial, que permite que as pessoas tenham acesso aos cuidados de que necessitam mesmo contra a sua vontade.
 
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): A pessoa tem que perceber que tem uma doença cerebral que interfere com os seus humores. Fico surpreendido porque estes casos têm tratamento e a taxa é das mais elevadas em medicina. É mais difícil tratar uma hipertensão arterial que uma perturbação bipolar. Embora seja óbvio que há casos e casos, com resistência à terapêutica, em pessoas com situações complicadas, até a nível familiar.
 
Hoje em dia a depressão, entre outras doenças, são geridas como doenças crónicas. Porque não se trata apenas de estar sempre no estado depressivo ou de ser imprevisível quando se vai estar deprimido. É que os estados depressivos são altamente recorrentes.
O problema hoje é que uma pessoa tem uma depressão menor, muitas vezes reactiva a situações vivenciais mas, por ter tido este episódio, que até pode ter sido relativamente bem ultrapassado, a probabilidade de vir até um episódio mais sério no futuro aumenta exponencialmente.
 

O peso da gestão da depressão na saúde pública é fundamental porque as pessoas, por múltiplos factores, têm cada vez mais depressão.



publicado por servicodesaude às 12:28
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Saúde Mental - Depressão - sintomas e riscos

Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Existem situações mais graves, com menor expressão e, depois, existem outras situações, da qual a depressão talvez seja o paradigma, altamente prevalentes, mas muito menos graves.

Estima-se no entanto que 150 mil pessoas por ano tenham a forma mais grave de depressão: a depressão psicótica.
 
Mas são cerca de 20%, os doentes com alguma forma de depressão?
Diria que não me espantaria que a estimativa de prevalência anual chegasse aos 14% ou 15%.
 
E entre os jovens, nomeadamente do sexo masculino, a depressão está a aumentar
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Sim, está. E o risco de suicídio também.
 
Até hoje a depressão era maioritária nas mulheres, mas agora a situação também está a mudar…
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Sim, se tivermos em conta a expressão clássica do estado depressivo, tal como o temos vindo a descrever… As mulheres reconhecem melhor os afectos e exprimem melhor os afectos. Não me espanto com uma diferença de género. Mas essas diferenças de género têm-se vindo a esbater.
Os homens também começaram a abandonar outro tipo de “estratégias” para evitar a depressão que passavam muito pelo alcoolismo, por comportamentos aditivos com substâncias ou por comportamentos violentos…
 
A depressão é altamente debilitante do resto da saúde? Quem tem depressão tem mais probabilidade de ter outras doenças associadas?
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): E até de morrer, independentemente do suicídio. O risco de mortalidade em pessoas com depressão é superior, de acordo com critérios de idade, sexo e estrato socioeconómico e cultural.
 
Quando é que a pessoa deve procurar ajuda? Quando é que aquele, “ando a sentir-me um bocado em baixo”, pode ser mais que isso e tratar-se de uma depressão?
 Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Primeiro acho que as pessoas têm que aceitar que a vida que nos foi prometida não é assim tão fácil e que o sofrimento é uma constante da vida. E que felizmente não é persistente.
Agora quando a pessoa sente que atingiu um ponto de não-retorno, não consegue aceder aos recursos que tinha em memória, ou sente que tinha, quando percebe que ao nível profissional, ao nível afectivo, social e relacional, as coisas se modificaram e os outros fazem reparos nesse sentido; as pessoas devem intuir isso e procurar ajuda, nem que seja para tirar as dúvidas.


publicado por servicodesaude às 11:30
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Saúde Mental - Unidades Psiquiátricas de Proximidade (2-2)

Vasco Inglez e Cláudia Catalão integram uma equipa que funciona em Sintra, à semelhança do caso de Odivelas, e que actua junto dos centros de saúde, numa espécie de unidade de dia que presta apoio à população da zona.

 
Vasco Inglez (psicopedagogo clínico): É mais fácil para as pessoas daquela zona irem ao nosso Centro de Saúde Mental do que terem que se dirigir a Lisboa. Ainda mais porque estamos a falar de pessoas que têm grandes dificuldades e só o facto de se terem que se deslocar, pode ser o suficiente para não irem. E isso pode ser o suficiente também para uma recaída. O que depois pode levar ao internamento, que queremos evitar.
A psicopedagogia tenta explicar através do ensino o que é a doença mental e o que é que a  pessoa pode fazer para se sentir melhor.
 
Não há terapeutas ocupacionais em número suficiente?
Cláudia Catalão (terapeuta ocupacional): De facto. E a terapia ocupacional permite que estas pessoas - com dificuldades em fazer coisas todos os dias, desde lavar os dentes ou ir trabalhar -, aprendam a conseguir e a pôr em prática todos os dias estas actividades, com autonomia.


publicado por servicodesaude às 10:32
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Saúde Mental - Ficha Técnica

 

Autoria, Coordenação e Apresentação
Maria Elisa Domingues
 
Convidados
Caldas de Almeida
Álvaro Carvalho
Ricardo Gusmão
Margarida Apetato
João Amaro
 
Pesquisa
Teresa Mota
Alexandra Figueiredo
 Miguel Braga
 
Reportagem
Buenos Aires Filmes
 
Produção
Miguel Braga
 
Jornalistas
Miguel Braga
 
Gestão e Edição de Conteúdos
na Web (portal Sapo)
Natacha Gonzaga Borges
 
Imagem
Gonçalo Roquette
Daniel Ruela
Arquivo RTP
 
Edição e pós-produção vídeo
Sara Nolasco
 
Pós-produção aúdio
Miguel Van Der Kellen
 
Atendimento telefónico
Nuno Gaibino
Manuel Rocha
Mariana Sousa
Margarida Castanho
 
Câmaras
João Carlos Martins
Carlos Henriques JR.
Lima Matos
Ricardo Ramalho
Carlos Abreu
 
Mistura e Imagem
Fátima Duarte
 
Controlo de Imagem
Cecília Furtado
 
Som
Rafael Braz
Manuel Linã
 
Iluminação
Armindo Caneira
 
Electricista
João Martins
 
Técnicos de Electrónica
José Borges
Rui Loureiro
 
Assistentes de Operações
Orlando Aurélio
Carlos Pereira
António Almeida
 
Caracterização
Fátima Tristão da Silva
Ana Filipa
Rita Craveiro
 
Assistente de guarda-roupa
Paula Sousa
 
Registo Magnético
Vasco Rio Ferreira
 
Gerador de Caracteres
Sílvia Santos
 
Teleponto
Luís Pereira Torres
 
Genérico e Grafismo
Nicolau Tudela
Teresa Martins
 
Música Genérico
Ari de Carvalho
 
Assistente de Realização
Carlos Cid Carmo 
 
Anotadora
Dinah Costa
 
Chefe Técnico de Produção
Gaspar Fiúza
 
Criação Cenográfica
Gil Ferreira
 
Execução Cenográfica
Isabel Rodrigues
 
Produção
Filipa Azevedo
 
Realização
Paulo Resende
 
 
 


publicado por servicodesaude às 09:34
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Saúde Mental - Links

Bibliografia:

“The Noonday Demon” ou “Le Diable Intérieur – Anatomie de la Dépression”
(tradução francesa de Andrew Solomon) e
"Diário de Maria" (de Margarida Cordo)
 
Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental
Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB)
Lisboa - 21 854 07 40/8 / Porto – 22 606 64 14 / Coimbra – 23 981 25 74
 
Associação de Saúde Mental do Algarve (ASMAL)
European Psichiatric Association (33 3 88 23 99 30)
Associação Olhar – Associação pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental 
Sintra 21 797 18 05 / Porto – 93 681 54 50 / Barreiro – 21 797 18 05
 
Associação de Familiares e Amigos de Doentes Psicóticos – 93 712 33 64
Associação de Reabilitação Social e Institucionalização de Doentes Psiquiátricos
– 23 964 04 30
Associação Persona – Associação para a Promoção da Saúde Mental
 


publicado por servicodesaude às 08:36
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Saúde Mental - Questões colocadas telespectadores

Adélia Lourenço, de Aveiro:

“Fui internada por cefaleias e fui encaminhada para um neurologista, onde fui medicada com corticóides e, devido a essa medicação, acabei por fazer uma descompensação, tendo entrado em delírio e autoagressão.
Depois fui encaminhada para psiquiatria onde me fizeram o diagnóstico de doente bilopar.
Nós, doentes mentais, somos medicados sem diagnóstico exacto. Porquê?”
 
Dr.Álvaro de Carvalho (psiquiatra/coordenação de Saúde Mental):
Há aqui alguns equívocos. Os corticóides, numa percentagem imprecisa, podem desencadear alterações de humor, quadros de mania, ou seja, quadros bipolares, em algumas pessoas que têm uma predisposição para estas patologias, e que até aí podem não se ter manifestado.
Não é por ausência de diagnóstico, porque até aí não tinham existido sintomas. Pessoas com diagnóstico de perturbações bipolares, ou depressões, que têm que fazer corticóides por motivos de outra natureza, orgãnica ou outros,  não agravam a sua patologia de humor.
É um dado da evidência clínica. Quando outros médicos sentem alguma dificuldade, regra geral pedem ajuda aos psiquiatras.
 
Maria Duarte, de Braga:
“Sou mãe de um rapaz de 17 anos com problemas do foro psicológico, que ainda não foi diagnosticado. Fiquei chocada ao ouvir o Dr. Álvaro Carvalho dizer que existem muitos meios terapêuticos em Portugal. Pergunto o que é que entende por esses meios terapêuticos? Trata-se da existência de psiquiatras isolados ou de uma rede ao nível dos cuidados de Saúde Mental?
O meu filho tentou o suicídio e um diagnóstico feito já após essa tentativa de suicídio, por um novo psiquiatra, não relatava quaisquer sintomas. Um diagnóstico errado, porque a tentativa já tinha sido feita, embora só tivesse contado depois ao psiquiatra, porque queria ouvir uma nova opinião".
Temos muitos meios disponíveis para pessoas com doença mental, ou não?
 
Dr.Álvaro de Carvalho: Antes de pensarmos nos meios terapêuticos temos que pensar nos meios de diagnóstico. Há aqui algumas contradições aparentes. Da leitura que posso fazer, admito que o segundo colega que viu o filho desta senhora, já não terá encontrado a disposição suicída que terá existido antes.
Não sei em que contexto proferi o que a senhora disse. Quando me referia que existem várias formas de abordar os problemas psiquiátricos, referia-me à acção de vários profissionais, como psicólogos, psiquiatras e também pelo clínico geral, pelo qual passa a primeira abordagem.
Depois, as respostas podem ser orientadas por esse profissional ou por uma equipa de profissionais, que aí incluirá várias especialidades: psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais... e aí, essas equipas, regra geral, só se encontram nos serviços oficiais, mas nem todos ainda as possuem.
 
 


publicado por servicodesaude às 07:42
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Terça-feira, 24 de Março de 2009
Doenças de Pele - Introdução (por Maria Elisa Domingues)

O programa Serviço de Saúde, da RTP 1, do dia 24 de Março de 2009, debruçou-se sobre as Doenças de Pele.

Com a entrada da Primavera e depois de um Inverno mais duro que o habitual, todos ansiamos por apanhar sol; uma das grandes qualidades naturais do nosso país.

 
Mas se nem mesmo o sol quando nasce se apresenta a todos da mesma maneira, ele constitui, no entanto, banhando as nossas orlas marítimas e as praias fluviais, uma explosão de acesso democrático a um certo tipo de bem-estar. Aquele que é fruto de umas horas de convívio, de descanso e do qual pode desfrutar-se por pouco dinheiro.
Só que, a exposição prolongada ao sol comporta inúmeros riscos, sobre os quais todos os anos ouvimos os conselhos dos médicos, para logo os esquecer.
 
