Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Cancro da Mama - Introdução (por Maria Elisa Domingues)

O programa Serviço de Saúde, da RTP 1, do dia 26 de Maio de 2009, debruçou-se sobre o tema do Cancro da Mama.

 
Todos os anos 4 500 portuguesas são diagnosticadas com Cancro da Mama. Todos os dias, três delas morrem. No entanto, se diagnosticadas logo de início e correctamente tratadas, as probabilidades dessas doentes sobreviverem ao cancro da mama, com boa qualidade de vida é, hoje, muito alta: cerca de 75%.
 
Mas mesmo nestes casos de sucesso, há pelo meio um caminho difícil a atravessar, quer para a mulher, quer para a família, se ela existir. Um caminho feito de perdas, de dor, de dificuldades materiais, às vezes; de dramas emocionais, sempre. De rejeição do corpo, quando há necessidades de uma amputação, de mal-estar com o marido ou com o companheiro, ou até de abandono total da sexualidade.
 
Todas estas dificuldades se ultrapassam mais facilmente quando o meio hospitalar ajuda, quando as instalações estão organizadas de forma menos incómoda para a doente, quando os profissionais estão devidamente treinados para conviver com a doença oncológica.
 
Infelizmente, em muitos locais do país não é isso que acontece, sendo a doente obrigada a deambular de serviço para serviço, enquanto a sua vida é decidida por diversos médicos, às vezes localizados em cidades diferentes, que pouco ou nada falam entre si ou, sobretudo, com ela.
 
Mas também temos estruturas exemplares, como por exemplo, a Clínica da Mama no IPO do Porto; a unidade que trata um maior número de doentes em Portugal, certificada por entidades internacionais de grande prestígio.
 
A nossa equipa de reportagem esteve no Porto e partilhou também o dia-a-dia de uma jovem doente de Santarém.
 


publicado por servicodesaude às 20:39
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Cancro da Mama - Reportagem

A 22 de Março de 2008, com apenas 34 anos, Liliana descobriu um pequeno caroço no peito. Pouco tempo depois, e algumas consultas, recebeu a notícia que tinha cancro pela médica que lhe fez a biópsia, no Hospital de Torres Novas.

“Foi a primeira vez que percebi que tinha cancro da mama. E a primeira associação que fiz, foi: “morte”. Só tenho 34 anos e vou já morrer? Achei que não era nada justo e que até se podiam ter enganado e o exame não ser meu. Foi um dia cheio de emoções, muito complicado. Quis ir a Fátima, passei lá o resto da tarde e chorei muito, rezei muito...
A partir daí foi esperar o resultado dos exames”.
 
Os exames chegaram e para não perder mais tempo dirigiu-se ao Hospital de Stª Maria onde foi recebida e tratada na Unidade de Oncologia.
As viagens de Santarém até Lisboa tornaram-se uma constante na sua vida. O estado avançado do cancro obrigou a sessões de quimioterapia e, posteriormente, a mastectomia.
 
“Fui para a cirurgia e fiz mastectomia radical no dia 29 de Agosto de 2008. Tive uma semana de internamento e fui para casa em repouso. E, passadas três semanas, nova consulta de Oncologia e foi-me desenhado um novo quadro: mais seis tratamentos de quimioterapia, sessões de radioterapia e hormonoterapia”.
 
Liliana entrou agora numa nova fase de exames, de três em três meses. Espera que o cancro não volte a aparecer. E foi na Internet que encontrou poderosas aliadas. “Como uma Fénix” é o nome do blog onde conta o dia-a-dia- da sua luta contra o cancro. Desde Novembro do ano passado, a sua página já recebeu mais de 20 mil visitas.
“O blog ganhou vida própria e descobri mais 20 bloguistas, que passaram pelo mesmo e, embora amigas virtuais, deram-me um apoio imenso”.
 
Liliana reconhece que os Grupos de Ajuda foram fundamentais para acreditar que era possível vencer. Também ela frequentou o Grupo de Ajuda da Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama (APAM), que se reúne semanalmente no Colégio da doroteias, em Lisboa. Também ela sentiu o apoio que nos dias de hoje é essencial nas vidas de Ana Maria Catarino ou de Isabel Malheiro, diagnosticadas com cancro da mama, há cinco e há dois anos, respectivamente.
 
Ana Maria Catarino (52 anos): “É um fardo que nós carregamos para toda a nossa vida, porque a palavra “cancro” tem uma conotação muito forte na nossa sociedade e nós sabemos. Geralmente associa-se a palavra cancro à palavra “morte”. E não é, não tem que ser.”
 
Mafalda Silva (43 anos): “Encontramos aqui um apoio que nós não encontramos nos hospitais. Os hospitais, a comunidade médica não têm tempo para nós, nem para nos ouvir. Nem têm tempo para nos dar aquele apoio humano que nós precisamos”.
 
Isabel Malheiro (41 anos): “Não consigo falar com a minha família, não consigo falar com os meus amigos, porque eles não sabem do que estou a falar. Por muito que digam que estão ali, que estão a ouvir-me e a apoiar-me; que acham que vai correr tudo bem...”.
 
O cancro da mama é a forma mais comum de cancro nas mulheres, nos países desenvolvidos, e constitui entre 20% a 25% de todos os cancros que afectam a mulher. Em Portugal, são diagnosticados, anualmente, cerca de 4500 novos casos e todos os anos a doença mata aproximadamente mil pessoas, na sua grande maioria, mulheres.
Apesar dos avanços tecnológicos, ainda não são conhecidas as causas do cancro da mama. Daí a urgência de um rastreio cada vez mais eficaz, tal como previsto no Plano Nacional de Saúde 2004-2010. Até porque, nestes casos, prevenir vale sempre mais a pena do que remediar.
 
Maria José Moreira sabe isso melhor do que ninguém.
Maria José Moreira (57 anos): “Pedia a todos os santos que me desse qualquer coisa para ir de urgência para um hospital para que pudessem ver como eu estava. Já estava a dar cheiro, o peito a deitar líquido... a ficar todo deformado e já não havia roupa que acentasse bem. Eu estava a ver se ganhava coragem, se surgia uma luzinha que me guiasse e ir falar com alguém. Mas só tive essa luz ao fim de muito tempo”.
 
O tempo de espera foram dois anos que podiam ter evitado a maratona que passou nas últimas 55 semanas: “São as consultas de grupo, é o penso diário e a quimioterapia. Não há fins-de-semana, não há férias, não há nada... Tem sido o meu dia-a-dia aqui.
Agora espero que com estes oito tratamentos, esteja pronta para ir para a operação”.
 
Apesar do medo que sentiram no passado, tanto Maria José, como o marido, encaram o futuro com mais optimismo.
Agostinho Bárbara Moreira: “Agora estou muito esperançado que aquele nosso erro, de escondermos o mal dela, seja apagado das nossas mentes. Não adianta nada olhar para trás; temos que olhar para a frente e as coisas estão a seguir o seu bom caminho.
 
Também o caminho da ex-trabalhadora da fábrica de electomecânica passa pela Clínica da Mama do IPO. Em conversa com a irmâ mencionou que tinha um pequeno caroço.
Rosinda Silva (68 anos): “Ela disse-me: “Vai ao médico que eles dizem-te o que tens”. Eu nunca tinha feito mamografia nenhuma. Fui e diagnosticaram-me logo que era mau”.
 
Da consulta de Clínica Geral passou de imediato ao IPO. Rosinda Silva, viúva e avó de três crianças foi operada duas vezes e tem na irmâ o apoio necessário para enfrentar a doença.
“A minha irmã também me diz: “há mais pessoas que tiraram os dois peitos, como tu, e ainda vivem”. E se eu vivi até aos 68 anos já não é muito mau”.
 
No combate ao cancro da mama, o diagnóstico precoce salva vidas e continua a ser a melhor arma pois aumenta as hipóteses de cura, evita que o cancro se espalhe, favorece o prognóstico, a recuperação e, também, a reabilitação.
O auto-exame mensal é recomendável e, a partir dos 40 anos, deverá consultar um especialista, anualmente, bem como realizar uma mamografia, todos os anos.


publicado por servicodesaude às 19:44
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Cancro da Mama - Convidados do Programa

Dr. Joaquim Abreu de Sousa: Director do Serviço de Oncologia Cirúrgica do IPO do Porto e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia e Director da Clínica da Mama.

Drª Berta Nunes – Médica de família, actualmente directora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde do Nordeste, do Alto Trás-os-Montes e, também, doutorada em Saúde Comunitária.
Dr. Zeferino Biscaia Fraga – Director do Departamento de Cirurgia Plástica, Maxilofacial, Estomatologia, Oftalmologia e Otorrinolaringologia, do Hospital Egas Moniz, em Lisboa.
 
Outros convidados:
Dr. Álvaro Carvalho – Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica – convidado residente em todos os programas.
Dr. Rui Cruz Ferreira – Coordenador Nacional de Doenças Cardiovasculares e Director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, (responde às questões que transitam do programa anterior).


publicado por servicodesaude às 18:48
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Cancro da Mama - Diagnóstico Precoce e Mortalidade

O exemplo da Maria José é tudo aquilo que não se deve fazer, não é?

Ela, e também o marido, dizem que esconderam a doença… E, ao contrário do que eu pensava, ainda é uma atitude que acontece com relativa frequência…
Dr. Joaquim Abreu de Sousa: Felizmente cada vez menos. E espero que se possam irradicar a zero este tipo de atitudes.
Sabemos que a doença assusta, mas se for tratada precocemente, com padrões de qualidade bem estabelecidos, é uma doença que permite às pessoas viverem durante muitos anos e com qualidade de vida.
O exemplo da Maria José é um óptimo exemplo para as outras mulheres perceberem que esconder um sinal e diagnosticá-lo tardiamente, é mau.
 
As mulheres vão passar por muito mais sofrimento e vão ter um prognóstico, eventualmente, menos bom.
A taxa de sucesso, contudo, no caso do cancro da mama é hoje de cerca de 75% e, concretamente na Clínica da Mama, são esses os vossos números, o que é bastante encorajador…
Dr. Abreu de Sousa: Fizémos um estudo em doentes tratadas entre 2000 e 2001 e fomos analisando a sua sobrevivência no IPO do Porto. De todas as doentes que deram entrada nesses dois anos, ao fim de cinco, foi essa a taxa de sucesso do tratamento que obtivémos.
É claro que entraram em diferentes estádios: 1, 2, 3 e 4. E, na altura, as doentes em estádio 1 eram apenas carca de 35% dos casos. Hoje são bastantes mais, felizmente.
É de facto um número muito encorajador para as mulheres (e também para os homens que, como se sabe, também podem ter cancro da mama).
 
Os homens também podem ter cancro da mama, mas é uma percentagem ínfima. Porém, quando acontecem, são de pior prognóstico…
Sim, um por cento dos cancros da mama acontece em homens. O prognóstico tem a ver com o facto de estarem menos alertados para o facto de o poderem ter. De facto aquele pequeno caroço, empastelamento, não é valorizado, o que faz com que também sejam diagnosticados tardiamente.
 
Estamos aqui perante a questão mais premente, a do diagnóstico precoce?
Os media têm feito uma grande trabalho e muitas figuras públicas têm ajudado esta causa a ficar mais conhecida, o que terá sido positivo.
É responsável pelo rastreio do cancro da mama na zona transmontana, o que acontece pela terceira vez. Este rastreio tem tido uma taxa de adesão alta?
Drª Berta Nunes: Iniciámos o rastreio (realizado pela Liga Portuguesa Contra o Cancro em parceria com a ARS Norte), a mulheres entre os 45 e os 69 anos, no distrito de Bragança, em 2003.
Logo na 1ª volta tivémos uma taxa de adesão que rondou os 73%. E na 2ª volta aumentou para os 85%, que já era previsível, porque quando as pessoas estão mais informadas da importância do rastreio e do diagnóstico precoce, há uma maior adesão.
De qualquer forma os centros de saúde fazem uma divulgação enorme do rastreio, utilizando os presidentes das juntas de freguesia, os párocos…e têm também uma listagem das mulheres que devem fazer o rastreio dentro destas idades e, quando não vêm ao rastreio, são convocadas.
Todas as mulheres acabam por ser informadas que o rastreio está a decorrer.
 
Todas as mulheres inscritas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) estão habilitadas, e têm direito, a fazer esse rastreio, gratuitamente?
 Drª Berta Nunes: Estão habilitadas, desde que o rastreio esteja organizado; o que acontece de cada vez em mais locais. Na zona Norte começou por Bragança mas, neste momento, já há outros distritos que o estão a fazer, e a ARS tem um plano para alargar a toda a zona Norte, dentro de um ano. A ARS Centro e ARS Sul também têm o mesmo tipo de planos.
 
Infelizmente, e já o dissemos várias vezes neste programa, nem todos os portugueses têm médico de família. Este rastreio é acessível a todas as mulheres, independentemente de terem, ou não, médico de família?
Exactamente, até porque todas são convocadas a partir da sua inscrição no centro de saúde.
 
Se sabemos que o cancro da mama pode surgir mais cedo, porque é que o rastreio começa aos 45 anos?
De acordo com vários estudos feitos, concluiu-se que vale a pena fazer o rastreio nestas idades porque há uma diminuição da taxa de mortalidade.
Em idades mais precoces não se demonstrou que existe essa vantagem. Posso dar alguns números.
 
Este rastreio já veio diminuir a taxa de mortalidade?
Só temos números de 2003 a 2005, mas os dados que temos, da Direcção-Geral de Saúde (DGS), são interessantes. No que diz respeito ao Continente, em 2003, tínhamos 28,7 de taxa de mortalidade por 100 mil habitantes e, em 2005, 26,9.
 
Relativamente à zona Norte, tínhamos 22 por 100 mil habitantes, em 2003, e 19,8, em 2005. Bragança mostra já aqui uma diminuição bastante acentuada: 25 de taxa de mortalidade por 100 mil habitantes, em 2003. Em 2005 baixámos para 17,4. É uma descida mais acentuada do que na região Norte e no Continente. Isto traduziu-se em número de óbitos: em 2003 tivémos 19 mulheres que morreram de cancro da mama. Em 2005, só tivémos 13.


publicado por servicodesaude às 17:53
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Cancro da Mama - Auto-exame e Sinais de alerta

Estes rastreios também são importantes porque apesar dos médicos dizerem às mulheres para fazerem o auto-rastreio, ao contrário do que possa parecer, isso nem sempre acontece...

Dr. Abreu de Sousa: As pessoas não têm esse hábito, mas é bom que o tenham. Não é a arma que nos permite detectar as lesões numa fase clínica, antes de dar sintomas. Mas costumo dizer que o auto-exame é importante, sobretudo, porque ajuda a mulher a conhecer-se a si própria.
Alguém que se auto-examina quotidianamente pode detectar mais facilmente quaisquer alterações – às vezes subtis –; sintomas que devem ser denunciados ao médico. Isso é mais fácil acontecer numa mulher que está atenta, alerta, e que faz o auto-exame, que outra que não o faz.
 
Esses sinais não se referem apenas à detecção de pequenos nódulos?
Dr. Abreu de Sousa: Alterações da pele, alterações da forma e do volume da mama, alterações da auréola e do mamilo, alterações que se podem notar com o movimento dos braços, a saída de líquido (escorrência mamilar), mas também o mais vulgar: o nódulo.
É muito importante que mesmo pequenos sinais ou sintomas sejam denunciados ao médico. Por exemplo, uma assimetria mamária – um seio ficar maior que o outro – que não existia. Devem ser relatados ao médico porque às vezes podem ser sinais indirectos de patologia, que pode ser grave.


publicado por servicodesaude às 16:55
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Cancro da Mama: Sinais e Meios de Diagnóstico (telefonema)

Telefonema de Otília Ferreira, 51 anos, Auxiliar de Acção Médica, do Porto:

“Fala-se muitas vezes da prevenção do cancro da mama e do auto-exame mensal, mas quando eu detectei um nódulo na mama fui imediatamente ao médico.
Ele mandou-me fazer uma mamografia. E a mamografia acusava pequenas calcificações, a que o médico do centro de saúde, não deu grande importância. Consultei outro, de imediato; em menos de um ano, que me disse para voltar a fazer a mamografia. E esta já não acusava nada, nem as calcificações.
O tumor estava a aumentar e eles faziam-me as palpações e verificavam que realmente havia qualquer coisa de estranha ali no peito. Andei dois anos a fazer ecografias e mamografias e não se detectava nada de concreto. Só quando já tinha 6 cm é que foi detectável… e então mandaram-me para o Hospital de São João, no Porto.
Dia 25 de Maio faz dois anos que fui operada, para retirar um tumor com dois pequenos nódulos invasores. Retiraram-me a mama, completamente, e já fiz a reconstrução no dia 3 de Fevereiro deste ano, da qual ainda estou em convalescença”.
 
Entre a remoção do tumor e a posterior reconstrução da mama, fez outro tipo de tratamentos, como quimioterapia ou radioterapia?
Otília Ferreira: Estou só a fazer o Tamoxífeno, porque felizmente o chamado gânglio-piloto “deu negativo”.
 
Otília Ferreira: Gostava de saber porque é que as ecografias e mamografias não detectavam nada e até fui a vários laboratórios…
E gostava ainda de alertar os médicos de família, para estarem mais atentos. O meu cancro era muito palpável, era duro; ia do mamilo até à parte de baixo do braço. Era muito grande, já tinha a mama direita com um volume superior à mama esquerda e os médicos não se preocuparam em mandarem-me fazer uma biópsia.
Muitas vezes a prevenção e o alerta não parte só de nós. Alertamos os médicos e estes dizem que as questões são psicológicas…
 
Até ir hà dois anos para o Hospital de São João, andou sempre nos centros de saúde?
Otília Ferreira: Sim, eu não tinha possibilidades de ir aos médicos privados.
 
Estou a perguntar, se alguma vez foi a uma consulta hospitalar de Oncologia. Alguma vez lhe deram uma credencial para isso?
Otília Ferreira: Não, e nunca me mandaram fazer uma biopsia. E faziam a palpação.
 
Este caso é um falso-negativo?
Dr. Joaquim Abreu de Sousa: Provavelmente é um caso de falso-negativo mamográfico. É preciso que as pessoas tenham a noção de que cerca de 10% dos casos de cancro da mama não se detectam na mamografia.
E também preciso lembrar, que a capacidade da mamografia de detectar novas lesões – lesões iniciais -, é tanto menor, quanto menor a idade. E portanto, sobretudo as mulheres na pré-menopausa devem fazer a mamografia a partir dos 40 anos mas esta, por si só, não chega. É fundamental complementar a mamografia com o exame clínico: é preciso visitar o médico.
 
Mas isso foi exactamente o que aquela telespectadora acabou de dizer que fez!
Dr. Joaquim Abreu de Sousa: O médico tem que identificar estes sinais. Uma doente pode ter um exame mamográfico que não sugira malignidade mas se tem um aumento progressivo de uma mama em relação à outra, e se o médico tem dúvidas, só tem que referenciar a doente para o especialista de maior proximidade da sua área.
Os doentes e os prestadores de cuidados de saúde primários têm que estar cientes disto: 10% dos cancros da mama não se detectam na mamografia e isto é particularmente sensível nas mulheres jovens.
 
Mais uma vez, esta Sr.ª estava ciente de que seria necessário fazer mais exames e estes não foram prescritos… Até porque havia calcificações, que poderiam também ser um sinal de alerta…
Dr. Joaquim Abreu de Sousa: Nem todas as micro-calcificações são sinal de cancro ou lesão maligna.
 
Mas não devem suscitar dúvidas no clínico?
O clínico até tem a vida facilitada. O radiologista informa desde logo no exame qual o grau de suspeição da lesão. Por isso, mesmo que o prestador de cuidados de saúde primários não tenha grande experiência, é capaz de identificar no exame um simples código que lhe permite identificar se aquela lesão é, ou não, suspeita e se deve, ou não, referenciar essa lesão ao especialista.
É fundamental esta articulação. E se a doente tem um sintoma, este sintoma deve prevalecer sobre um exame normal. O exame médico - a observação clínica - é o mais importante. Por isso é que os outros se chamam meios “complementares” de diagnóstico.
Ainda por cima se a doente tem um sintoma, que se repete uma e outra vez, o clínico tem que referenciar a doente para um especialista.
 


publicado por servicodesaude às 15:00
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Cancro da Mama - Papel Médico de Família: observação clínica

Dra. Berta, a Sr.ª é médica de família. Já tivémos aqui outras situações em que assistimos a esta dicotomia; por um lado, a falta de experiência do médico de família para detectar certas situações, mas sobretudo o facto de não referenciarem o doente para quem sabe mais do que eles…

Dr.ª Berta Nunes: Não posso estar mais de acordo nesta questão. A observação clínica é o fundamental, só depois é que vêm os exames complementares. Como, se calhar. os exames que chegaram ao clínico vinham “normais”, ele não valorizou a observação clínica, o que foi um erro.
 