Tal como a propósito das doenças respiratórias referimos aqueles fumadores que, apesar do mal que o tabaco lhes faz, continuam a fumar, vamos hoje falar das Doenças de Pele, algumas provocadas ou potenciadas pelo sol; outras não.
 
Assim, falaremos sobre os vários tipos de cancro da pele, da acne, do herpes, da psoríase – doença pouco falada entre nós, mas que atinge cerca de 2% a 3% da população – e, também, da dermocosmética.
 
Como sempre, no Serviço de Saúde estarão presentes médicos e associações de doentes. Vamos começar por uma reportagem que dá conta das acções de prevenção desenvolvidas em escolas e praias do país.

 



publicado por servicodesaude às 20:26
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Doenças de Pele - Reportagem

Nem tudo o que parece é. Atrás de peles aparentemente perfeitas, escondem-se muitas vezes graves problemas que vão além das questões estéticas. A publicidade e a moda ajudaram a criar padrões de beleza associados a peles jovens, sem borbulhas ou imperfeições e bronzeadas durante todo o ano.

Mas a exposição aos raios ultra-viloleta é responsável pelo fotoenvelhecimento precoce e pelo cancro de pele.
 
Osvaldo Correia (Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo): “A maioria dos cancros de pele, cerca de 90%, estão associados a comportamentos errados que tivémos sobretudo quando éramos crianças ou adolescentes. Ou por queimadura solar ou por horas excessivas de exposição ao sol. Ou, ainda, por outras formas de exposição aos raios ultravioleta, como a exposição aos solários, que são uma fonte de ultravioleta agressiva que todos devemos evitar.
 
Em Portugal, mal a temperatura aumenta, as praias enchem-se, independentemente das horas de maior calor e incidência dos raios ultravioleta. Muitas vezes ignoram-se os cuidados que todos sabemos serem necessários para manter uma pele saudável.
 
Osvaldo Correia: “O bronzeado é uma maneira da pele se defender de mais agressões dos ultravioleta e, essa agressão, sabe-se que é ao DNA das células da pele.
Algumas pessoas (umas mais que outras, porque geneticamente as pessoas são diferentes), podem vir a desenvolver cancros de pele sobretudo nos locais onde houve essas queimaduras solares, porque a pele memoriza e acumula essas agressões”.
 
Filipa Galvão (28 anos): “Até aos 18 ou 19 anos os cuidados que tive foram poucos. E mesmo os cuidados que os pais tinham conosco eram menores porque não havia tanta informação”.
 
Apesar das campanhas de informação e da exposição mediática, o cancro da pele continua a ganhar terreno. Segundo a Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo estima-se que em Portugal surjam, todos os anos, mais 10 mil novos casos de cancro da pele. Cerca de mil são melanomas, a forma mais temível de cancro da pele.
No seu conjunto estes são os cancros mais frequentes na raça humana. No entanto, a maioria pode ser evitada e, quando a prevenção falha, o diagnóstico precoce pode fazer a diferença entre a vida e a morte.
 
Cecília Moura (Serviço de Dermatologia do IPO de Lisboa): “Nas fases mais avançadas da doença, quando o tumor é mais espesso, são usadas técnicas para pesquisar gânglios que possam estar afectados e, eventualmente, esses gânglios podem ter que ser removidos”..
As fases mais tardias, com metástases à distância, já implicam tratamentos de quimioterapia, que são menos eficazes que a cirurgia e geram mais morbilidade nos doentes.
 
Cancro da Pele em Portugal
 
Carcinoma Basocelular    - 100 novos casos/100 mil habitantes
Carcinoma Espinocelular - 10 mil novos casos/ano
 
Melanoma - 10 novos casos/100 mil habitantes
                     - 1000 mil novos casos/ano
 
Filipa Galvão (28 anos): “Estava no princípio, não havia o perigo de se ter espalhado para o resto do corpo, por isso acho que o melhor que fiz foi ir a um dermatologista naquele instante. E acho que era o que toda a gente devia fazer: dar atenção para não ser tarde demais”.
 
Nunca é tarde demais para prevenir e alterar os comportamentos de risco e estar atento e observar os sinais do próprio corpo.
 
Filipa Galvão (28 anos): “Reparei que tinha um sinal, um pouco mais escuro que os outros, na coxa direita. E quando o sol reflectia era preto, preto, e quase ficava azul de tão opaco. Eu achei estranho, nunca tinha visto um sinal assim em mim”.
 
Osvaldo Correia (Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo): “O auto-exame consiste em identificar todas as partes do corpo com toda a atenção para ver se há algum sinal novo”:
 
1 - O rosto (sem esquecer as orelhas)
2 - O couro cabeludo
3 - A palma e as costas da mão, sem esquecer as unhas e os antebraços
4 - Os cotovelos, os braços e as axilas
5 - O pescoço, o peito (no caso das mulheres observar bem a zona por baixo dos seios) e a barriga
6 - À frente de um espelho e com a ajuda de outro espelho, verificar a nuca, os ombros e as costas
7 - As nádegas e a face posterior das coxas
8 - Sentado: observar a face anterior das coxas, as pernas, o peito e a planta dos pés, sem esquecer as unhas e a região genital, com a ajuda de um espelho
 
Osvaldo Correia: “Podemos assim fazer um diagnóstico precoce. Todos temos sinais: há sinais benignos, sinais a que temos que estar atentos (bordo, cor, dimensão, evolução) e há sinais de risco.”
 
A Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo, a Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia e a Liga Portuguesa Contra o Cancro, têm promovido várias acções directas nas escolas e praias do país.
 
Osvaldo Correia:: “O que pretendemos com estas acções é que as pessoas alterem as regras de convívio com o sol e também a detecção precoce das lesões de risco.
Sabemos que no caso das crianças os locais mais frequentes de queimaduras solares são nos recreios das escolas”.
 
Irene Santa Comba (coordenadora do Projecto Ecoescola do Colégio do Rosário): “No recreio as crianças podem brincar sem estarem expostas ao sol. Os mais pequeninos são obrigados a usar chapéu. Durante a época balnear usam sempre o protector e, nessa altura, alguns já trazem de casa”.
 
Maria do Carmo Vieira (coordenadora Centro Social e Paroquial Nossa Sr.ª da Ajuda): “Entretanto tentamos fazer uma vigilância o mais apertada possível, principalmente nas horas de maior incidência solar. Não vimos cá para fora. Se somos mães, não vamos fazer aos outros o que não queremos que façam aos nossos”.
 
Se com as crianças o poder dos adultos ainda é efectivo, com os adolescentes o caso é mais complicado.
“Apesar deles estarem sensibilizados, o certo é que continua a preponderar a moda. Os nossos adolescentes, quando começam a surgir os primeiros raios de sol, despem uma boa parte do seu corpo e, apesar de alguns terem cuidado, expõem-se muito ao sol”.
 
Os melanomas são causados por factores ambientais. No entanto, estima-se que 2% dos casos tenham uma origem hereditária. A genética pode aumentar o risco em mais de 50%. No IPO do Porto, uma equipa de investigadores já identificou duas famílias portuguesas portadoras desta mutação genética:
 
Manuel Teixeira (Serviço de Genética do IPO do Porto): A partir de uma análise normal ao sangue, se identificarmos essa mutação genética no indivíduo afectado, é possível estudar todos os familiares directos e ver quais é que têm um risco comparado à população normal. ou os que têm um risco aumentado e que têm que fazer uma vigilância especial”.
 
A investigação tem dado passos importantes mas há ainda um longo caminho a percorrer. Nos E.U.A., um estudo recente estima que uma em cada cinco pessoas de raça caucasiana venha a desenvolver cancro de pele e que um, em cada cinquenta, seja um melanoma. Por enquanto, a prevenção e o diagnóstico precoce são as únicas armas de combate ao aumento da prevalência do cancro cutâneo.


publicado por servicodesaude às 19:32
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Doenças de Pele - Prevenção Cancro – sol, cremes e mitos (1-2)

Em relação ao cancro da pele, aquele que certamente mais nos preocupa é, certamente, o melanoma, a sua forma mais grave. E apesar de todos os anos os médicos procederem aos mesmos avisos, há quem continue a infringir as regras que se sabe serem as mais adequadas, nomeadamente, no que toca às horas “proibitivas” de exposição ao sol. Os pais têm culpa nisso, quando pensamos nas crianças pequenas?

 
Dra. Margarida Apetato (dermatologista e directora do Serviço de Dermatologia do Hospital dos Capuchos): Claro que sim. Vemos as praias cheias a horas que não deveria estar lá ninguém. E é evidente que nessas idades é extremamente importante que a quantidade de radiação ultravioleta recebida seja o mais baixa possível para minimizar eventuais efeitos a longo prazo.
 
As células memorizam toda a informação errada que receberam…
Mais tarde, toda a radiação ultravioleta que a nossa pele recebeu vai ser memorizada e a nossa pele vai ser o espelho disso. O sol é um acelerador.
Agora, a pele das crianças tem características particulares, tem menos defesas que as peles mais maduras. É a pior idade.
Os médicos, a Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo e até os pediatras, têm batalhado muito para que no primeiro ano de vida do bebé não haja exposição em absoluto e, no segundo, apenas em algumas horas.
 
A própria indústria dermocosmética põe à venda cremes que provocam nas pessoas a sensação de que têm ali um filtro, ou mesmo um écran total, que não deixa acontecer nada…
Dr. Luís Leite (dermatologista e director clínico da Clínica Médica de Belém): De facto há hoje uma corrente de dermatologistas americanos que diz que os protectores solares não vieram ajudar, mas sim aumentar a incidência do cancro cutâneo.
As pessoas vão para o sol como se tivessem um escudo invisível, despreocupadamente, na ignorância total. E, entre certas horas, nem com os supostos cremes que dizem “écran total”. Eu digo aos meus pacientes que a hora proibitiva é entre o meio-dia e as 16h30.
 
Até às 17h00 ainda é considerado um período “amarelo”, ou seja, não é completamente seguro… Exactamente.
 
Partilha dessa afirmação polémica dos seus colegas americanos de que alguns produtos vieram piorar, em vez de melhorar a prevenção?
Dr. Luís Leite (dermatologista): Partilho, porque as pessoas acabam por apanhar radiação ultravioleta em excesso nas horas mais críticas. E sabemos que as alterações climáticas têm contribuído para isso.
É um mito os pacientes dizerem “não estou permanentemente ao sol, estou na praia de um lado para o outro” ou “estou sempre dentro de água”. Ora, as radiações ultravioleta penetram bem até aos 50cm, às vezes até mais. É necessário desmistificar uma série de mitos.
 
Mesmo as pessoas mais esclarecidas pensam muitas vezes que se puserem o creme e depois o renovarem após o banho, que isso chega. Mas não é assim pois não?
Dra. Martinha Henriques (dermatologista e directora do Serviço de Dermatologia do Hospital de Santo André, em Leiria): Não. À partida os protectores solares devem ser colocados pelo menos 30 minutos antes antes de se ir para a praia. E depois de se ir à água tem que se renovar a aplicação.
Mas há outro problema com os protectores solares. Eles têm um determinado índice de protecção, mas que foi estudado em laboratório, em condições ideais. A maior parte das pessoas não os aplica na quantidade correcta de forma a atingir os 30 ou os 50 de factor de protecção que se pretende.


publicado por servicodesaude às 18:35
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Doenças de Pele - Cancro: tipos, gravidade e detecção precoce

Nos casos mais extremos encontram-se cancros de pele mas, felizmente, nem todos têm a mesma gravidade. Tal como noutras doenças, o fundamental é fazer a detecção precoce?