Dr. Joaquim Abreu de Sousa: Não é esperado que o médico de família seja um expert em todas as áreas, o que é importante é que os médicos sejam capazes de valorizar as queixas dos doentes.
Às vezes é difícil fazer o diagnóstico, sobretudo em mulheres pré-menopaúsicas, mesmo entre os especialistas. E o problema não é o médico de clínica geral não ter experiência.
 
Drª Berta Nunes: Concordo: é preciso valorizar mais a observação clínica, até porque o radiologista que fez o exame muitas vezes não viu o doente, porque se o tivesse feito, e palpado a mama, certamente não faria aquele relatório. Esse é um erro. Mas também, todos os médicos cometem erros.
Outro problema, é que os médicos de família sabem que há problemas na referenciação e, muitas vezes, só o fazem quando é mesmo necessário.
 
Está a referir-se a listas de espera para consultas hospitalares?
Drª Berta Nunes: Sim. E, por exemplo, no caso de Bragança, se quisermos referenciar uma doente para o IPO, apenas com uma mamografia e a clínica, o IPO pode não aceitar, dizendo que há falta de critérios. Embora se estiver bem justificada, o mais provável é não recusar.
Mas a mulher vai ter que andar cerca de 200 km. E o médico de família pondera todas estas questões.


publicado por servicodesaude às 14:00
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Cancro da Mama - Caso de Biópsia falso-negativa

Temos aqui algumas doentes e ex-doentes. A alguma de vós aconteceu algo de semelhante ao que aconteceu à telespectadora que telefonou (ter detectado um sintoma, mas não ter sido referenciada para um especialista porque os exames deram negativos)?

Carmo Costa (Associação Amigas do Peito, do Hospital Stª Maria):
A 13 de Janeiro de 2005 fiz uma biópsia que deu negativa. E também fiz ecografia e mamografia. Entretanto, comecei a sentir que o braço me estava a prender ligeiramente e voltei ao hospital. Tinha um tumor na axila, um gânglio aumentado, já em estado avançado. E comecei imediatamente a fazer quimioterapia para o reduzir.
 
O que é que levou o seu médico a pedir-lhe a biópsia?
Desde cedo, com cerca de 24, 25 anos, tinha os chamados “quistozinhos”. Tirei um no IPO, mas era benigno - chamavam-lhe tumor filóide -, e comecei a ser vigiada, anulamente. Até que o médico de família achou que deveria ir a uma consulta de Mastologia. E foi aí que fiz várias ecografias, mamografias e uma biópsia; que deu negativa! Isto a 11 de Janeiro.
Mas a 22 de Fevereiro regressei ao hospital, fiz outra, e então deu positiva. Fiz quimioterapia e fui mastectimizada a 30 de Agosto. E também fiz um quadrante na mama esquerda, radioterapia e hoje penso que estou controlada.
 
Tinha quistos desde os vinte e tal anos e fez os exames…
Dr. Joaquim Abreu de Sousa: Voltamos ao mesmo cenário. Existem vários intervenientes no processo: é o clínico que não detecta, o imagiologista, o patologista. É seguramente mais um caso complexo. Felizmente que a maioria das situações clínicas com que nos deparamos são simples. Mas há casos complexos, de diagnóstico difícil, que obrigam muitas vezes à repetição de exames e a uma análise cuidadosa.


publicado por servicodesaude às 13:04
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Cancro da Mama - Factores de Risco e Prevenção

Era importante, simultaneamente, explicar às pessoas quais são os factores de risco, para haver prevenção relativamente ao cancro da mama…

Dra. Berta Nunes: O rastreio tem como objectivo diminuir a mortalidade. Não tem repercussões na incidência, ou seja, no número de novos casos.
O que a prevenção pode evitar é o número de novos casos. E aqui é preciso ter em conta que mais de 50% dos cancros têm origem em certos factores de risco relacionados com o estilo de vida.
O consumo de tabaco - que nas mulheres está a aumentar -, de álcool, em excesso, uma alimentação com demasiadas gorduras e o sedentarismo, constituem factores de risco. Pensa-se que o aumento do consumo de tabaco pelas mulheres, nos últimos anos, possa estar associado ao aumento do número de casos de cancro da mama.
 
Não estamos a falar de factores genéticos, mas daquilo que as pessoas podem fazer por si próprias, para evitar certos factores de risco?
Exactamente. E portanto é muito importante que ao nível dos cuidados primários se incentive as pessoas a adoptarem estilos de vida mais saudáveis.


publicado por servicodesaude às 12:09
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Cancro da Mama - Ajuda Psicológica: a psico-oncologia

Uma doente dizia na reportagem. “Os médicos não têm tempo para nós…” Está hoje, entre nós, uma especialista de uma nova abordagem ao doente oncológico – a psico-oncologia – uma área em que psicólogos e psiquiatras estudam a forma de se relacionarem com o doente.

A Eunice Silva trabalha na Clínica da Mama do IPO do Porto e é hoje responsável pela Unidade de Psicologia do Serviço de Oncologia daquele instituto. E também foi enfermeira. Sente, e os doentes dizem-lhe, que “os médicos não têm tempo para nós?”
Eunice Silva (psicóloga): Sim. O diagnóstico da doença oncológica provoca sempre uma reacção emocional intensa, forte. Mas com o tempo os doentes vão-se organizando; com o apoio dos outros doentes, dos médicos, dos enfermeiros, da informação que vão recolhendo, das associações de apoio e da própria família.
Esta área, a psico-oncologia, permite identificar e prever alguns sinais e, assim, perceber se os doentes vão conseguir ter uma boa resposta emocional, mesmo com o seu sofrimento ou se, pelo contrário, vão ter níveis de sobrecarga emocional, perturbações de ansiedade ou mesmo depressão, e vão ter que ter uma ajuda especializada.
 
No IPO dão essa ajuda psicológica, porque são cinco psicólogas e dois psiquiatras, a tempo permanente? Sim, damos. Os doentes passam por diversas fases críticas e o diagnóstico é uma fase crítica. Muitas vezes mesmo antes de se chegar ao próprio diagnóstico, durante o tempo de espera.
Por exemplo, quando a doente detectou um sinal e disse ao médico, e este não deu uma resposta adequada, são situações de revolta que podem complicar a adaptação à fase inicial da doença.
 
Também é da responsabilidade dos psico-oncologistas ajudarem os outros profissionais, como os médicos e enfermeiros, a comunicarem melhor com o doente oncológico?
Há muitos anos que os profissionais da área psicológica trabalham em conjunto com os outros profissionais da área da saúde oncológica. O que este novo modelo da oncologia traz é a noção de que os profissionais de saúde mental a trabalhar nos hospitais não se devem isolar, dando apenas assistência pontual aos doentes, mas procurarem uma abordagem multidisciplinar. Não só dentro da equipa de psico-oncologia – psiquiatras e psicólogos, mas também com a área da enfermagem, com os médicos, numa perspectiva de partilhar informação e conhecimento que possa facilitar a todos os profissionais o reconhecimento das dimensões do sofrimento psicológico e emocional dos doentes. Para que possam intervir sobre elas, sobretudo ao nível da comunicação.

 



publicado por servicodesaude às 11:13
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Cancro da Mama - Casos de Mastectomia e Reconstrução (1/2)

Ercília Cardoso (Movimento Vencer a Viver): Teve cancro da mama e foi mastectomizada…

Ercília Cardoso: Sou mastectomizada bilateral e fiz reconstrução posteriormente. Acho que a prevenção é a grande arma. Sou muito vigiada no IPO e todos os meus cancros têm sido mais ou menos todos apanhados numa fase inicial, com excepção de um.
É muito importante que conheçamos o nosso corpo. Isto já me tinha acontecido e realmente não valorizei o aumento do seio do lado direito. Quando fui fazer o exame já era realmente um pouco tarde. Facilitei.
 
Qual foi a importância para si da reconstrução mamária?
Fiz, porque acho que a mastectomia do lado direito me provocou uma cova, que me desagradava um pouco.
Inicialmente fiz uma cirurgia conservadora da mama esquerda e a principio não pensei nisso. Mas depois pensei, ainda bem que fiz,  porque estava lá um tumor. Ainda metido numa cápsula.
 
De acordo com a sua experiência, de facto as mulheres ficam muito melhor depois da reconstrução?
Sim. Ficamos totalmente diferentes: uma mutação é sempre uma mutação. Mas hoje existem técnicas que permitem conservar a mesma atracção física.
A reconstrução permite que possamos vestir um soutien qualquer ou um fato de banho, sem ter aquela preocupação das próteses, para aqui e para ali.
Aconselho a reconstrução quando é possível, porque às vezes não é possível.
 
A reconstrução mamária, depois de um cancro da mama, é uma das situações que mais prazer lhe dá, já que pode dar aquela mulher o corpo que tinha antes de ser mastectomizada?
Dr. Biscaia Fraga (Director do Serviço de Cirurgia Plástica do CHLO): A mastectomia representa uma gravíssima mutilação para a mulher; é um grande traumatismo, não só para a mulher, como para a família. A prespectiva de reconstrução é uma esperança e constitui uma hipótese de lhe dar alegria para viver.
A filosofia actual é esta ser feita o mais precocemente possível. Claro, se a mulher estiver motivada e interessada. Embora a cirurgia esteja hoje cada vez mais conservadora do que a praticada há uns anos atrás, que era muito mais uma cirurgia radical”.
 
Há outro aspecto em causa, para além do estético, que é o equilíbrio da própria pessoa, quando se retira apenas uma das mamas?
É um trauma morfológico, físico, postural, psicológico, sexual e social, muito grande.
 
Telefonema de Ivone da Conceição, 53 anos, administrativa, de Almodôvar:
Em Fevereiro de 2001 foi-me diagnosticado um cancro micro-invasivo da mama esquerda. Em Agosto fiz a operação - mastectomia radical -, fiz quimioterapia e o Tamoxífeno.
Depois fui enviada para equipa de reconstrução do Hospital de São José, e fui ficando na lista de espera, mês a mês...
Os meus filhos perguntavam-me quando é que fazia a reconstrução… Tive um grande acompanhamento por parte do meu marido e ainda continuo a ter um bom acompanhamento psicológico e psiquiátrico, aqui em Beja.
 
Está em lista de espera no Hospital de São José há oito anos…
Ivone da Conceição É verdade. Uma pessoa não se sente completa, não se quer ver ao espelho, não tem vontade de se arranjar, de ir para a piscina, que os médicos recomendaram... E tenho um desequilíbrio na coluna e duas hérnias cervicais.
 
A mastectomia perturbou a sua vida mais íntima?
Ao principio não se notava tanto porque estávamos mais preocupados com os tratamentos e com a evolução da doença. Mas prejudicou muito, sim.
 
Dr. Biscaia Fraga, espero que no Serviço de Cirurgia Estética do Hospital Egas Moniz, a espera não seja tão demorada, como estes oito anos?
Dr. Biscaia Fraga: Não é tão acentuada. Mas tivémos obras, durante quatro meses, e neste momento temos 90 mulheres à espera, o que é dramático.
O SNS tem que dar resposta a estes casos. Às vezes temos um, dois ou três momentos operatórios, pelo que em 90 senhoras são 300 momentos operatórios.
 
Dr. Abreu de Sousa: No IPO do Porto temos uma larga experiência no serviço de cirurgia plástica e temos exactamente o mesmo problema. Apesar das taxas de mastectomia serem hoje cada vez menores, às vezes pela extensão do tumor, é necessária.
Consideramos uma fase transitória, até à reconstrução e à reabilitação completa.
E temos também um problema com os tempos. Estamos a reconstruir, por ano, mais de 1200 doentes e temos ainda um programa adicional mas, mesmo assim, temos uma larga lista de espera.
 

 



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Cancro da Mama - Casos de Mastectomia e Reconstrução (2/2)

Dr. Biscaia Fraga: Estamos a ver casos de reconstrução mamária:

Este era um caso em que a mulher tinha um peito grande, mas recheado de tumores sólidos enormes e que, depois de tratada, com os seus próprios tecidos, ficou com uma situação mais adequada.
Tinha sido tratada pelo oncologista, mas tinha uma situação potencialmente maligna devido à dimensão dos fibrodenomas.
 
Aqui encontramos um sinal muitas vezes indicador de cancro da mama, que é a retracção do mamilo (embora também possa ser fisiológico); situação que vemos neste caso de uma jovem, em que um dos peitos era perfeitamente normal. O outro foi removido e em quatro meses fez a reconstrução.
 
Quais são os casos em que a reconstrução não é possível?
Dr. Biscaia Fraga: Se o estado geral da paciente não o permitir ou em casos, cada vez mais raros, em que a mastectomia foi feita num estado adiantado da doença.
 
Em que situações é que a reconstrução não pode ser feita logo? Entre a remoção do peito e a possível reconstrução do peito por vezes têm que ser feitos tratamentos...
Dr. Abreu de Sousa: Sempre que a situação obriga a mastectomia, põem-se duas questões: ou se faz imediatamente a reconstrução, ou depois.
Se não tivermos, à priori, nenhum factor que contra-indique – como a necessidade de fazer radioterapia – e principalmente essa, fazemos muitas vezes a reconstrução de imediato. Em termos psico-emocionais é óptimo para a doente.
 
Também é assim no Hospital Egas Moniz?
Dr. Biscaia Fraga: Esta tese que acabou de defender é polémica, é uma corrente. E também é sempre uma decisão de conjunto, multidisciplinar, em termos médicos e uma decisão partilhada com a própria doente.
Há autores que defendem que é preferível expandir e colocar uma prótese efectiva antes da radioterapia:
 
Neste caso a doente fez radioterapia. Tinha um grande escavado na região mamária amputada e a partir de tecidos autólogos - da própria - da parede abdominal, fez-se a reconstrução. Toda a região toráxica estava muito alterada, em termos de pele e músculo, e não aceitava qualquer expansão. Neste caso, como disse o Dr. Abreu de Sousa, protelou-se a reconstrução.
Hoje já é possível transpor aqueles tecidos micro-cirurgicamente, mesmo de forma imediata, logo após a mastectomia.


publicado por servicodesaude às 09:21
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Cancro da Mama - Ficha Técnica

Autoria, Coordenação e Apresentação

Maria Elisa Domingues

 
Convidados
Joaquim Abreu de Sousa
Berta Nunes
Biscaia Fraga
Álvaro Carvalho
Cruz Ferreira
 
Pesquisa
Alexandra Figueiredo
Miguel Braga
Teresa Mota
 
Reportagem
Buenos Aires Filmes
 
Produção
Miguel Braga
 
Jornalistas
Miguel Braga
Teresa Mota
Raquel Amaral
 
Gestão e Edição de Conteúdos
na Web (portal Sapo)
Natacha Gonzaga Borges
 
Imagem
Gonçalo Roquette
Daniel Ruela
 
Edição e pós-produção vídeo
Sara Nolasco
 
Pós-produção aúdio
Miguel Van Der Kellen
  
Câmaras
Lília Magalhães Santos
Elias Barbosa
Ãngelo Assis
Gabriel Ramos
César Pina Duarte
 
Mistura de Imagem
Filipe Costa
 
Controlo de Imagem
Bruno Arraiolos
 
Som
Rafael Braz
Luís Cardoso
Manuel Linâ
 
Iluminação
Rui Pimpim
 
Electricista
Gustavo Lourenço
 
Técnicos de Electrónica
José Borges
Rui Loureiro
 
Assistentes de Operações
António Almeida
Pedro Gonçalves
António Antunes
Mário Sousa
 
Caracterização
Fátima Tristão da Silva
Ana Filipa
Rita Craveiro
 
Assistente de guarda-roupa
Paula Sousa
 
Registo Magnético
Rita Sousa
 
Gerador de Caracteres
Sílvia Santos
 
Teleponto
Filipe Oliveira
 
Genérico e Grafismo
Nicolau Tudela
Teresa Martins
 
Música Genérico
Ari de Carvalho
 
Assistente de Realização
Filipe Vasconcelos
 
Anotadora
Eva Verdú
 
Chefe Técnico de Produção
Carlos Santos
 
Criação Cenográfica
Gil Ferreira
 
Execução Cenográfica
Isabel Rodrigues
 
Produção
Filipa Azevedo
 
Realização
Jorge Rodrigues
 


publicado por servicodesaude às 08:00
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Cancro da Mama - Links

Cancro da mama: o que é, sintomas, diagnóstico e tratamento

Infocancro
Liga Portuguesa Contra o Cancro
Associação Portuguesa de Apoio à Mulher com Cancro da Mama
Amigas do Peito
Ame e Viva a Vida - Associação de Mulheres Mastectomizadas
Movimento Vencer e Viver
Instituto Nacional de Câncer (Brasil)
National Cancer Institute (E.U.A.)
Como uma Fénix  
Laço  
 
Serviço de Oncologia Cirúrgica do IPO do Porto
Clínica da Mama do IPO do Porto
Unidade de Oncologia do Hospital de Stª Maria
Serviço de Cirurgia Estética do Hospital Egas Moniz
 
Prevenção
Diagnóstico precoce
Auto-exame mensal
Sinais ou sintomas
Mamografia 
Quimioterapia, radioterapia e hormonoterapia
Mastectomia
Cirurgia conservadora e “radical”
Reconstrução da mama
Plano Nacional de Saúde 2004-2010
Sociedade Portuguesa de Oncologia
 
 
 

 



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Cancro da Mama - Questões psicológicas doente oncológico

Segundo dizia a própria Dra. Eunice, uma percentagem muito assinalável dos doentes oncológicos têm critérios em que é possível considerar que têm simultaneamente uma doença mental.

Dra Eunice: Entre 30% a 50% dos doentes oncológicos, de acordo com vários estudos internacionais, realizados ao longo dos anos, têm critérios para ter um diagnóstico DSM IV (manual de diagnóstico em saúde mental). E cerca de 30% do diagnóstico principal está relacionado com as perturbações de adaptação. É uma condição caracterizada ou por estados de ansiedade ou de depressão, reactivos à experiência da doença oncológica.
 
Qual deve ser a atitude dos profissionais da área da Saúde Mental em relação a esta sobrecarga para o doente oncológico?
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra, Coordenação Nacional Saúde Mental): Dos estudos que conheço, em média, 30% dos doentes oncológicos acabam por ter ou perturbações de ansiedade ou depressão.
A atitude mais sustentada nesta investigação é que o apoio, nomeadamente psico-terapêutico, é muito importante. Não para fazer grandes investigações sobre as causas da ansiedade – que são óbvias – mas no sentido de ajudar as pessoas a falarem sobre as experiências boas que tiveram na vida, em virtude de estarem num período de crise, e até pelos preconceitos ainda associados à doença.
Felizmente que o cancro já não tem a taxa de mortalidade que tinha há uns anos atrás, mas não deixa de ser uma situação potencialmente perturbadora, traumática. O convidar a pessoa a falar, verbalizar ácerca das coisas boas, dos projectos e das realizações, ao longo da vida, vai seguramente contrariar um pouco aquela tendência depressiva.
 
A D. Ercília dizia que nunca tinha aproveitado tanto os bons momentos da vida desde que teve o primeiro cancro...
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra, Coordenação Nacional Saúde Mental): Há aliás um conceito, que é a “realização pelo negativo”, que está relacionado com aquelas pessoas que depois de um enfarte do miocárdio, um cancro, um acidente, ou seja, perante uma alteração súbita e dramática, conseguem reformular de um modo muito consistente a sua vida.
Por outro lado, estes estudos também evidenciam que a existência de um bom suporte social e um nível socioeconómico satisfatório, reflecte-se num melhor prognóstico.
 
Daí a importância dos grupos de auto-ajuda e da família, obviamente. As situações de grupo são importantes para as pessoas partilharem experiências comuns, viverem emoções e descobrirem, como em qualquer psicoterapia de grupo, que há sentimentos, há medos, há receios, há dramas, que não são exclusivos do próprio. E isso tem de facto um efeito terapêutico muito considerável, maior que grandes terapias farmacológicas com antidepressivos e tranquilizantes, que não são tanto aconselhados nestes casos.
 
De acordo com a literatura publicada sobre o assunto, o que é que se pode concluir sobre o impacto na vida do casal - e na sua vida sexual e afectiva - de um dos cancros que mutila e altera o corpo - pelo menos durante um certo tempo - como é o cancro da mama?
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra, Coordenação Nacional Saúde Mental): Tal como uma das senhoras que telefonou disse, há primeiro um receio de rejeição por parte da mulher em virtude de ter acontecido essa alteração corporal e, sobretudo, por acontecer num órgão tão sensível para a mulher, como é a mama.
Se o marido ou companheiro não tem uma atitude expressa de apoio e de estímulo...
Numa relação conjugal e, nomeadamente, numa vida sexual sadia, é suposto o aspecto estético do corpo ter um papel relativamente secundário. O que importa é a qualidade e a profundidade da relação afectiva.
Quando isto acontece num casal, mais facilmente os preconceitos e a quebra de auto-estima são ultrapassados.
 


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Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Doenças Cardíacas - Introdução (por Maria Elisa Domingues)

O programa Serviço de Saúde, da RTP 1, do dia 19 de Maio de 2009, debruçou-se sobre as Doenças Cardiovasculares que, no seu conjunto, constituem a primeira causa de morte em Portugal. 