Dra. Martinha Henriques (dermatologista): Sim, há tumores cutâneos malignos diferentes. Uns que são muito frequentes, como os carcinomas basocelulares e espinocelulares, mais associados à exposição ao sol, e que afectam certos trabalhadores muito expostos ao sol. E depois temos o melanoma, que está mais ligado à exposição aguda e intermitente. Os primeiros são muito frequentes, mas menos agressivos (embora possam ser agressivos localmente e o espinocelular se possa metastizar), mas não têm a gravidade do melanoma.
 
A maior parte das campanhas têm como objectivo alertar para o melanoma que é um dos tumores mais graves. E o tratamento passa por uma detecção precoce.
Para termos uma ideia da importância da detecção precoce; se tirarmos um tumor até 0,75 mm de espessura, depois da excisão da lesão, podemos dizer que aos cinco anos a sobrevida é superior a 95%. Mas se tirarmos um tumor com 3 mm de espessura, a sobrevida aos cinco anos já só é de 60%. E se for um tumor que já esteja metastizado, a taxa de sobrevida aos cinco anos é inferior a 5%.
Estes valores permitem-nos entender a importância do diagnóstico precoce do melanoma.


publicado por servicodesaude às 17:37
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Doenças de Pele - Prevenção Cancro – sol, solários e mitos (2-2)

Se perguntasse aos três dermatologistas aqui presentes, se seria melhor levar uma criança à praia nas piores horas, por impossibilidade das famílias irem mais cedo, ou não as levar de todo à praia, qual seria a resposta?

Dr. Luís Leite (dermatologista): Obviamente, ou não as levar, ou ir depois das 16h30.
Estar à sombra dá alguma protecção, mas apanha-se na mesma com a radiação reflectida: na água, na areia, ou na piscina, através dos muros brancos que a rodeiam.
Tudo serve de factor reflector de radiação ultravioleta. O estar à sombra é também uma solução muito parcial. E se for um toldo, o algodão é o que deixa passar menos, mas também deixa passar os ultravioleta.
(Os australianos são pioneiros na produção de vestuário que confere um certo grau de protecção solar e, mesmo em Portugal, também já existem este tipo de empresas).
 
O dito “escaldão” que muitos adolescentes apanham quando se esquecem de por o protector solar e qualquer pessoa que vá acumulando “escaldões” ao longo da sua vida têm uma maior probabilidade de vir a ter uma patologia cancerígena?
Dra. Margarida Apetato (dermatologista): Claro que sim. Sobretudo quando a exposição não é contínua ao longo do ano. Tem sobretudo a ver com o aparecimento de lesões pigmentadas malignas. Sabe-se que os adolescentes fazem muito isso porque vivem a ansiedade moderna de um bronzeamento rápido.
 
Este novo ideal de beleza veio prejudicar as mulheres? Há um século atrás a mulher era branca, agora o objectivo é estar “queimado” todo o ano?
Dr. Luís Leite (dermatologista): Já não é.  
 
Dizem-nos que não é, mas todos os anos vemos imensos exemplos…
Na minha opinião o ideal já mudou…Veja a Claudia Schiffer, a Juliette Binoche, a Adjani, a Nicole Kidman. Até a Camila do príncipe Carlos se desloca de sombrinha…
 
A propósito de bronzeamento artificial, os solários ainda correspondem a este ideal de beleza; uma forma de se ficar bronzeado…
Dr. Luís Leite (dermatologista): São fábricas de cancro de pele, é preciso dizer isto de uma orma nua e crua. E serão sempre, façam o que fizerem.
 
Dra. Margarida Apetato (dermatologista): São um negócio, que só existe porque as mentalidades ainda não se alteraram, mas são carcinogénicos.
 
Dra. Martinha Henriques: As pessoas são livres de fazerem o que quiserem mas o nosso dever é alertá-las. Porque as pessoas ainda não estão consciencializadas. Há 20 anos ninguém ouvia falar em solários.
Hoje não sabemos quantos existem, quais os locais onde estão a funcionar. Em 2005 saíu um decreto lei que legislou os centros de bronzeamento artificial, de acordo com a legislação comunitária, mas não se trata apenas da utilização de máquinas, de aparelhos.
 
Dr. Luís Leite (dermatologista): Também não há cuidado com os pescadores, os trabalhadores da construção civil e os profissionais que trabalham na agricultura, que têm direito à protecção. É assim em toda a Europa e é assim cá, como se o clima ou as horas de sol fossem os mesmos em todos os países.
 
A DECO (Associação de Defesa do Consumidor) chumbou mais de metade dos 23 solários que visitou, considerando que eles infringem a lei ao não entregarem aos utentes uma declaração com informação sobre riscos e conselhos.
O estudo será publicado em Abril de 2009 na revista da DECO e diz ainda que a maioria não garante o uso seguro dos aparelhos de bronzeamento artificial.
 


publicado por servicodesaude às 16:40
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Doenças de Pele - Crianças ao sol - os riscos

Paula Jorge, 42 anos, nadadora-salvadora, do Seixal (telefonema):

Sou nadadora salvadora desde 1984 e, há uns anos, ainda se via os pais levarem os filhos cedo para a praia, das 8h30 ás 11h, 11h30 da manhã.
As pessoas gostam de dormir de manhã, sobretudo durante os fins-de-semana e nas férias e estamos no serviço e vemo-las a entrar na praia ao meio dia, ou a seguir à hora de almoço, com crianças de berço!
 
Não podemos dizer nada senão ainda somos ofendidos. Mas na formação de um nadador-salvador é-lhe sempre dito que tem a obrigação de chamar a atenção às pessoas, até porque muitas adormecem ao sol.
 
As pessoas de ascendência africana também se fiam demasiado na sua pigmentação da pele. Nunca as vemos a usar protector solar.
 
Outra situação grave é a dos colégios. Certamente devem existir regras a cumprir em termos de vestuário, que proteja melhor as crianças, mas o que acontece é que mesmo quem vai monitorizar as crianças chega à praia de biquíni.
 
Queria no entanto reforçar a primeira parte da minha intervenção. Quando vejo as pessoas a entrar na praia com toda a descontracção a seguir ao almoço, dá vontade de lhes perguntar se querem assassinar os filhos…
Isto revolta-nos como técnicos de emergência médica e como socorristas.

 



publicado por servicodesaude às 15:50
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Doenças de Pele - Tratamento da acne - jovens e adultos

A acne diz sobretudo respeito aos jovens, mas também há acne em pessoas mais velhas?

Dra. Martinha Henriques (dermatologista): A acne é uma doença fundamentalmente dos adolescentes mas há acnes tardios, muitas vezes hormonodependentes.
Mesmo nos homens que têm a pele muito oleosa pode continuar a haver acne do dorso.
Nas mulheres, a acne tardia tem outras características, muitas vezes já não tem tantas púistulas, é mais localizado nas áreas mandibulares, mas pode-se manter.
 
No tratamento da acne o vosso papel enquanto dermatologistas é também muito o de psicólogos ou psiquiatras, porque um jovem com acne pode ser muito penalizado pelo aspecto que transmite aos outros, por vezes de quase repulsa, quando há formas de acne muito violentas…
Dra. Margarida Apetato (dermatologista): Sim, sentimos todos isso. Há um acne ligeiro, que não molesta muito em termos psíquicos. Mas pode ser de grau moderado, e já ter um grau de interferência importante nesta idade, em que a imagem é preponderante. E depois há a acne muito grave.
Embora seja uma doença transitória, própria de uma determinada idade, pode estender-se para lá dela, por isso temos que ajudar sob o ponto de vista psicológico mas sobretudo com as terapêuticas que usamos. Sermos eficazes, conseguirmos resultados, porque hoje em dia há tratamentos eficazes para a acne.
 
Mas também aí há uma plêiade de medicamentos, que prometem resolver o assunto quase de um momento para o outro…
Dr. Luís Leite (dermatologista): Os que são anunciados é porque não são vendidos, portanto, não são para utilizar…
Hoje há estudos que mostram que cerca de 80% dos jovens com acne têm, em maior ou menor grau, depressão. Um dos medicamentos que mais utilizamos na terapêutica da acne é uma substâsncia derivada da vitamina A que se chama isotretitoína.
 
Quero aproveitar para desmistificar os malefícios da isotretitoína, com o qual tenho mais de 30 anos de experiência e nunca tive um problema. Tudo tem a ver com a dose. É uma droga seguríssima e eficaz no tratamento da acne. Evidentemente, prescrita pelo médico.
Uma mulher que esteja a tomar isotretitoína não pode engravidar enquanto durar o tratamento. Se mudar de ideias, tem que interromper o tratamento quatro semanas até poder engravidar.
 
A indústria farmacêutica é um negócio. Antigamente a acne tratava-se com antibióticos e as pessoas andavam anos a tomar antibióticos. Como o filho de um senador morreu de suicídio e andava a tomar esta substância (isotretitoína), daí até concluir-se que causava depressão e que levava ao suicídio, foi muito rápido.
 
A Academia Americana de Dermatologia conduziu um estudo onde foi demonstrado que a isotretitoína não causa depressão. Tenho pacientes que estão a tratar-se de depressão, por outros motivos, e tomam isotretitoína. E mais: a taxa de suicídio em pessoas que tomam isotretitoina é inferior à taxa de pessoas que não tomam.
Mas muitas vezes os farmacêuticos põem em causa a nossa prescrição…


publicado por servicodesaude às 14:55
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Doenças de Pele - Psoríase - Estigma de contágio e terapêutica (1-2)

A psoríase atinge, em todo o mundo, aproximadamente, 2% a 3% da população. É uma doença que levanta muitas dificuldades sociais porque quando é visível (certas feridas), as pessoas sentem-se estigmatizadas e quase têm vergonha de aparecer, socialmente. O objectivo da associação é lutar contra esse estigma…

João Cunha (presidente da Associação Portuguesa de Psoríase): Esse é um dos objectivos da associação. Em primeiro lugar divulgar a doença e passar a mensagem, essencial, de que a psoríase não é contagiosa.
Outro dos objectivos é que haja uma melhoria na qualidade de vida dos doentes. E essa melhoria passa, basicamente, por essas pessoas terem o acesso aos medicamentos.
Hoje existem muitos doentes que não se conseguem tratar, por vários motivos. Em alguns casos por não poderem comprar os medicamentos.
Esta é uma doença crónica, para os doentes e para os médicos, mas não é reconhecida como tal pelo Serviço Nacional de Saúde e esse é justamente outro dos objectivos da associação. E já existem terapêuticas que permitem viver muito melhor com psoríase, têm é que estar ao alcance de todos.
Por fim, outro dos objectivos da associação é criar algumas formas de apoio aos doentes, que passam essencialmente pelo apoio psicológico.
 