Num programa anterior debruçámo-nos exclusivamente sobre os AVC (acidente vascular cerebral), cuja taxa de incidência no nosso país continua a ser a mais alta da União Europeia.

Hoje vamos conversar sobre outras doenças cardiovasculares, nomeadamente sobre o Enfarte, já que só ele mata uma média de 24 portugueses todos os dias, procurando saber com os nossos convidados especialistas, como evitá-las ou, no caso de isso ser impossível, como tratá-las.
 
Mais de 40% dos portugueses são hipertensos e, essa, é a primeira causa dos seus problemas cardiovasculares. Se juntarmos à hipertensão o excesso de peso, o álcool, o hábito de fumar, as gorduras e o açúcar em excesso, a falta de actividade física e o stress, temos um conjunto de razões suficientes para explicar muitos dos nossos problemas de saúde, que contrariam os fantásticos progressos alcançados pela medicina e pela tecnologia nas últimas décadas.
 
A nossa reportagem esteve esta semana em Lisboa e em Vila Nova de Gaia.

 



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Doenças Cardíacas - Reportagem

São doentes cardíacos num programa de reabilitação.

Aos 79 anos este cirurgião reformado, ex-director do Hospital Pulido Valente e avô de 26 netos, já tem quatro bypass. Cansa-se menos nos treinos do que no dia-a-dia.
 
Francisco Oliveira Dias (79 anos): “Muitas vezes chego cá cansado e depois do aquecimento e de andar por aí, sinto-me bem.
 
No caso de Mário Ribeiro, um dos alunos que integrou este projecto, o coração foi vítima da mesa. Bom garfo, nunca se privou de nada.
Operado em 1990, os médicos que lhe fizeram quatro bypass, sentenciaram-lhe quatro anos de vida. Mário não se conformou. Alterou o seu estilo de vida e de alimentação e hoje, 18 anos passados, beneficia das vantagens de uma vida regrada.
 
Mário Ribeiro (75 anos): “Foram quatro enfartes intercalados e o quarto levou-me mesmo à cirurgia; fui ressuscitado no hospital”.
 
Com apenas 49 anos, José Matias não ganhou para o susto quando a 16 de Maio de 2008, o coração ameaçou parar. Não era fumador, mas tinha peso a mais, antecedentes familiares e uma vida carregada de stress. Depois do enfarte, este fervoroso adepto do Benfica rapidamente deixou o desporto de bancada e entrou em campo.
 
José Matias (50 anos): “A vida vai-nos tirando tempo, vamos sempre optando por outras coisas e vamo-nos esquecendo do desporto. Temos que fazer, temos que fazer, mas… não fazemos. E eu, pessoalmente, não gostava de ir fazer desporto para dentro de um ginásio, com máquinas… sempre achei que era monótono, mas aqui é bastante diversificado”.
 
Este projecto, pioneiro em Portugal, serviu de base a um estudo académico e provou que nos doentes que integram este programa, a doença progrediu menos e houve um maior ganho de qualidade de vida, em relação a outros que fazem apenas exercício aeróbico ou que não fazem exercício nenhum.
 
No caso de Sérgio, a reabilitação faz-se fora do ginásio. O trabalho numa fábrica de tubos plásticos no Norte do país, garante-lhe exercício suficiente. Hoje, faz a primeira prova de esforço no Centro Hospitalar de Gaia.
 
O acompanhamento pós-enfarte passa não só pela reabilitação física mas também pelas consultas de cardiologia e por um programa de reeducação alimentar.
Na noite de 9 de Janeiro, e com apenas 36 anos, começou a sentir os sintomas de um ataque cardíaco.
 
Sérgio Sousa (36 anos): “Comecei com vómitos, a transpirar e com diarreia. A noite foi-se prolongando assim e a partir das seis da manhã, começou a dar-me uma dor no peito; um aperto. E depois, por volta das sete, comecei a sentir formigueiro pelos dois braços. A partir daí comecei a aperceber-me de que era um enfarte. E disse à minha mulher para telefonar para o INEM, “porque me estou a sentir muito mal, e vou morrer”.
 
A sua vida esteve por um fio, mas foi salvo. Sérgio entrou na urgência e foi rapidamente encaminhado através da via verde interna do hospital, que permite o atendimento directo 24 horas por dia, 365 dias por ano, a todos os doentes cardíacos.
 
Vasco Gama Ribeiro (Centro Hospitalar de Gaia): “O doente vem para o laboratório de hemodinâmica onde existe uma equipa médica, constituída por médicos, enfermeiros e auxiliares, que o tratam.
A ideia é abrir a artéria que está tapada com um trombo, ou chupar-lhe o que está impedir, e depois tratá-la, pondo uma pecinha de metal, fazendo com que a artéria fique aberta. Este é um procedimento normal na chamada via verde do enfarto agudo do miocárdio”.
 
Foi neste antigo sanatório, transformado e integrado no Centro Hospitalar de Gaia, que Sérgio foi cateterizado e onde continua a ser seguido. Aqui, a Unidade Coronária, de acordo com as novas directrizes europeias, acolhe todos os doentes cardíacos.
 
Embora o número de mulheres afectadas seja menor que o dos homens, é no sexo feminino que as doenças coronárias têm vindo a aumentar:
 
“De facto hoje em dia, a mulher tem os mesmos stresses, e no trabalho faz as mesmas coisas, faz os mesmos consumos, e também fuma. Em termos hormonais, quando se dá a menopausa, a doença coronária quase como que explode, e normalmente é de forma muito severa.
 
Maria Isabel é de Ponte de Lima e está reformada das lides de professora. É adepta de caminhadas e foi durante um dos últimos passeios diários que começou a sentir-se mais cansada que o normal:
 
Maria Isabel Felgueiras (56 anos): “Comecei a sentir-me indisposta, sem vontade de trabalhar; não me estava a sentir bem”.
 
O diagnóstico de ruptura na válvula mitral obrigou à intervenção.
O recurso à cirurgia tem vindo a decrescer nos últimos anos, graças aos resultados positivos obtidos através de cateterismos. Portugal está vanguarda de meios técnicos e humanos no que toca à cardiologia.
Foi também no Centro Hospitalar de Gaia que se fez pela primeira vez uma técnica que permite substituir a válvula aórtica, sem operação:
 
Vasco Gama Ribeiro (Centro Hospitalar de Gaia): “É possível introduzir uma válvula aórtica artificial pela perna do doente, não recorrendo a cirurgia, fazendo a mesma coisa. O doente tem alta passados dois ou três dias, passando depois a fazer uma vida normal e com resultados muitíssimo bons”.
 
Para a maioria dos doentes cardíacos, os factores de risco são bem conhecidos:
- Excesso de peso
- Hipertensão
- Sedentarismo
- Tabagismo
 
Neste caso, a adopção de práticas saudáveis pode minimizar, ou mesmo evitar, algumas doenças.
 
Bem diferente é o que acontece quando o problema é congénito. Cerca de 8%, em cada mil bebés, nascem com problemas de coração.
A Unidade de Cardiologia Pediátrica no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, recebe crianças de todo o território nacional e dos países de língua oficial portuguesa (PALOP).
 
É o caso de Wesa Ferreira, uma angolana de 9 anos, que precisou de vir a Portugal para tratar o coração.
Todos os anos cerca de mil crianças nascidas nos PALOP são tratadas em Portugal. Enquanto estão internadas todos os custos são suportados pelo hospital mas, assim que têm alta, muitos vêm-se a braços com grandes dificuldades.
 
Luís Frederico (assistente social): “Ele não tem comida em casa? Porque é que não comeu?”
Pai da criança: “Porque saímos antes das oito horas. Antes de comer.
Luís Frederico (assistente social): “E já pediu aí alguma coisa?
Pai da criança: “Não, não”.
 
Luís Frederico (assistente social): “Esta é uma criança que já foi operada e, infelizmente para ele, vai ter que permanecer em Portugal para toda a vida. Foi uma informação que tivémos dos médicos.
Neste momento estamos numa fase de pedir autorização de residência ao SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), para ficarem cá e terem acesso a outro tipo de recursos. O pai terá que tentar arranjar um trabalho…”.
 
Fátima Pinto: “Este tipo de casos, para além de médicos, são também casos de problemas socioeconómicos muito importantes. Primeiro, porque vêm desinseridos do país de origem; segundo, desinseridos da família. Muitas vezes vêm só com o pai ou com a mãe e é muito raro virem com os dois progenitores. Depois, porque têm uma série de problemas, ou de saúde pública, ou de cuidados primários, e nós temos que colaborar na sua resolução, porque se não, nunca conseguiremos tratar eficazmente o problema cardíaco.
Não há dúvida que são casos “acima” da medicina ou, se calhar, ao contrário, da verdadeira medicina, que tem que ser isto mesmo: a integração da medicina curativa nos problemas socioeconómicos”.
 
Embora a taxa de mortalidade tenha vindo a decrescer nos últimos 20 anos, os óbitos por enfarte do miocárdio, só em 2005, superaram os oito mil.
 
No seu conjunto, as doenças do aparelho circulatório continuam a ser a primeira causa de morte em Portugal.


publicado por servicodesaude às 19:06
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Doenças Cardíacas - Apresentação Convidados

Dr. José Roquette – Cirurgião cardiotorácico. Desde 2006, director clínico do Hospital da Luz, em Lisboa. Foi durante vários anos director da Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Marta, em Lisboa.

Além disso, foi duas vezes presidente do Colégio da Especialidade de Cirurgia Cardiotorácica da Ordem dos Médicos e presidente de outras sociedades como, por exemplo, a Sociedade Portuguesa de Cirurgia Cardiotorácica e Vascular.
 
Dr. António Leitão Marques – Cardiologista com subespecialização em Cardiologia de Intervenção. É director da Unidade de Intervenção Cardiovascular do Centro Hospitalar de Coimbra, além de ser presidente de uma ONG: a “Cadeia de Esperança – Associação Médica Humanitária”, que procura apoiar projectos em África, ao nível das doenças cardiovasculares.
 
Dr. Rui Cernadas – Médico de família, na Unidade Familiar da Aguda, em Vila Nova de Gaia. É assistente graduado de clínica geral, e é também especialista em Medicina do Trabalho.


publicado por servicodesaude às 18:08
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Doenças Cardíacas - Causas

Nas doenças cardiovasculares (e deixando de parte os AVC, que já abordámos isoladamente neste programa), deparamo-nos com as mesmas causas: o excesso de consumo de sal em Portugal, de gorduras, de açúcares e de álcool.