A psoríase, para além do aspecto estigmatizante, aparece ainda associada a outras doenças?
Dra. Martinha Henriques (dermatologista): Antes a psoríase estava muito no seu local da pele. Agora a psoríase ultrapassa muito a questão da pele.
Cerca de 20% a 30% dos doentes vêm a ter artritre psoriática, um tipo de artrite. E também se sabe hoje que a psoríase pode estar associada a outras comorbilidades: a diabetes, a obesidade, a dislipidémia, a hipertensão...
Por isso, estamos hoje a tentar abordar o doente de uma forma diferente.


publicado por servicodesaude às 13:57
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Doenças de Pele - Psoríase: estigma de contágio e terapêutica (2-2)

Cremilde Silva, 59 anos, empresária, de Tires (telefonema):

O meu marido tem psoríase. Como tenho uma neta em casa, receio que possa haver contágio.
Também acho que o meu marido se sente estigmatizado e tenho tentado convencê-lo a contactar a associação.
Dra. Margarida Apetato (dermatologista): Tem que se acabar com esse mito de uma vez por todas: a psoríase não é contagiosa. O problema das doenças crónicas cutâneas é que são visíveis. E isso reflecte-se no dia-a-dia das pessoas em termos físicos, psíquicos, sociais, ocupacionais e profissionais.
Se têm lesões visíveis nas mãos fogem muitas vezes do cumprimento de mão; se têm problemas ao nível do couro cabeludo (por vezes uma das zonas mais afectadas) têm alguma dificuldade em ir aos cabeleireiros, aos barbeiros...
Não entendo como certas ideias ainda se mantêm, mas quanto mais se falar da doença e os doentes se ajudarem entre si, melhor viverão.
Hoje existem vários opções de tratamento da psoríase, da moderada à grave, que permitem o controlo da doença. E estão a surgir novas terapêuticas.
 
Mesmo a nível sexual, não há qualquer perigo de contágio?
Dr. Luís Leite (dermatologista): Há formas de psoríase localizadas única e exclusivamente na área genital ou péri-genital. E que podem ser devastadoras para a sexualidade de um casal.
Depois há situações muito pessoais. Lembro-me de uma rapariga com 20 anos, que tinha casado há pouco tempo e andava a fazer fototerapia. O marido não lhe tocava!
As formas de psoríase nos genitais andam muitas vezes mal rotuladas de candidíase, apesar de hoje serem muito bem controladas com substâncias tópicas.


publicado por servicodesaude às 12:59
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Doenças de Pele - Psoríase em crianças

A sua filha tinha dois anos (agora tem nove), quando llhe apareceu a psoríase?

Ana Rodrigues: É verdade. Os primeiros sinais apareceram por volta dos dois anos e levou algum tempo até sabermos que era, de facto, psoríase. O diagnóstico foi difícil e os médicos que consultei disseram-me que não era comum a psoríase aparecer tão cedo. Antes de lhe ter sido feito o diagnóstico correcto foi-lhe diagnosticado eczema, alergias…
Agora tem nove anos, mas tem sido difícil controlar a doença. Já não tanto pelo aspecto da pele, mas muito pelo trauma que lhe ficou pelo tempo em que as manchas e as feridas eram tão visíveis - da cabeça aos pés - que ela se sentia diferente na escola, na praia…
 
Conseguiu que ela se habituasse a essa ideia apenas com a ajuda da família ou pediu outro tipo de ajuda?
Ana Rodrigues: Tem também o acompanhamento de um psicólogo e de um pedo-psiquiatra que, ao longo dos anos, a têm vindo a acompanhar. Por outro lado, ajuda muito o facto do meu marido também ter psoríase e saber lidar bem com a doença.
A ele apareceu-lhe aos 12 anos e depois de ter tentado tudo e mais alguma coisa para lutar contra a patologia, aprendeu a conviver com a situação; o que também ajuda a minha filha.
 
Há alguma evidência científica que haja uma carga genética no caso da psoríase?
Dr. Luís Leite (dermatologista): Há uma predisposição genética. E muitas vezes os pais podem apenas transmitir aos filhos e neles nunca se manifestar, por nunca ter existido contacto com o factor desencadeante.


publicado por servicodesaude às 11:01
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Doenças de Pele - Psoríase: comparticipação medicamentos

Manuel Ferreira, da Trofa (telefonema):

Gostava de perguntar ao presidente da Associação Portuguesa de Psoríase se esperam vir a obter uma maior comparticipação nos medicamentos. Temos que os tomar diariamente e muitas vezes não nos conseguimos tratar pela falta de dinheiro para os medicamentos…
 
João Cunha (presidente da Associação Portuguesa de Psoríase): Agradeço a questão, e desafio-o, desde já, a associar-se.
Como os médicos aqui presentes reconheceram, esta é uma doença crónica, e queremos que seja reconhecida como tal.
Os próprios fármacos, que as pessoas não podem pagar, fazem com que o impacto da doença aumente. Quando se fala que alguns produtos de dermocomética deviam passar a medicamentos, se calhar seria bom pensar o mesmo relativamente a alguns auxiliares terapêuticos utilizados na psoríase. Para nós não são cosmética; são fundamentais.
Na nossa perspectiva sai mais caro ao Estado tratar os doentes com psoríase num estado mais avançado. Parece-me fundamental que a pessoa possa ser logo tratada depois de ter sido diagnosticada a psoríase.


publicado por servicodesaude às 10:03
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Doenças de Pele - Impacto psicológico: acne, psoríase, eczemas

Como noutras doenças, referimo-nos ao seu impacto psicológico. E mesmo a acne, que é tão vulgar, pode provocar grandes perturbações e até levar alguns jovens a pensar em suicídio...

O impacto psicológico é muito grande em idades em que a personalidade não está ainda bem estruturada e em que a imagem corporal tem uma enorme importância?
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra, Coordenação Nacional de Saúde Mental): Há uma correspondência entre definição de identidade do adolescente e imagem, muito concentrada no corpo. E quando há um aspecto do corpo que chama a atenção e que dá a sensação de não normalidade, leva a um deslocar dessa distorção e, eventualmente assim, esconder problemas de natureza emocional.
Depois há um outro aspecto que merece a pena salientar. É que a origem embrionária da pele é a mesma do sistema nervoso. Por isso as pessoas dizem que “a pele é o espelho da alma”.
No acne, na psoríase e em alguns eczemas, é muito evidente que há uma corelação entre o estado emocional e a melhoria, o agravamento ou o aparecimento dessas patologias.
Os dermatologistas encaminham os doentes, em muitas destas situações, para um psiquiatra ou um psico-terapeuta, para darem apoio psicológico, porque a situação não tem apenas a ver com a existência de uma doença crónica, mas com a visibilidade dos efeitos e o impacto social que provoca. E depois, a nível pessoal, também com uma certa predisposição para a depressão e situações de ansiedade.


publicado por servicodesaude às 09:05
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Doenças de Pele - Ficha Técnica

Autoria, Coordenação e Apresentação

Maria Elisa Domingues
 
Convidados
Martinha Henriques
Margarida Apetato
Luís Leite
Álvaro Carvalho
Nina de Sousa Santos
 
Pesquisa
Alexandra Figueiredo
Miguel Braga
 
Reportagem
Buenos Aires Filmes
 
Produção
Miguel Braga
 
Jornalistas
Miguel Braga
Teresa Mota
Raquel Amaral
 
Gestão e Edição de Conteúdos
na Web (portal Sapo)
Natacha Gonzaga Borges
 
Imagem
Gonçalo Roquette
Filipe Lopes Graça
Arquivo RTP
 
Edição e pós-produção vídeo
Sara Nolasco
 
Pós-produção aúdio
Miguel Van Der Kellen
 
Atendimento telefónico
Nuno Gaibino
Manuel Rocha
Mariana Sousa
Ana Marta Coelho
 
Câmaras
Pedro Castro Silva
Ricardo Ramalho
Ângelo Assis
Floriano Esteves
João Sardinha
 
Mistura de Imagem
Ana Cristina Madeira
 
Controlo de Imagem
Bruno Arraiolos
 
Som
José Miguel Antunes
Joana Perucho
Tiago Romão 
 
Iluminação
Luís Silvestre 
 
Electricista
João Martins
 
Técnicos de Electrónica
José Borges
Rui Loureiro
 
Assistentes de Operações
José Fernandes
Jaime Silva
Orlando Aurélio
António Costa
 
Caracterização
Fátima Tristão da Silva
Ana Filipa
Rita Craveiro
 
Assistente de guarda-roupa
Paula Sousa
 
Registo Magnético
Bruno Albuquerque
 
Gerador de Caracteres
Manuel Barreiros
 
Teleponto
Luís Pereira Torres
 
Genérico e Grafismo
Nicolau Tudela
Teresa Martins
 
Música Genérico
Ari de Carvalho
 
Assistente de Realização
Pedro Valladas Preto
 
Anotadora
Eva Verdú
 
Chefe Técnico de Produção
Gaspar Fiúza
 
Criação Cenográfica
Gil Ferreira
 
Execução Cenográfica
Isabel Rodrigues
 
Produção
Filipa Azevedo
 
Realização
Jorge Rodrigues


publicado por servicodesaude às 08:08
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Doenças de Pele - Links

Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia

Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo
Liga Portuguesa Contra o Cancro  
Associação Portuguesa de Psoríase 
Portuguese Acne Advisory Group 
Academia Europeia de Dermatologia e Venereologia
Associação Americana de Dermatologia
http://www.skincarephysicians.com/acnenet/FAQ.html


publicado por servicodesaude às 07:10
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Doenças de Pele - Questões acne e herpes (telespectadores)

Alzira Bastos: “Tive febre aftosa quando tinha três anos. Desde então, e de acordo com os relatos dos meus pais, fiquei com herpes”.

A questão que coloca é se o herpes é uma sequela, ou não, porque tem um neto que tem febre aftosa e receia que lhe aconteça a mesma coisa.
Dra. Margarida Apetato (dermatologista e directora do Serviço de Dermatologia do Hospital dos Capuchos): De facto ela não teve uma sequela; teve uma reactivação do vírus do herpes. Aos três anos foi o causador da estomatite aftosa, e é tipicamente característico das infecções decorrentes do herpes. O vírus nunca mais ser eliminado do organismo. Fica em estado latente, adormecido, numa raiz nervosa próxima.
As lesões herpéticas são predominantemente orais e o vírus ficará nessa zona. A reactivação mais frequente é labial: é o chamado herpes labial.
Pode surgir por vários factores: de ordem física, por exposição à radiação ultravioleta, ao sol, ao frio, devido ao stress e até por algum desarranjo intestinal.
Portanto, o neto desta senhora vai ter herpes, em princípio até ao resto da vida. E  o vírus vai estar quietinho e um dia será reactivado.
 
Helena Almeida, tem 30 anos e desde os 18 que tem problemas de acne. Já consultou seis dermatologistas e não consegue resolver o seu problema. Fez tratamentos com radiações, peelings e tratamentos com comprimidos, com graves efeitos secundários, o que faz com que hoje tenha um grave problema de auto-estima. Pergunta o que há-de fazer?
Dra. Margarida Apetato (dermatologista): O acne, mesmo numa mulher de 30 anos, pode ser complicado de resolver mas existem tratamentos extremamente eficazes. Um deles é esse que a senhora fala que tem graves efeitos secundários. No entanto, apesar da longa lista de potenciais efeitos, os graves são raríssimos. Em mais de 25 anos de prática nunca tive de interromper esse tratamento.
 
É um tratamento hormonal?
Dra. Margarida Apetato (dermatologista): Não, a senhora pode já ter feito tratamento hormonal, mas esse de que a senhora fala é outro. É extremamente eficaz, mas tem que ser bem administrado em termos de doses e, eventualmente, precisa de outros medicamentos sistémicos para levar o acne à remissão.
A senhora não pode entrar em desespero e desistir porque já vimos que, quando a acne não é controlada, pode gerar diversos problemas de auto-estima.
 
Para quando está previsto o próximo rastreio do cancro de pele em Lisboa?
Dr. João Amaro (dermatologista, ex-director do Serviço de Dermatologia do IPO de Lisboa, pertence à Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo): Além de Lisboa, também se realiza no resto do país, em diversas instituições. Está marcado para o dia 27 de Maio (2009) e a lista das instituições aderentes podem ser consultadas no site da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo.
 
 


publicado por servicodesaude às 06:20
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Terça-feira, 17 de Março de 2009
Doenças Respiratórias: Introdução (por Maria Elisa Domingues)

Se é fumador, o Serviço de Saúde de hoje é para si. Se não é, mas vive em ambientes onde os outros fumam, também não perca este programa. E se sofre de qualquer doença respiratória, hoje vamos falar dos seus problemas em particular.

 
Para a esmagadora maioria dos portugueses DPOC pouco ou nada quererá dizer. Trata-se no entanto de uma grave doença respiratória que atinge mais de 5% da população activa portuguesa e é uma das principais causas de mortalidade no mundo.
A DPOC é, assim, um gravíssimo problema de saúde pública, cuja causa é o tabaco.
 
Mas doenças respiratórias são, como todos sabem, várias infecções. Algumas das mais vulgares são a pneumonia, a asma, o cancro do pulmão e a tuberculose.
O cancro do pulmão é actualmente o que mais mata, provocando, mesmo nas mulheres, mais vitimas que o cancro da mama. A sua causa é, na esmagadora maioria dos casos, o tabaco.
 
Mas o tabaco é ainda o factor causal de outros cancros, por exemplo da cavidade oral, da laringe, da faringe, mas também do esófago, do pâncreas e do estômago.
Fumar, está provado, aumenta o risco de doenças cardiovasculares, de morte súbita, de infertilidade, além de provocar o envelhecimento precoce da pele.
 
A dependência física e psíquica da nicotina é tão forte que a maior parte dos fumadores não consegue largá-la, comprometendo a sua vida, dos seus familiares e prejudicando até a comunidade, em termos económico-financeiros.
 
Doença respiratória gravíssima é também a tuberculose que, embora a diminuir, se apresenta hoje sob formas multi e ultra resistentes.
Em Portugal, só em 2008, houve 2916 novos casos. E receia-se que este número possa vir a aumentar nos próximos anos, devido à crise, já que a pobreza e as más condições de vida favorecem o seu aparecimento, assim como o de outras patologias respiratórias.

Antes do debate em estúdio, a reportagem:



publicado por servicodesaude às 23:55
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Doenças Respiratórias: Reportagem

Esmeralda Mateus (presidente da Associação de Moradores de Aldoar): Como vêem, isto é uma miséria. Viémos de Xangai há 41 anos, morávamos num “barraco” à beira da praia e não tínhamos esgotos. Eu nasci lá. Esta mulher veio de Xangai, do Bairro da Liberdade. Eu acho que era melhor viver num “barraco”, que numa casa nesta situação.

 
Maria Celeste (58 anos): Tive pneumonia duas vezes, três vezes infecção nos pulmões, tenho bronquite, falta de ar, diabetes e tenho problemas de coluna. Não posso fazer uma cama, fico logo a bufar. Começa logo a faltar-me o ar. Eu não posso viver nesta casa, não posso viver aqui. Isto é matar-me.
 
Maria Celeste aguarda que a Câmara do Porto, proprietária da casa onde reside, resolva a situação.
 
Esmeralda Mateus (presidente da Associação de Moradores de Aldoar): Humidade nestas casas… Estamos agora numas obras tão lindas, mas é por fora. E os medicamentos? Nem se tem dinheiro para comer, com o rendimento mínimo. São 180 euros. Quer dizer as pessoas aqui lutam com as maiores dificuldades.
 
As doenças respiratórias são transversais a toda a sociedade e afectam, no seu conjunto, dois milhões de portugueses.
 
Mortes por Doença Respiratória em Portugal
 
Pneumonia                3601
Cancro do Pulmão   3417
DPOC                          2716
Tuberculose               345
Asma                            183
 
(Fonte: Estatísticas de Saúde, INE 2005. Dados relativos ao ano de 2002)
 
Entre as mais prevalentes, e com maior percentagem de mortalidade e morbilidade associadas, estão as infecções como a pneumonia, a asma, o cancro do pulmão ou a DPOC - a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica -, uma patologia progressiva que abrange um largo espectro de doenças respiratórias, como a bronquite crónica ou o enfisema pulmonar. Cerca de 85% dos casos são provocados pelo tabaco.
 
Cristina Bárbara (pneumologista Hospital Pulido Valente): A DPOC é uma doença respiratória crónica que não tem cura e que se caracteriza pela existência de obstrução ao nível das vias respiratórias dos doentes. Essa obstrução condiciona ou limita a entrada ou a saída de ar dos pulmões.
Nas fases avançadas da doença, respirar para estas pessoas é bastante difícil, a tal ponto que até condiciona as actividades da sua vida diária.
 
O Ministério da Saúde implementou um projecto-piloto com vista a implementar uma rede de diagnóstico da DPOC em todos os centros de saúde do país. Para já, são abrangidas as unidades da área de influência do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e Espinho e do Centro Hospitalar de Lisboa Norte. O objectivo é travar o avanço da DPOC.
 
Cristina Bárbara (pneumologista no Hospital Pulido Valente): É um projecto muito importante, que teve como substrato o seguinte: o diagnóstico da DPOC está a ser feito muito tardiamente, só em fases muito avançadas da doença, em que os doentes são altamente sintomáticos. São geradores de internamento e o que temos para oferecer é muito menos do que se actuássemos precocemente.
 
Paula Simão (pneumologista no Hospital Pedro Hispano): Nenhum médico pode hoje por a etiqueta de DPOC se não tiver feito uma espirometria ao doente.
A espirometria é um teste respiratório extremamente simples, feito com um equipamento muito simples e barato, em que o doente faz várias manobras respiratórias através de um tubinho e um bucal.
No fundo conseguimos ver a capacidade, ou a quantidade de ar e a rapidez com que esse ar entra e sai dos nossos brônquios.
 
Aos 38 anos, com uma média de três maços de tabaco diários, foi-lhe diagnosticada uma DPOC. O confronto com a realidade da doença obrigou a medidas drásticas.
 
Jorge Almeida (38 anos): Caso não interviesse e tomasse uma atitude positiva, nomeadamente deixar o tabaco, e não deixasse de me expor a ambientes de fumo agressivos, seria esta situação – que está por detrás de mim – que me esperava a curto prazo.
Felizmente a evolução do meu quadro clínico revela que deixei de ter muitos dos sintomas associados à DPOC. Embora não seja totalmente progressivo, no espaço de um ano consegui recuperar mais 10% da minha capacidade respiratória.
 
Desde 1996 que a OMS considera o tabagismo como uma doença.
Em Portugal têm sido feitas algumas campanhas de prevenção e disponibilizados alguns meios, mas até há data não existe nenhum programa nacional de prevenção e tratamento do tabagismo.
 
O tabaco é responsável por cerca de 85% do número total de cancros do pulmão. Todos os dias 10 pessoas morrem vítimas deste tipo de cancro e todos os anos registam-se mais 4 000 novos casos.
 
Consumo de tabaco em Portugal: 19,7%
(Fonte: Inquérito nacional de Saúde 2005-2006)
 
Fumadores entre os 15 e os 24 anos: 22,4%
(Fonte: Eurostat)
 
O consumo de tabaco tem vindo a aumentar sobretudo nas faixas etárias mais baixas, o que compromete o futuro no que diz respeito às doenças respiratórias.
 
Existe um nexo de causalidade entre tabaco e doença respiratória, particularmente do cancro do pulmão e a DPOC. Mas também sabemos que favorece o aparecimento ou o agravamento da asma, patologias do interstício, que é uma patologia rara mas que também está relacionada com o tabagismo.
Portanto, se reduzirmos a prevalência, o número de fumadores e o tabagismo passivo, estamos a actuar no sentido da melhoria ou da promoção da saúde respiratória.
 
Luísa Branco criou a Associação “Respira” depois de dois internamentos provocados pelo tabaco. Hoje, passa dezoito horas diárias ligada ao oxigénio.
 
Luísa Soares Branco (presidente da Associação “Respira”): Tive um ano e meio, praticamente dois, sem fumar, mas como todos os fumadores, e todas as pessoas dependentes, o problema é que a gente retoma sempre.
Um dia dá-se uma passa ou fuma-se um cigarro e dizemos: “não vou continuar, já estou há tanto tempo sem fumar…” e depois ficamos outra vez “agarrados” e continuamos a fumar.
Só deixei de fumar definitivamente em 2001, quando estive internada. Depois de ter alta fiz algumas consultas de cessação tabágica e deixei de fumar.
Percebi, e foram muito claros comigo, que se continuasse a fumar, morria.
 
No Hospital Pulido Valente, em Lisboa, fazem-se todos os meses cerca de 300 consultas de tabagismo. A taxa de êxito anual ronda os 30%.
 
Eduarda Pestana (coordenadora da Consulta de Tabagismo do Hospital Pulido Valente): É uma dupla dependência: é uma dependência física mas também há uma grande componente psicológica e comportamental.
 
Vítima de um enfisema pulmonar, Helena começa hoje o percurso que a vai libertar do cigarro. As noites adivinham-se o período mais difícil:
 
Helena: É há noite, quando a pessoa está mais só, que o puxar de um cigarro passa a ser uma certa companhia.
 
José Miranda (56 anos): Esta é a história de um fumador que iniciou aos 13 anos e que só terminou dois ou três dias depois de fazer 47 anos e que, nos últimos quinze anos, fumava quase três maços de tabaco por dia.
 
A Organização Mundial de saúde reconhece que as doenças respiratórias são a principal causa de morte em todo o mundo e a sua prevalência tende a aumentar.
O tabaco continua a ser o inimigo número um da saúde respiratória, mas nos países com elevado índices de poluição regista-se também um aumento do número de afectados.


publicado por servicodesaude às 22:55
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Doenças Respiratórias: Apresentação dos convidados

 

Prof. Segorbe Luís - Pneumologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia; professor na Faculdade de Medicina de Coimbra e coordenador nacional da DPOC)
 
 
Prof. Carlos Robalo Cordeiro – Pneumologista doutorado e coordenador do Centro de Pneumologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
As suas principais áreas de investigação são principalmente a influência do meio ambiente na patologia respiratória e na patologia intersticial pulmonar.
 
Dra. Conceição Gomes - Pneumologista
Dra. Cecília Longo – Pneumologista
Dra. Cristina Freitas Martins - Médica de família do Centro de Saúde da Lousã


publicado por servicodesaude às 21:55
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Doenças Respiratórias: Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC)

A DPOC é, com este nome, uma entidade muito pouco conhecida dos portugueses embora afecte de forma tão impressiva os doentes e abranja um leque muito variado de patologias, não é?

Segorbe Luís (pneumologista): Antes dizia-se que era a bronquite do fumador e aceitava-se como uma realidade adquirida e não muito incapacitante. Dizia-se também “aquele fumador tem enfisema” e isso era um rótulo pesadíssimo, de quase condenação. E era um péssimo prognóstico.
São situações com grandes inconvenientes porque a maior parte das pessoas, dos fumadores que vêem a desenvolver DPOC, têm uma componente de bronquite e outra de enfisema. Logo, o termo abrangente de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica.
Actualmente começa a ter o devido lugar em termos dos media e da população em geral.
 