Para além disso, temos o stress, comum na vida de todos nós, e um sedentarismo cada vez maior. Ligado a esse sedentarismo, temos um problema de obesidade também cada vez maior, que está a começar já nas crianças.
Este facto pode distorcer as estatísticas que indicam um sentido de diminuição de AVC e de outras doenças coronárias. Com esta obesidade e alimentação errada logo nas crianças, provavelmente estes valores voltarão a disparar, se nada for feito nesse sentido.
 
Relativamente à alimentação e à falta de exercício tenho a impressão que é um pouco como os consumidores de drogas duras: não é pela falta de informação que continuam a tomá-las. Tal como temos a sensação de que todos os dias existem alertas para o consumo excessivo de sal, de açúcares, de gorduras, de álcool…
O que é que não faz os portugueses passarem a ter hábitos de vida mais saudáveis?
Dr. Rui Cernadas (médico de família): Naturalmente é um conjunto de factores. Do ponto de vista económico, se perguntarmos às pessoas, numa reportagem de um telejornal, elas vão dizer que é mais barato fazerem uma refeição num fast food, do que num restaurante tradicional de comida portuguesa.
E isto de certa forma mudou muito o fim-de-semana de muitas famílias. A ida a um centro comercial, a um shopping, transformou-se numa festa para as crianças porque vão encharcar-se em gordura, quer do hambúrguer, quer das batatas fritas.
 
Entendo essa causa socioeconómica mas porventura não é exacta, porque uma refeição com uma boa sopa e uma boa salada, feita em casa, não sai mais cara…
Pois não! Nenhum de nós estará convencido, mas na prática é disso que as pessoas se convencem, porque acaba por ser mais rápido, e porque as crianças e os próprios adultos acham piada.

Repare que as palavras-chave nesta discussão inicial apontam todas num sentido: o consumo. E o consumo chegou a um tal ponto, que em algumas fast food podemos chegar de carro, ter a prioridade de sermos servidos no carro e comer no carro. Isto mostra como o paradoxo do sedentarismo e do consumo abusivo destas gorduras vai ter, obviamente, um preço importante a pagar.



publicado por servicodesaude às 16:10
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Doenças Cardíacas - Estilo de vida e consequências futuras

O que é que se pode fazer para alterar os hábitos, que estão errados, na vida dos portugueses? Maus hábitos alimentares e de falta de exercício físico que, como vimos, são as principais causas das doenças cardiovasculares, entre outras...

Dr. José Roquette (cirurgião cardiotorácico e director clínico Hospital da Luz): É um problema complexo, multifactorial. Não podemos legislar nesse sentido porque a legislação não adianta, porque as pessoas não cumprem.
Comer um sorvete no McDonald´s, ou em outra cadeia de fast food, é agradável, é doce, é saboroso. Têm que se arranjar alternativas que façam com que as pessoas percebam realmente o que é que estão a comer e que prejuízo é que isso lhes está a causar em termos de saúde, e no futuro.
Não há uma relação de causa-efeito imediata. Quando a pessoa come algo que está estragado, e logo a seguir isso tem reflexos, a pessoa tem uma indisposição grande e percebe que há qualquer motivo. Aqui não.
Existia uma alimentação tradicional, mediterrânica, que era extremamente benéfica do ponto de vista da doença coronária, como a sopa, as saladas, o peixe, a fruta – a alimentação tradicional no tempo dos avós – que hoje em dia foi substituída por outro tipo de alimentação muito mais orientada para uma civilização rápida, de consumo, e isso só se vai sentir a longo prazo.
As pessoas não percebem que têm que ser educadas nesse sentido. Tem que haver um enorme esforço de educação.
 
O Sr. tem três filhos. Quando eles eram pequenos e lhe pediam um gelado, explicava-lhes, olhos nos olhos, que os gelados estão cheios de gordura e de açúcar?
Dr. José Roquette (cirurgião cardiotorácico e director clínico Hospital da Luz): Não, dava-lhes o gelado e comia eu também um. Mas não os deixava ir a esses sítios, de que falámos há pouco (restaurantes fast food).
Uma das coisas que mais me perturba nesse tipo de ambientes é o cheiro, o cheiro a queimado.
 
Mas não é o cheiro que vai levar a acumular gordura nas artérias…
Mas é uma questão de protecção. Não levo os meus filhos ou os meus netos a sítios como esses. Comigo, não vão.
 
Mas comiam essas coisas, gelados, por exemplo…
Então não acha que era às crianças que se devia explicar, os efeitos que isso vai ter nas suas vidas, aos 20, aos 30 e aos 40 anos?
Acho que sim. Mas não vejo uma criança com 12, 15, ou 16 anos pensar que vai correr o risco de ter um enfarte aos 40 ou aos 50 anos. Não vai. Até uma certa idade achamos que somos imortais e, a partir de certa altura, começamos a perceber que afinal não somos. Não sei quando é que isso acontece. É muito variável. Uns é só aos 50; outros é quando têm o primeiro enfarte.
As crianças não sentem esse problema; tem que ser de facto pela educação.
 
A questão é que habitualmente essas refeições, que são mais saudáveis, são também muito mais caras. E as pessoas defendem-se.

Por outro lado, a tradição portuguesa de comermos um belo cozido, uma boa feijoada; aquilo é bom e as pessoas gostam. Ao lado de um peixe ou de um bifinho grelhado, é difícil; mas tem que ser feito.



publicado por servicodesaude às 15:14
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Doenças Cardíacas - Prevenção pela educação

Vamos todos esperar calmamente até à hora do enfarte?

Dr. António Leitão Marques (cardiologista): Este é de facto um problema complexo e multifactorial.
Vejam-se todas as campanhas que se fazem para prevenção do tabagismo, com todos os alertas nos maços de tabaco. Diminuiu o número de cigarros consumidos por dia, mas veja-se o número de fumadores… Se fosse fácil já se tinha conseguido mudar este panorama em muitos países.
 
Concordo que muitas crianças não têm a noção do que estão a consumir, mas muitos pais podem ser alertados.
Há hoje nessas doenças – hipertensão arterial, hipercolestrolémia (elevação do colestrol) e na diabetes – uma predisposição familiar importante. E quando são detectadas nos pais, ainda jovens, e que tiveram um enfarte do miocárdio, por exemplo, investigamos o seu nível de colesterol, do açúcar, da tensão arterial. Ou seja, os factores de risco. E os filhos dessas pessoas têm, muito mais que as outras pessoas, que ser orientadas para a prevenção, porque potencialmente têm muito mais riscos de virem a ter o mesmo problema.
 
Este é um processo educativo complexo que tem que começar nos pais, nos adultos, para que as crianças também tenham consciência disso. Depois há medidas sociais que muitas vezes têm mais impacto que aqueles pequenos actos individuais.
Hoje come-se muito comida produzida industrialmente, de onde vêm a maior parte dos alimentos com sal; cerca de 70%. (Os outros 30% vêm do sal que acrescentamos à comida e do sal natural dos alimentos).
Se a legislação for feita sobre a comida produzida industrialmente, o impacto é muito maior do que a acção individual de cada pessoa.
 
Este problema da prevenção é de facto muito complexo, sobretudo o da prevenção primária. Na prevenção secundária, depois dos doentes terem um problema, aí conseguimos muitas vezes, de facto, modificar o estilo de vida.
 
Mas ainda ao nível da prevenção gostava de chamar aqui a atenção para um livro “O Livro do Coração” – Viver Mais e Viver Melhor, da autoria do Prof. Fernando Pádua, há muito conhecido dos espectadores da RTP.
Ele, que também é cardiologista, defende que hoje estas campanhas de sensibilização devem começar pelos sub-20, para evitar o número de crianças e jovens que já sofrem de problemas de obesidade, diabetes tipo 2, etc.
 
Porque é que o gelado, aparentemente bom, faz mal?
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): Em pequenas quantidades não creio que seja um dos factores mais importantes. Agora, são açúcares de absorção rápida e às vezes é prático, porque mata a fome mais depressa. Mas também tem gordura. São produtos que têm que ser usados moderadamente. (Não é o gelado isolado que é responsável pela aterosclerose).
 
Agora é verdade que as pessoas que têm níveis de açúcar altos, ou que tenham uma história familiar com diabetes, têm que ter mais cuidado e serem educadas nesse sentido.

A predisposição genética para o açúcar ou para a gordura, juntos com o estilo de vida e os factores de risco, vai rapidamente predispor à doença cardiovascular, porque vai provocar uma diabetes ou uma hipercolestrolémia, mais cedo.



publicado por servicodesaude às 14:32
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Doenças Cardíacas - O que é a aterosclerose, idade e sexo

Vamos tentar descodificar algumas expressões mais difíceis: a aterosclerose é o quê, exactamente?

Dr. Rui Cernadas (médico de família): Imaginemos que temos um tubo de uma mangueira. Se estiver em boas condições, e não tiver nenhuma aterosclerose, estará limpo e lisinho, com a sua estrutura e dimensão inicial.
O processo da aterosclerose fará com que essa mangueira fique de cada vez mais estreita, de forma não regular em toda a sua extensão, com momentos em que terá um maior ou um menor calibre. E é isto que irá facilitar alterações na velocidade e nos fluxos sanguíneos que depois, numa fase posterior, necessitarão da ajuda dos meus “colegas” da Cardiologia de Intervenção, ou da Cirurgia.
 
E as “mangueiras” são todas as artérias e vasos sanguíneos que interferem na circulação…

A aterosclerose é essa deposição, dos vários tipos de gordura circulantes, em camadas de gordura, que depois não escoa. O resultado pode ser a obstrução ou a libertação de pequenos fragmentos, com complicações igualmente temíveis, pois podem entupir em calibres mais estreitos, a jusante deste local.

 

Há uma idade própria para a existência de aterosclerose?

Dr. José Roquette (cirurgião cardiotorácico e director clínico Hospital da Luz): Não há uma idade específica. Há, sim, uma idade em que é mais frequente.
Os homens têm mais aterosclerose coronária, a que estamos a falar mais aqui, e é mais precoce; aparece sobretudo entre os 40 e os 60.
As mulheres começam a ter mais tarde, sobretudo na pós-menopausa. Mas hoje em dia, com a utilização de alguns não-ovulatórios, a aterosclerose também aparece mais precocemente.
 