Se está bem definida enquanto entidade clínica, para o diagnóstico ser exacto necessita deste exame chamado de espirometria, que não é complicado, nem sequer caro, mas que ainda é pouco frequente em Portugal, não é?
Segorbe Luís (pneumologista): É verdade. É um exame que só os centros especializados é que o ofereciam e alguns centros privados.
Nos centros de saúde só lentamente é que se foi instalando a espirometria aqui e ali, mas não de uma forma sistemática, organizada, para que os dados possam ser reunidos.
 
A importância do diagnóstico através da espirometria, é que quanto mais cedo for feito este diagnóstico maiores possibilidades há de a tornar reversível até certo ponto…
Segorbe Luís (pneumologista): O resultado da espirometria, e ao afirmar a DPOC numa fase evoluída, é uma janela de oportunidade para referenciar o doente para a cessação tabágica. E é um ponto importante para a pessoa interessada em deixar de fumar.
É a medida com mais marcado benefício tem na evolução da DPOC: nenhum medicamento tem tão bom resultado como o abandono tabágico.
E logo aí, deixando de fumar, essa oportunidade repercute-se na DPOC, na patologia cardiovascular e em muitos outros riscos.


publicado por servicodesaude às 20:55
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Doenças Respiratórias: Detecção precoce DPOC – espirometria e médico de família

Muitos portugueses só têm contacto com o médico através do médico de família (aqueles que o têm). Tem possibilidade de mandar os doentes fazer este exame?

Cristina Freitas Martins (médica de família): Realmente o primeiro contacto que o doente tem no centro de saúde é com o seu médico de família, a quem atribui uma confiança que é estabelecida com a continuidade da prestação de cuidados de saúde. E a quem é devido a detecção, o diagnóstico precoce de situações que podem levar a co-morbilidades: identificar grupos de risco que possam desenvolver patologia crónica respiratória, fazer o ensinamento da cessação tabágica e o desincentivo do consumo de tabaco por parte de populações mais jovens, já que cada vez se começa a fumar cada vez mais novo.
 
A espirometria tem sido gradativamente disponibilizada em vários centros de saúde do país, mas não efectivamente em todos. E é para nós extremamente difícil fazer o diagnóstico precoce sem termos acesso ao resultado desse exame.

Muitas vezes com as condições que temos, fazendo o exame clínico e perante uma suspeição, fazemos a referenciação para um hospital. Sobretudo quando as queixas são severas e resistentes a todas as atitudes terapêuticas até aí tentadas pelo médico de família.



publicado por servicodesaude às 19:14
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Doenças Respiratórias: Tuberculose e condições socioeconómicas

Ainda ontem ouvimos a propósito do número de novos casos de tuberculose em 2008, mais de 2900, o responsável da Direcção-geral de Saúde dizer que estava muito preocupado com o facto da crise instalada – não só em Portugal, mas em todo o mundo -, poder vir a aumentar este número, uma vez que as condições de vida e socioeconómicas são muito importantes para o desenvolvimento deste tipo de patologias.

Na sua área de actuação, na Lousã, os problemas económicos, do emprego precário ou desemprego, afectam muito as populações que a consultam?
 
Cristina Freitas Martins (médica de família): Vem-se notando as condições habitacionais precárias de determinadas pessoas. Sobretudo naquela área de residência e, naturalmente, dada essa exposição, muitas vezes a ambientes com mais humidade que fomentam o aparecimento de doenças oportunistas respiratórias E as pneumonias motivam cada vez mais internamentos hospitalares, com a agudização da DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica).
 
O médico tem um papel importantíssimo nestes casos porque tem que saber sinalizar essas situações - juntamente com a sua equipa multi-profissional -, às assistentes sociais dos centros de saúde (às estruturas da Segurança Social), à equipa de enfermagem… Ou seja, accionar todos os meios que tem ao seu dispor de forma a prestar um cuidado directo e, se for necessário, prestar um cuidado domiciliário.
A proximidade do médico de família com o doente é cada vez maior.
 
No índice de desenvolvimento dos países é tido em conta a relação de proximidade com as equipas de rua e, nomeadamente, com o enfermeiro; índice que em Portugal ainda está pouco trabalhado.
As pessoas querem um médico e não ficam contentes apenas com o enfermeiro que podia prestar, e presta, importantes funções na comunidade.
Cristina Freitas Martins (médica de família): Mas na prestação dos cuidados domiciliários não é apenas o enfermeiro que se desloca, mas também o médico, sempre que percebe que é imprescindível a sua presença in loco, para observar, no local, as condições em que as pessoas vivem…
 
A situação das pessoas que vivem naquelas casas, que vimos na reportagem no Porto; as vossas equipas encontram muitas casas assim?
Cristina Freitas Martins (médica de família): Sem dúvida. Há realmente pobreza naquela zona. Não direi em larga escala, mas existe. E isso condiciona o aparecimento de doenças crónicas e infecções oportunistas, sobretudo respiratórias e, nomeadamente, a pneumonia.
 
Sempre que é oportuno, o médico acompanha, e toda a equipa que está accionada deve ser optimizada a fim de dar a melhor resposta e a mais atempada possível.
A luta que é transversal a todo o SNS é a de se tornar cada vez mais acessível: ser mais próxima na resposta ao utente que procura auxílio numa fase aflitiva. Ou não. Na nossa perspectiva de cuidados primários também abordamos o doente quando ele não tem patologia.
 
A pessoa que vai ao médico apenas para ver se está bem. Ou que vai com o seu bebé… E sabemos, por exemplo que se começa a fumar cada vez mais cedo…
Cristina Freitas Martins (médica de família): Exactamente.


publicado por servicodesaude às 18:18
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Doenças Respiratórias: Deixar de fumar e consulta de cessação

Telefonema de Luís Pinheiro, 49 anos, empregado de escritório, de Odivelas:

O meu problema é fumar. Fumo desde os 13 anos. Fui para o liceu Veiga Beirão, em Lisboa, e não por minha iniciativa mas por praxe, fui quase obrigado a fumar. E depois também gostei…continuei. Desde essa altura que continuei a fumar. Já tentei deixar de fumar várias vezes, mas realmente o tabaco é mais forte que eu.
 
Já foi a alguma consulta de cessação tabágica?
Luís Pinheiro (49 anos): Já. Há seis anos tive um problema no miocárdio e fui acompanhado no Hospital de Santa Maria. E andei muito bem durante oito meses mas depois não consegui resistir.
 
No hospital, disseram-lhe obviamente: “o senhor tem que deixar de fumar”?
Luís Pinheiro (49 anos): Disseram, disseram. E toda a equipa foi impecável, os meus agradecimentos. Eu é que realmente não resisti. Preciso quase de um tratamento de choque porque tenho esposa, dois filhos, gosto muito da vida e, neste momento, sinto que preciso de um aconselhamento mais forte. E solicitava ajuda para que este vício desaparecesse.
 
Mas já foi a alguma consulta de cessação tabágica, destinada a ajudá-lo a deixar de fumar?
Luís Pinheiro (49 anos): Já. Fui ao Hospital de Santa Maria e até ao Dr. Pádua; toda a gente me tentou ajudar, mas não resisti e voltei a fumar porque o tabaco está sempre presente… isto é uma dependência.
 
Pode fumar no seu escritório?
Luís Pinheiro (49 anos): Não, agora é proibido, mas escapamo-nos um bocadinho e vimos à rua fumar.
 
Quantos cigarros fuma por dia?
Luís Pinheiro (49 anos): Em média, em 24 horas, fumo um maço de tabaco.
 
Levanta-se de noite para fumar? Há pessoas que fazem isso…
Não, isso não, nunca fumo durante a noite.
 
Mas o que é que espera, um milagre?
Um milagre não! Eu sei que milagres não há!
 
Então o que é que lhe falta; força de vontade?
Luís Pinheiro (49 anos): Precisava, era de ajuda. E acho que as pessoas que estão ai no programa são as indicadas. Precisava de algum aconselhamento e que me indicassem um local onde me possa dirigir. E que me apoiassem, para que eu conseguisse. Era importante para mim e para a minha família. A minha mulher e o meu filho não fumam e empesto a casa toda… E tenho que ter algum amor-próprio por mim também.
 
Vamos enviar-lhe alguma documentação que o vai certamente incomodar e talvez seja um forte incentivo para deixar de fumar…
 
Vou falar com doentes que passaram a mesma situação e que conseguiram deixar de fumar. Por exemplo a Luísa Branco, presidente da Associação Respira, que também fumou durante muitos anos. Quantos?
Luísa Branco (presidente da Associação Respira): Fumei durante 20 anos.
 
Só quando teve o diagnóstico de DPOC é que a Luísa arranjou coragem suficiente para deixar de fumar? Identifica-se com o que o Luís disse?
Luísa Branco (presidente da Associação Respira): Sim, porque fiz várias tentativas para deixar de fumar.
 
O que é que há de tão poderoso no tabaco?
Luísa Branco (presidente da Associação Respira): O tabaco, pelo menos para mim… Nunca vou deixar de ser fumadora. Sou uma fumadora que não fuma, como um alcoólico ou um toxicodependente. E sinto que se pegasse num cigarro hoje continuaria a ter o mesmo prazer.
Deixei de fumar no internamento, no Hospital de Santa Marta. Foram claríssimos comigo, disseram-me exactamente o que ia acontecer se eu não deixasse de fumar.
Fiz consultas de cessação tabágica.
Tive três semanas internada. Quando saí fiz mais quatro sessões de cessação tabágica e depois deram-me alta. Tenho controlado. Não me custa habitualmente estar ao pé de pessoas que fumam, a não ser que o espaço seja fechado. Numa esplanada não me faz impressão.
Agora, acho que não são os médicos que fazem milagres. Todos nós somos agentes da nossa saúde. Eu não vou por a responsabilidade da minha saúde respiratória nas mãos de outra pessoa, se eu não faço o esforço. O esforço tem que ser feito.
 
A Luísa faz 18 horas de oxigénio por dia…


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Doenças Respiratórias: Deixar de Fumar - dificuldades e prevenção

As suas principais áreas de investigação são principalmente a patologia respiratória e a influência do meio ambiente na patologia respiratória e na patologia intersticial pulmonar. O que é que há de tão difícil na cessação tabágica? Porque é que este apelo é tão forte? E porque é que as campanhas são tão pouco sucedidas e há de cada vez mais jovens a fumar?

Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): De facto o tabagismo é uma adição muito forte, como outras adições, permitidas ou não permitidas.
Tendo também em conta o que vimos na peça, faz pensar que de facto o mais importante é a prevenção primária, porque é muito difícil deixar de fumar.
Temos ajudar todos os doentes que fumam e todas as pessoas que fumam e ainda não estão doentes, mas acho que onde devemos incidir mais incisivamente é no ensino secundário; na fase em que as pessoas começam a fumar.
 
No ensino secundário, ou mesmo no primário?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): No primário e no secundário. O pico do início do hábito tabágico, andará pelo 9º ano de escolaridade.
 
O telespectador – o Luís - disse que começou a fumar aos 13 anos e que não era por sua vontade. Era da praxe, era uma espécie de iniciação, de ritual…
E mesmo com todas as campanhas que há, com tudo o que se sabe sobre o tabaco – vimos na reportagem os pulmões de alguém todos pretos – as pessoas esquecem-se que o tabaco faz mal a quase todos os outros órgãos. Porque é que continuam a fumar?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Claro. Continuam porque é muito difícil deixar de fumar.
 
E porque é que começam a fumar?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Isso é outra questão. Começam a fumar por múltiplos aspectos. Por uma natureza social, de afirmação, por uma questão de companhia.
É uma imagem que nos foi passada e que está enraizada até pelas imagens que nos foram sendo mostradas, de algum bem-estar. Hoje felizmente que isso já está afastado.
 