E hoje também temos um número cada vez maior de mulheres a fumar, o que é mais um factor de risco…

É verdade. E é aí que eu acho que as medidas legislativas podiam ser mais agressivas. Se é mais difícil contrariar todos os aspectos relativos à alimentação de que já falámos, relativamente ao tabaco tem-se vindo a fazer uma campanha muito forte mas penso que ainda podia ser mais agressiva.



publicado por servicodesaude às 13:34
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Doenças Cardíacas - Enfarte do miocárdio: prevenção, sintomas e actuação

Dizíamos na reportagem que os enfartes do miocárdio continuam a fazer vinte e tal vítimas por dia em Portugal. Uma das razões porque isso acontece é porque entre o aviso que a pessoa recebe, os primeiros sintomas, e a chegada a um sitio onde a pessoa possa ser tratada, ainda decorre, por vezes, um tempo excessivo.

 
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): Ainda relativamente à aterosclerose, a pessoa é doente durante muitos anos sem saber, porque a doença é silenciosa; não tem sintomas. O mesmo com a hipertensão, a diabetes ou o colesterol elevado. Mas é uma doença que começa muito cedo.
Sabe-se hoje que pagamos mais tarde aquilo que começou quando éramos jovens. Isto não é uma doença de velhos, é uma doença que não nos deixa chegar a velhos, o que é diferente.
Temos que ir activamente procurar estes factores de risco e não esperar que eles dêem sinal.
 
É bom passar a mensagem que todos nós somos responsáveis pela nossa saúde, embora nem todos tenhamos acesso, por exemplo, a um médico de família….
Há muitos locais onde se pode medir a tensão arterial e fazer análises. Até certo ponto é relativamente fácil.
 
O Prof. Pádua diz que “para andar de carro todos os portugueses se conformam com a necessidade de pagar o exame periódico, mas resignamo-nos e não procuramos fazer exames simples, que são o mínimo para sabermos se estamos bem. Exactamente.
 
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): O problema do enfarte de miocárdio passa por três questões que são ao mesmo tempo muito simples e muito complexas.
Primeiro, o diagnóstico precoce. Depois, submeter o doente a uma terapêutica que vai abrir a artéria (farmacologicamente ou mecanicamente), para que o músculo cardíaco não morra e as células, que ficam sem oxigénio e sem nutrientes, possam sobreviver.
Por último, adoptar todas as medidas preventivas activas para que não se volte a repetir um evento deste tipo.
 
O primeiro, o diagnóstico precoce, também depende muito do doente porque ele tem que estar alertado para os sinais da doença, que são normalmente marcantes: não é uma dor qualquer. É uma dor demorada, que não passa, e tem certas características: é opressiva e, muitas vezes, irradia para os braços e para o pescoço.
 
Às vezes dá dores de cabeça…
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): Ou dores gástricas. Mas não é uma dor qualquer, que demora dois ou tês minutos e depois o doente fica bem.
Nessa altura existem mecanismos que têm que ser activados. Há um número de emergência médica – o 112 – e um serviço – a Via Verde Coronária, que vai activar uma ambulância médica e o doente é levado para o local onde lhe podem fazer o tratamento que precisa.
Aí, abrem-lhe a artéria e se isto for feito de forma rápida, idealmente na primeira hora, o músculo cardíaco pode recuperar quase integralmente.
 
O que acontece em Portugal, é que cerca de 30% dos doentes não efectuam nenhum tipo de tratamento, porque chegam tarde ao hospital, muitas vezes depois das 12 horas, porque ficaram à espera que passasse a dor, tomaram mezinhas caseiras, e perderam aquelas primeiras horas que são fundamentais.
Hoje já temos bons recursos nesta área, mas temos que encontrar formas de organização que mais depressa coloquem os doentes numa posição de serem assistidos. E alertar as pessoas para os sinais com que se devem preocupar.
 

Um fumador, por exemplo, se a certa altura começa ter dor, não pode pensar que é algo inocente, tem obviamente que procurar um serviço que o possa tratar ou diagnosticar.



publicado por servicodesaude às 12:37
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Doenças Cardíacas - Enfarte do miocárdio: hipertensão arterial e ginástica (telefonema)

Telefonema de Bernardete Cruz, 67 anos, de Oeiras:

Em 2002 tive um enfarte, sou asmática e tinha grandes crises. Numa dessas crises de asma, fui de urgência para o hospital e, segundo os médicos, tive um enfarte.
Entretanto fui internada e fiz o cateterismo. Deixei de trabalhar, comecei a fazer ginástica, para não me ir abaixo, mas também por conselho médico.
Como sinto que tenho força faço muita musculação. O que queria saber é se estou a exagerar, já que chego a pegar, por exemplo nos agachamentos, com 10 kg de cada lado, fora a barra que também é pesada.
De noite acordo, por vezes, com uma dor sobre o lado esquerdo que parece uma mágoa, uma angústia e sinto uma espécie de toques de dor, embora relativamente leves. Às vezes vou ver a tensão e chega a estar a 17/10, mas começo a beber água, a andar um pouco, acalmo; e volta a baixar.
Estou a tomar medicamentos e não sei se será algum pesadelo porque isto só me acontece de noite.
 
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): Preocupou-me algumas coisas que a telespectadora disse. Teve um enfarte, logo, tem que fazer uma reabilitação orientada. Não pode fazer todos os esforços que entenda.
Outro aspecto que me preocupou foi os valores de tensão muito elevados - 17/10 - quando, sobretudo, esforços de pesos fazem subir a tensão arterial.
Ela está a ser medicada, mas provavelmente não será suficiente porque não tem a tensão arterial controlada. (Isto acontece a muitos hipertensos: tomarem a medicação, mas não terem a tensão arterial controlada).
Provavelmente o que deverá fazer é dirigir-se ao serviço de Cardiologia onde foi acompanhada no seu enfarte, para avaliar melhor essa dor que sente.
Uma pessoa que teve um enfarte pode voltar a ter dor e às vezes é uma doença que se repete e que tem que ser controlada.
 
Referiu que esta telespectadora devia fazer reabilitação. O Prof. Pádua refere que a reabilitação cardíaca é a parente pobre do Serviço Nacional de Saúde e que muito poucas pessoas têm a possibilidade de a fazer. É verdade ou não?
De facto sim, é verdade. A reabilitação inicial, quando os doentes são internados, todos os serviços fazem, como sensibilizarem os doentes para alguns factores de risco, mas a reabilitação de ginásio, contínua, ainda não existe em muitos serviços e há de facto um atraso nessa área.
Temos óptimos equipamentos de cariz tecnológico. Quase todos os doentes que têm um enfarte são cateterizados, é analisada a sua árvore coronária e são tratadas outras lesões.
 
Dr. Rui Cernadas (médico de família): Há um risco enorme decorrente deste gosto súbito dos portugueses pela ginástica e pelos ginásios. Haverá com certeza excepções, de ginásios que seleccionam as pessoas e fazem uma boa análise, mas a maior parte funciona naquele sistema tipo ad-hoc.
Deve-se sublinhar a necessidade de as pessoas fazerem verdadeiros exames médicos e não se preocuparem apenas com a apresentação de um papel do médico a dizer que podem praticar ginástica. Normalmente podem e devem, mas convém verem se têm indicações para isso e que tipo de ginástica poderão praticar.
 
Esse papel entregue nos ginásios provavelmente não inclui o facto daquela pessoa já ter tido um enfarte…
Exactamente. E depois é necessário que os ginásios tenham pessoas capacitadas para orientar estes doentes. A ginástica tem que ser diferente conforme se trate de pessoas em reabilitação ou de pessoas saudáveis.

Depois, para além da assistência do seu Serviço de Cardiologia deverá ser acompanhada pela Medicina Geral e Familiar, ou seja, pelo seu médico de família. E é esse que, em primeira linha, deverá responder a estas questões.



publicado por servicodesaude às 11:41
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Doenças Cardíacas - Homenagem Dr. Fernando Pádua (peça)

O Dr. Fernando Pádua é uma figura incontornável da cardiologia portuguesa. Professor catedrático aos 39 anos, foi um dos pioneiros na chamada de atenção para o papel que a televisão podia desempenhar, como por exemplo alertar a população sobre o consumo excessivo de sal.

 
Médico e investigador com mais de 300 trabalhos científicos publicados, fundou o Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva, do qual ainda é presidente, e a Fundação Portuguesa de Cardiologia.
 
Num dos seus livros, Fernando Pádua descreveu um dos paradigmas do coração: “um órgão extraordinariamente sensível. Dói por ter enfartes do miocárdio e dói também pelo desgosto. Palpita por uma arritmia grave e palpita por uma. Dilata por doença e enche o peito por alegria”.
 
Uma pequena nota de homenagem ao Dr. Fernando Pádua, pelo seu papel na medicina portuguesa: um grande médico, um grande cardiologista e um grande professor, catedrático desde os 39 anos, até se jubilar.

É autor do “Livro do Coração – Viver mais e melhor”, da Academia do Livro, que a todos recomendamos.



publicado por servicodesaude às 10:47
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Doenças Cardíacas - Enfarte do miocárdio: reacção imediata

Disse que muitas vezes os doentes só chegavam ao hospital 12 horas após terem tido o enfarte do miocárdio ter acontecido, porque não ligavam aos sintomas. Mas apesar de já haver muito bons equipamentos, razoavelmente distribuídos por todo o país, para aqueles que não têm facilidades de acesso (em termos de ligações viárias e de transporte dos doentes), não é assim tão fácil.

Nem toda a gente tem a possibilidade de chamar o INEM através do 112 e de ser imediatamente encaminhado para um centro onde existam os cuidados necessários para ser tratado.
 
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): É verdade. É claro que contactar o INEM é o ideal porque muitas vezes o diagnóstico é feito imediatamente no local, com um electrocardiograma, e o doente é encaminhado para o sítio onde pode receber o melhor tratamento.
É verdade que o INEM não cobre todo o país mas há outras formas de chegar ao hospital, às vezes através dos bombeiros, por exemplo, ou até por transporte próprio.
 
Mas e as pessoas mais velhas? Até pela situação de emoção em que ficam, às vezes não ficam com o discernimento suficiente para agir correctamente, como chamar o 112, ingerir meia aspirina, meter a nitroglicerina sublingual; muitas pessoas não têm a calma necessária para dar esses passos, pois não?
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): E é também muitas vezes nessas pessoas, mais idosas, que o enfarte é mais atípico e que os doentes preferem deixar para o dia seguinte qualquer atitude. Sobretudo que vivem sozinhas.
Mesmo nos meios urbanos isso também acontece. E as pessoas têm que se lembrar que o grande risco do enfarte é logo nas primeiras horas. A maior mortalidade ocorre na primeira hora.
Não se pode facilitar perante um quadro doloroso, incomodativo, que dura vinte minutos, meia-hora, e que persiste. Por vezes a dor é acompanhada de vómitos, de uma dor que irradia para os braços… Na dúvida, mais vale chamar o 112.
Temos que fazer mais campanhas que alertem para essa dor que pode corresponder a um enfarte do miocárdio. “O tempo é músculo”, já que quanto mais cedo tiverem assistência, mais músculo cardíaco irão salvar.