E até uma imagem de uma certa virilidade. Lembramo-nos do anúncio da Marlboro, com o cowboy…
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Actor que, por acaso, já morreu com carcinoma da laringe, causado pelo hábito tabágico.
Mas esse paradigma mudou. O personagem Lucky Luck, que nós víamos com o cigarro ao canto da boca, mudou o cigarro por uma palhinha. E isso foi anunciado pelo Morris, como uma mensagem que queria passar. E isso de facto tem funcionado.
 
Os primeiros estudos que relacionam directamente o tabaco com os efeitos nocivos que tem, nomeadamente o cancro, foram publicados nos anos 60, nos E.U.A. E estamos aqui, em 2009, a discutir porque há cada vez mais pessoas a começarem a fumar.
Na Ordem dos Médicos é o responsável pelo Colégio de Pneumologia.
A formação dos médicos é adequada a essa prevenção que deve ser feita junto dos doentes?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Sim, esse é um aspecto que é privilegiado em todas as áreas de formação de um médico e num pneumologista, neste caso.
O pneumologista tem que ter várias valências para ser especialista; algumas em cuidados de saúde primários, outras na área das consultas relacionadas com o tabagismo e a prevenção são áreas, a todos os títulos, privilegiadas.
Estamos a falar do tabagismo activo mas também no que se refere ao tabagismo passivo.
O telespectador que telefonou também apontou um aspecto muito importante; o facto de também estar a prejudicar os outros que estão em casa, os filhos e a mulher.
 

De facto, hoje sabemos – é um dado conhecido relativamente ao tabagismo passivo -, que tem influência nas infecções e nas crises de asma, que pode provocar em crianças, mais tarde.



publicado por servicodesaude às 16:24
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Doenças Respiratórias: Estatísticas de “morte” pelo tabaco

Do ponto de vista da comunidade, financeiramente, podemos medir as implicações dos internamentos, das operações, dos cuidados farmacêuticos, das mortes e até do absentismo provocado pelo tabaco?

Segorbe Luís (pneumologista): Os custos são enormes. Posso dizer que 12% das mortes em Portugal são atribuídas ao tabaco. Os números são enormes. São custos de morbilidade e custos de saúde, directos e indirectos, que são difíceis de quantificar: em qualidade de vida, em compromissos familiares e sociais que o tabaco acarreta.
 
E através das várias doenças respiratórias que podem estar associadas, há também um certo número de absentismo?
Segorbe Luís (pneumologista): De absentismo e até da própria produtividade.
A questão também se coloca num outro plano, que é o plano da morte prematura e dos dias perdidos de vida. Ou seja, há os dias perdidos com má qualidade de vida e há os dias perdidos por morte prematura. Morre-se mais por se ser fumador.
 
A esperança de vida de um fumador diminui cerca de 10 anos.
Segorbe Luís (pneumologista): Ou mais. E voltamos ao caso preocupante dos adolescentes já que o vício da nicotina é adquirido rapidamente; é adquirido em semanas.
 
A nicotina actua no cérebro exactamente como outras drogas. Até mesmo como algumas drogas duras, não é?
Segorbe Luís (pneumologista): Os medicamentos modernos simulam os efeitos da “satisfação”da nicotina nos receptores. É um fenómeno orgânico. Um dependente de nicotina sofre com a falta dela.
 
Sofre a síndroma da abstinência, como outras pessoas dependentes de outras drogas, de outros consumos…
Por exemplo a terapêutica de substituição da nicotina tem maus resultados: pensos transdérmicos, pastilhas, gomas… os melhores resultados que conseguiram obter andarão pelos 12%.
 
O que é francamente medíocre…
É mau. Um aumento sério do custo do tabaco não anda nesse valor, mas quase. Está demonstrado. Com muitos efeitos nos adolescentes, por exemplo.
 
Defendia um aumento sério do custo do tabaco?
Segorbe Luís (pneumologista): Já o fizeram, mas o tabaco em Portugal ainda é relativamente barato, principalmente quando comparamos com outros países da Europa.
 
Embora a Espanha tenha um índice de consumo tabágico muito superior ao nosso.
O aumento do custo do tabaco, quando é significativo, reduz logo a população fumadora em 5% a 6%.
As medidas que tivemos com a publicação da lei que saiu em fins de 2007 – e que entrou em vigor no inicio de 2008 - trouxe um beneficio de redução de fumadores no país que não atingiu ainda os 10%.
 
E também se sabe muito pouco ainda sobre a aplicação da lei.
Há muitas pessoas que deixaram de fumar tanto em público mas porventura passaram a fumar mais em privado.
Segorbe Luís (pneumologista): Há sociedades em que é assim. Temos sociedades onde existem medidas muito restritivas em termos sociais quanto ao tabagismo. Mas, os números do cancro do pulmão são muito atrasados…
Agora vamos ter as DPOC, consequência do tabagismo nos anos 70. As consequências são retardadas.
 
E são silenciosas também, não é? Enquanto as consequências do alcoolismo tem uma expressão muito violenta, próxima do consumo; aqui há uma diferença temporal grande…
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Se é verdade que esta legislação fez com que entre 5% a 10% da população deixasse de ser fumadora, também é verdade que cerca de 25% dos fumadores diminuíram bastante o consumo. As razões são óbvias: não têm tempo para consumir mais, começam cada vez a consumir menos e eventualmente deixarão a adição.
 
Não há índices de consumo seguros. Há estudos recentes que provam que mesmo o consumo de cinco cigarros por dia tem consequências desastrosas a nível da saúde, não é?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Claro que sim, por exemplo a nível cardiovascular qualquer cigarro afecta seriamente. O risco de cancro de pulmão é linear ao número de cigarros consumidos.
 
Qualquer consumo tem algum risco?
Segorbe Luís (pneumologista): Tem, até o passivo. E as mulheres têm mais risco de desenvolver cancro do pulmão.


publicado por servicodesaude às 15:27
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Doenças Respiratórias: Transplante de pulmão

Telefonema Maria Helena, 60 anos, reformada, da Figueira da Foz:

Sou fumadora passiva e já tenho muitas complicações, desde o DPOC, bronquite asmática, enfisema pulmonar e fibrose quística no pulmão esquerdo.
Se continuasse a andar em Pneumologia, aqui nos hospitais da Figueira… Ainda mudei de um médico para outro a pensar que ficava melhor…
Depois informaram-me de um médico em Coimbra, o Dr. Celsos Vieira, director da Pneumologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra, e foi quem me valeu.
A senhora que está aí passa 18 horas ligada ao oxigénio. Eu estou durante 24 horas, além da medicação que faço.
 
Portanto, deixou de trabalhar?
Maria Helena (60 anos): Já há muitos anos, fui reformada por invalidez porque não podia mesmo trabalhar.
Ter ido para Coimbra foi a minha salvação. Tive um internamento de mais de meio ano, por duas vezes, em 2005, e no ano passado foi-me proposto – estão a estudar o caso – um transplante do pulmão esquerdo, que é o que tem fibrose quística (ambos têm enfisema pulmonar).
Mas não sei se serei operada em Coimbra, porque os médicos só estão a operar pessoas em fase terminal, com três a cinco meses de vida, que ainda não é o meu caso.
 
Os transplantes do pulmão, como sabe, são extremamente complexos…
 
É verdade que só propõem para transplante de pulmão, doentes em fase terminal, com poucos meses de vida?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Há indicações, e também contra-indicações rigorosas, para referenciar um doente para transplante pulmonar. Por exemplo doentes com determinadas patologias; algumas aqui citadas e que fazem parte dessa lista.
É evidente que só se referenciam doentes para transplante pulmonar em situações de fim de linha, nos casos em que outras terapêuticas falharam. Não quer dizer que sejam situações de fim de vida, e que têm três a seis meses de vida. Mas são de facto situações que já estão bastante evoluídas, que têm uma esperança de vida mais baixa, mas que têm também que cumprir certas condições mínimas para serem submetidas a esse transplante.
 
De qualquer forma estes transplantes são extremamente complexos?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): São extremamente complexos, mas não do ponto de vista técnico, sobretudo na fase posterior - no acompanhamento -, porque dão origem a várias complicações. Não só no pós-operatório imediato, porque o pulmão é um órgão muito reactivo, com uma grande riqueza imunológica e nós estamos muitos expostos ao exterior, mas também em todo o interior, através da ligação à circulação.
E como o pulmão é um órgão imunologicamente muito rico, tem que se submeter estes doentes a drogas imuno-supressoras, de facto em dosagens importantes.
 
Que podem depois induzir a outros efeitos secundários complicadíssimos?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Infecções oportunistas, por exemplo. Se bem que a rejeição também pode acontecer, por causa do pulmão ser um órgão imunitário relevante. Este é um factor muito importante do insucesso do transplante.
 
Hoje em dia, por enquanto, fazem-se muito poucos transplantes do pulmão em Portugal. E há uma ligação cada vez mais acentuada com a Corunha, para onde são mandados muitos doentes portugueses. Porquê?
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): É verdade. Tem havido alguma irregularidade na realização dos transplantes pulmonares em Portugal e a Corunha tem tido de facto um papel muito importante para algumas dezenas de doentes portugueses que já lá foram transplantados.
E neste momento muitos órgãos que são colhidos em Portugal têm como destino a Corunha precisamente porque eles dão um apoio muito forte.
Neste momento penso que está em elaboração um protocolo para que possa acontecer em breve um programa de transplante pulmonar, precisamente no nosso Hospital da Universidade de Coimbra, dentro da cirurgia cardiotorácica.


publicado por servicodesaude às 13:30
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Doenças Respiratórias: Fumadores passivos - o caso dos bombeiros

Fumadores passivos, não fumadores, mas sujeitos ao contacto com partículas e ambientes altamente nocivos, são os bombeiros.

A Dra. Cecília Longo é a presidente da Associação Chama Saúde que procura definir melhor o perfil dos bombeiros e interessar-se mais pela quantidade de substâncias que de uma forma altruísta muitos desses homens são obrigados a ingerir. Neste caso não é porque queiram fumar mas porque o trabalho assim os obriga, não é?
 
Cecília Longo (pneumologista): Tudo veio através da poluição atmosférica pela qual sempre me interessei. Os bombeiros voluntários não eram seguidos do ponto de vista da saúde respiratória nem de nenhum órgão. Fiquei muito admirada na altura e começámos a reunir pessoas e esforços.
Neste momento estamos a fazer rastreios cardiorespiratórios e tentamos dar apoio fazendo apelo às entidades, nomeadamente ao MAI, ao Ministério da Administração Interna e ao Ministério da Saúde, de forma que estes homens possam ser seguidos do ponto de vista respiratório.
Fizémos um estudo em 2007, e já apresentámos os resultados da parte respiratória. Constatámos que mais de 20% dos nossos bombeiros, dos corpos de primeira intervenção, tinham problemas respiratórios, sintomas.
E quando fomos avaliar a espirometria havia 16,3% de casos. E estamos a falar de uma população muito jovem, com uma média de idade de 30 anos.
A DPOC aparece sobretudo a partir dos 40, em pessoas que tenham começado a fumar aos 13, aos 15 ou aos 20. E portanto, ao encontrarmos esta patologia respiratória nos bombeiros, alerta-nos para a quantidade de substâncias a que estão sujeitos, por isso eles têm que se proteger. Ou os turnos serem mais pequenos, embora a maioria deles seja voluntário e vá atacar os fogos.
 
Sobretudo quando há fogos de grande escala, não devem com certeza pensar no número de horas a que estão expostos a essas substâncias…
O professor Carlos Robalo Cordeiro, em Coimbra, trabalha num centro de investigação que também se preocupa com a saúde dos nossos bombeiros e, em articulação com a Universidade de Aveiro, está a desenvolver um projecto de investigação neste âmbito.
 
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Temos um projecto de três anos aprovado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. É uma colaboração com o Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, a Faculdade de Ciência e Tecnologia de Coimbra e o nosso centro, e que visa sobretudo três tarefas.
A primeira é estudar os efeitos da exposição por parte dos bombeiros. Já foi feito um estudo basal, com inquéritos clínicos, estudo da função respiratória, a espirometria e que incluiu o estudo de diversos gases, também importantes para a avaliação das consequências. (Esta foi uma fase inicial que incluiu quatro corporações na região centro).
Uma segunda fase teve a ver com a medição da exposição. A medição foi feita no ano passado, em situação de fogo experimental, na região da Lousã, aproveitando a experiência do Dr. Xavier Viegas nesses estudos de queimas experimentais.
 
O ano passado foi um “mau ano” para esse tipo de experiências, porque houve poucos fogos e teve que ser experimental… Mas felizmente que houve poucos fogos.
Carlos Robalo Cordeiro (pneumologista): Os bombeiros que combatiam esses fogos tinham um equipamento onde constava um detector de partículas, de gases, e um GPS, para se perceber em que zonas dos fogos é que estavam sujeitos e expostos a um maior número de gases tóxicos e partículas nocivas.
Foi uma fase muito interessante, que motivou inclusive o interesse de investigadores internacionais: austríacos, italianos, gregos e espanhóis, que vieram testar sensores de som, que podem vir a permitir, de forma precoce, perceber o início de um incêndio.
 
A terceira fase tem a ver com a modelação da exposição. Aproveitando a capacidade instalada da Universidade de Aveiro, que tem um laboratório móvel da qualidade do ar, irá ser transferido para as zonas de combate, para se perceber de que forma é que se pode modelar a qualidade do ar na exposição dos bombeiros a estes fogos.


publicado por servicodesaude às 12:41
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Doenças Respiratórias: Tuberculose multi-resistente

Foram divulgados esta semana os números mais recentes relativamente à tuberculose: mais de 2900 casos em Portugal, em 2008.

A manter-se esta tendência não vão ser alcançados os objectivos que estão desenhados pela Organização Mundial de Saúde. A tuberculose devia estar a diminuir mais.
Foi uma grande fumadora, venceu já uma tuberculose multi-resistente. Tem ao seu lado a sua médica, Conceição Gomes, pneumologista no Centro Pneumológico da Amadora, que a tem tratado. Além da tuberculose a Sandra tem também um enfisema. E confessou-me que ainda não deixou completamente de fumar.
Sandra Fernandes (37 anos): Sim, ainda fumo três a cinco cigarros por dia. Mas consegui chegar aqui sozinha, não fiz tratamento nenhum para deixar de fumar. Para mim é uma pequena vitória mas o que quero realmente é deixar de fumar definitivamente. Tem mesmo que ser.
 
Está de baixa e não trabalha há seis anos, justamente devido aos problemas que se geraram por fumar. Porque é que ainda não conseguiu deixar completamente? Porque é tão difícil?
Sandra Fernandes (37 anos): Porque é muito difícil. E depois a própria situação da doença é geradora de muito stress. Mesmo assim deixei logo de fumar; com excepção destes cigarros que ainda mantenho.
 
Dizia-me que apesar da Sandra ainda não ter deixado completamente o tabaco, que é uma heroína…
Conceição Gomes (pneumologista): O facto de a Sandra ter tido uma tuberculose multi-resistente, a quantidade de medicamentos que toma e a ida, todos os dias, ao meu serviço para fazer a sua medicação, pode ser considerado um caso de sucesso dentro da área da tuberculose multi-resistente.
Em relação ao tabaco, penso que a Sandra vai conseguir deixar de fumar estes três ou cinco cigarros. Cada vez que ela vai à consulta faço uma sensibilização sobre o tabaco. Mas a partir de agora, que vai ter alta no seu tratamento, a Sandra vai deixar de fumar, estou convencida.
 
O stress provocado pela doença acaba por dificultar ainda mais a adesão a outro tipo de medicação que podíamos fazer como adjuvante do tratamento que a Sandra fez para deixar de fumar.


publicado por servicodesaude às 11:43
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Doenças Respiratórias: Dimensões psico-sociais do tabaco

Se existe alguma coisa que realmente constitui um problema de saúde mental, é este do tabaco.

É um dos responsáveis do programa de acção contra o alcoolismo e pela respectiva legislação desenhada pelo Ministério da Saúde.
Para além da legislação que está cá fora, em vigor, é muito mais difícil que as pessoas deixem esta adição – do tabaco – com custos sociais tão grandes, não é?
Álvaro Carvalho (coordenador nacional de Saúde Mental e psiquiatra): Não havia essa noção há uns anos, mas de facto o tabaco é mesmo aditivo, dá mesmo dependência.
Algumas pessoas não chegam a ter mesmo dependência da nicotina, mas têm aquilo que se chama “dependência de boca”, um grau de satisfação e de dependência psicológica.
Toda a gente conhece pessoas que se o tabaco acabar durante a noite (mesmo que não fumem durante a noite), têm que ter um maço em casa.
 
E vamos ser francos; mesmo na classe médica?
Álvaro Carvalho (coordenador nacional de Saúde Mental e psiquiatra): Mesmo na classe médica. Já se fumou menos.
 
E mesmo não só na classe médica, dentro do meio dos profissionais de saúde há muita gente que fuma? O que é péssimo para os doentes…
Álvaro Carvalho (coordenador nacional de Saúde Mental e psiquiatra): Sim, sim. Sobretudo quando se fuma em frente aos doentes. Há uma responsabilização maior dos profissionais de saúde relativamente aqueles que não o são.
 
Quando o doente sabe que o médico que lhe está a dizer: “deixe de fumar”, e ele próprio também fuma…
Álvaro Carvalho (coordenador nacional de Saúde Mental e psiquiatra): Pois, é uma situação muito complicada. Mas é uma situação em que houve uma posição política a nível internacional.
A OMS Europa tomou a resolução de condicionar a publicidade ao consumo de tabaco, nomeadamente nas provas de Fórmula 1 que, como se sabe, eram tradicionalmente muito apoiadas pelas grandes tabaqueiras.
E já que falou no álcool; é uma situação que ainda não foi possível alargar às bebidas alcoólicas.
 
Em relação ao tabaco e ao álcool, e no outro dia falávamos aqui de obesidade, há de facto situações que causam dependência, embora neste momento também haja uma maior consciência a nível social e a nível médico, das suas repercussões.
Há situações de natureza emocional que levam as pessoas a procurar qualquer uma destas situações.
 
Uma senhora dizia na reportagem: “é a solidão”, que a levava a fumar.
Álvaro Carvalho (coordenador nacional de Saúde Mental e psiquiatra): É também o caso do jovem, por uma necessidade de identificação com o grupo, por uma questão de virilidade. Já se falou da questão dos actores de cinema e de uma época em que era moda e uma referência masculina.
Hoje em dia, infelizmente para o sexo feminino, é um hábito que está a começar a invadir de forma impressionante as mulheres, tal como o álcool; fruto de um conjunto de alterações a nível sociológico.
É uma situação mais complexa. As pessoas têm a noção de que têm a sua vida limitada, que têm uma vida dificultada inclusive pela redução significativa do número de anos de vida, e continuam a fumar.
Há necessidade de não prescindir da vertente da saúde mental, que não é fácil. É multidisciplinar, não há psicoterapias, mas vão aparecendo alguns fármacos que ajudam a controlar o craving – a apetência para fumar.
 
Mais do aquele sucesso tão incipiente que o Dr. Segorbe Luís lembrava há pouco, relativamente aos pensos transdérmicos e às pastilhas…?
Álvaro Carvalho (coordenador nacional de Saúde Mental e psiquiatra): São substâncias relativamente recentes, têm poucos anos, mas há casos em que respondem melhor do que a nicotina.


publicado por servicodesaude às 10:45
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Doenças Respiratórias: Ficha Técnica

Autoria, coordenação e apresentação

Maria Elisa Domingues
 
Convidados
Segorbe Luís
Robalo Cordeiro
Cristina Freitas Martins
Álvaro Carvalho
 
Pesquisa
Alexandra Figueiredo
Miguel Braga
 
Reportagem
Buenos Aires Filmes
 
Produção
Miguel Braga
 
Jornalistas
Teresa Mota
 
Imagem
Gonçalo Roquette
 
Edição e Pós-produção vídeo
Sara Nolasco
 
Pós-produção Audio
Miguel Van Kellen
 
Gestão e edição conteúdos Internet
Portal SAPO
Natacha Borges
 
Atendimento telefónico
Nuno Gaibino
Miguel Rocha
Mariana Sousa
Ana Marta Coelho
 
Câmaras
Rui Machado
Ricardo Ramalho
Elias Barbosa
Paulo Alexandre
Carlos Abreu
 
Mistura de Imagem
Filipe Costa
 
Controlo de Imagem
Alfredo Marques
 
Som
Henrique d´Assumpção
Ricardo Correia
Manuel Linã
 
Iluminação
Luís Silvestre
 
Electricista
Bruno Bernardino
 
Técnicos de Electrónica
José Borges
Rui Loureiro
 
Assistentes de Operações
José Fernandes
Luís Ferro
Pedro Gonçalves
Luís Rodrigues
 
Caracterização
Ana Filipa
Margarida Santos
 
Assistente de guarda-roupa
Paula Silva
 
Registo Magnético
Margarida Almeida
 
Gerador de Caracteres
Luís Pereira Torres
 
Teleponto
Hélio Silva
 
Genérico e Grafismos
Nicolau Tudela
Teresa Martins
 
Música genérico
Ari de Carvalho
 
Assistente de Realização
Pedro Vlladas Preto
 
Anotadora
Paula Macedo
 
Chefe Técnico de Produção
João Martins
 
Criação cenográfica
Gil Ferreira
 
Execução cenográfica
Isabel Rodrigues
 
Produção
Filipa Azevedo
 
Realização
Jorge Rodrigues


publicado por servicodesaude às 09:46
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Doenças Respiratórias: Links Úteis

Associação “Respira”www.respira.pt/

ANTDRwww.antdr.com
Associação Portuguesa de Asmáticos www.apa.org.pt
Observatório Nacional das Defesas Respiratórias www.ondr.org 
Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica www.spaic.pt
Sociedade portuguesa de Pneumologia www.sppneumologia.pt
Portugal Sem Fumo www.portugalsemfumo.org
Para Que Não Lhe Falte Ar www.paraquenaolhefalteoar.com
Por Uma Vida Sem Tabaco – pt.help-eu.com/pages/índex-17.html
Tabagismowww.tabagismo.info
Introduction to Action and Smoking on Health www.ash.org
Doctors and Tobacco www.tobacco-control.org
European Network for Smoking Prevention www.ensp.org
Organização Mundial de Saúdewww.who.int/tobacco/en

Direcção Geral de Saúde - http://www.dgs.pt/ (Circular Informativa nº 40/DSPCD de 20/10/2009: Assunto: Orientações Técnicas sobre Reabilitação Respiratória na Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) - Para: Todos os Médicos - Contacto na DGS: Direcção de Serviços de Prevenção e Controlo da Doença).



publicado por servicodesaude às 08:48
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