 



publicado por servicodesaude às 09:55
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Doenças Cardíacas - Preço medicamentos para tensão arterial (telefonema)

Telefonema de Joaquim Martinho, 63 anos, de Sintra:

Fiz quatro cateterismos e fui muito bem tratado no Hospital Amadora-Sintra.
A medicação que estou hoje a tomar para controlar a tensão arterial, que era elevadíssima, obriga-me a pagar uma quantia exorbitante.
Ou seja, qualquer pessoa reformada, como eu, que sou reformado do Estado e até ganho uma pensão média de mil euros, gasta cerca de 200 euros em medicamentos caríssimos!
 
O que está a dizer é: “Como é que podem fazer as pessoas cujo valor da reforma é aproximadamente aquilo que gasta em medicamentos”?
Exactamente. E é uma doença comum, que mata um número extraordinário de pessoas em Portugal…
 
Cerca de 40 por cento dos portugueses têm hipertensão arterial…
E no entanto a medicação tem um preço exorbitante!
 
Deve ter casos parecidos e, se calhar, com rendimentos muito inferiores?
Dr. Rui Cernadas (médico de família): Temos todos. Mas se pensarmos o que este senhor paga e os outros portugueses na mesma situação, e pensarmos no que custa ao Serviço Nacional de Saúde (na comparticipação que o Estado faz nos medicamentos, e que de certa forma todos ajudamos a pagar), isto prova a importância da prevenção e justificaria um esforço financeiro muito maior.
 

O controlo da pressão arterial, o deixar de fumar, o beber álcool em quantidades muito reduzidas, o ter cuidado com as gorduras alimentares, o praticar exercício físico, o controlar o peso físico, obviamente vão ser medidas muito rentáveis a longo prazo. Quer do ponto de vista do Estado, quer particular. E não estamos a contabilizar o sofrimento pessoal que cada um de nós passa nestas situações.



publicado por servicodesaude às 08:57
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Doenças Cardíacas - Desporto nas empresas e no dia-a-dia: andar a pé

Há muitos países onde o espírito da prática do exercício físico é inculcado nas próprias empresas e algumas, com uma certa dimensão, são mesmo obrigadas a destinar um espaço para que os seus trabalhadores façam exercício físico.

Acha que podia ser uma medida útil também aqui em Portugal e que faria poupar também muito dinheiro ao Estado?
Além de que provavelmente os trabalhadores estariam mais motivados e mais bem dispostos…
 Dr. José Roquette (cirurgião cardiotorácico e director clínico Hospital da Luz): Acho que seria uma óptima medida. Não sei se é exequível; obrigar ou estimular as pessoas para fazerem exercício...
Mas há um óptimo exercício que as pessoas por vezes se esquecem, que é andar. Sair numa estação de metropolitano antes daquela a que têm que chegar, ou deixar o carro um pouco mais longe e andar um pouco a pé.
Temos um excelente clima e andar 20 a 25 minutos por dia, a pé, é um óptimo exercício. E contraria algum sedentarismo. Pode-se subir do 1º ao 2º andar pelas escadas e não apanhar o elevador…


publicado por servicodesaude às 07:58
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Doenças Cardíacas - Acesso tratamentos: serviço público e privado

Já dirigiu um grande serviço de um hospital público, o Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Marta e é actualmente director clínico de um hospital privado, moderno, com poucos anos.

O atendimento desta população, com problemas cardiovasculares, é muito diferente num hospital do Estado, público, e num hospital privado?
Dr. José Roquette (cirurgião cardiotorácico e director clínico Hospital da Luz): Não acho que haja diferenças muito significativas. O investimento que foi feito nas instituições públicas para fazerem cirurgia cardíaca e cardiologia foi muito grande.
 
O que acho diferente na nossa instituição é que fomos buscar tecnologia muito sofisticada e aquilo que se consegue em termos de alternativas ainda não se consegue fazer no público.
Por exemplo, já temos equipamento que permite fazer algumas angioplastias guiadas por um joystick; guiadas por robótica. Também temos um equipamento sofisticado nas ablações nomeadamente na fibrilhação auricular e outras patologias, e que facilita muito os estudos arrítmicos. Os estudos arrítmicos convencionais são muito demorados e não têm esta possibilidade.
Quando implantámos este equipamento só havia quatro na Europa e foi uma aposta forte, pois conseguimos reduzir muito ao nível do tempo, e melhorámos ao nível da fiabilidade.
 
O Hospital da Luz tem serviços convencionados com várias instituições…
Temos uma cobertura muito grande com todas as ADSE, instituições militares e todos os subsistemas convencionados de seguros.
 
Ou seja, um português não deixa de ter acesso a esses equipamentos mais sofisticados por não ter dinheiro para os pagar?

Exactamente.



publicado por servicodesaude às 06:00
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Doenças Cardíacas - Colesterol elevado na infância (telefonema)

Telefonema de Izélia Puga, jornalista, 36 anos:

Sou mãe de três filhos e o mais novo vai fazer um ano. As outras duas têm quatro e seis anos. Desde muito cedo, quando tinham dois anos e meio, três anos, foi-lhes diagnosticado um colesterol muito elevado, alarmante, através de análises de rotina.
A partir daí começaram a fazer prevenção cardiovascular no Hospital de Santa Maria, e exames de seis em seis meses.
Eu e o pai delas costumamos ter o colesterol elevado e a minha mãe também o tem.
A minha questão é: elas sendo crianças podem vir a deixar de ter o colesterol alto, com uma vida regrada, ou será sempre uma preocupação ao longo da vida, por terem essa predisposição?
 
Elas já fazem dieta ou, pelo menos, têm uma alimentação com limitações?
Mais ou menos, porque em casa não somos muito de excessos. Mas compramos leite e iogurtes magros e raramente fazemos fritos.
 
Que perspectivas poderão estas duas crianças vir a ter no futuro? Até porque parece existir aqui uma predisposição familiar…
Dr. Rui Cernadas (médico de família): Claro.Esta situação poderá estar relacionada com um quadro clínico a que chamamos de dislipidémia primária: uma forma de chamar às doenças que alteram os níveis de gordura no sangue – colesterol e triglicerídios – que ficam mais altos por uma causa genética.
E se for uma causa genética, estas crianças vão ter este factor de risco acrescido ao longo da sua vida. Terão que ser sempre vigiadas e ter cuidados adicionais, maiores do que outras crianças, da mesma idade, quer ao nível da alimentação como do exercício físico.
É também o caso dos filhos de indivíduos que já tenham tido enfarte do miocárdio, que têm um risco acrescido, só por esse facto.
 
E não só os filhos, também o próprio. Uma pessoa que já tenha tido um enfarte do miocárdio tem muito mais probabilidade de vir a desenvolver outro, não é?  Claro.
 
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): Outro aspecto importante é que, cada vez mais, procuramos analisar o risco global. Não é só o colesterol. Também vai ser importante que se vigie os outros factores, por exemplo que estas filhas não venham a fumar.
Quando os factores de risco se associam são muito mais graves. É diferente ter só o colesterol alto, ou ser hipertenso. Ter colesterol alto e ser fumador cria um risco muito mais elevado.
 
Dr. Rui Cernadas (médico de família): As nossas crianças, em geral, por diversas razões, cada vez andam menos. Vemos poucas crianças a jogar futebol na rua, a andar de bicicleta, são levadas de carro até às portas das escolas e regressam da escola para o computador. Não há hábitos de exercício físico. E provavelmente daqui a 20 ou 30 anos vamos estar a falar de enfartes aos 25 ou 30 anos. É muito provável que haja uma alteração do perfil epidemiológico destas doenças.


publicado por servicodesaude às 05:02
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Doenças Cardíacas - Cardiologia de Intervenção e Cirurgia Cardiotorácica

Nas situações mais simples por vezes é suficiente a Cardiologia de Intervenção: quando se trata de ir desentupir o tal vaso que está com as paredes espessadas, em que o sangue já não corre com a mesma fluidez…

 
Dr. António Leitão Marques (cardiologista): A Cardiologia de Intervenção é umatécnica mais recente; a cirurgia é mais antiga. Foi uma das áreas da medicina que mais evoluiu nos últimos anos. Desde logo tem uma enorme vantagem: quando fazemos o diagnóstico destas doenças, temos que fazer um cateterismo, um exame que permite visualizar a rede coronária.
Durante muitos anos diagnosticávamos a doença e depois ou era tratada medicamente ou a pessoa tinha que ser enviada para uma equipa cirúrgica para a colocação de bypass.
Nos últimos 20 anos esta área deu um grande salto e passou a ser possível, logo na sequência do próprio diagnóstico, ver onde é que está a artéria obstruída e, através de cateteres muito fininhos, dilatar aquela zona e colocar umas próteses especiais, diminuindo muito a probabilidade daquela área voltar a fechar.
Podemos tratar muitos doentes diariamente, e os cirurgiões têm hoje menos trabalho, mas têm também doentes mais difíceis, de maior risco: com problemas mais difusos, com várias resistências, com vasos mais calcificados, e, nesse aspecto, a cirurgia continua a ter um papel extremamente importante.
Mas não podemos dizer aos doentes que se desentupiu tudo, e que “levam ali uma canalização nova”. Não temos ainda a possibilidade de fazer ressets biológicos e os doentes às vezes pensam que, como desentupiram os vasos, “Vida nova! A doença acabou”. Ora é a partir precisamente do momento em que se tratou a doença, que têm que tomar mais cuidado e que a prevenção tem que ser mais activa.
É uma doença progressiva, que pode envolver outros segmentos e outros vasos. E muitos doentes fazem uma angioplastia, voltam, fazem duas… porque não corrigiram os factores de risco que tinham naquela altura.
 
Para o cirurgião cardiotorácico ficam os casos mais desperados, mais difíceis e de maior risco?
Dr. José Roquette (cirurgião cardiotorácico e director clínico Hospital da Luz): Não são os casos mais desesperados. São os casos em que sabemos que as angioplastias e a Cardiologia de Intervenção não conseguiu tornear.
Não são forçosamente situações de grande risco. Sabemos claramente as situações em que se pode fazer Cardiologia de Intervenção e onde se deve fazer Cirurgia.
Os resultados da Cardiologia de Intervenção serão bons a curto prazo, não serão tão bons a médio e a longo prazo, como os da Cirurgia. Não há aqui um antagonismo, há sim uma complementaridade.
Uma realidade é que os nossos doentes são hoje substancialmente mais complicados, porque têm hoje mais morbilidades: mais diabetes, mais insuficiências renais, ou seja, têm mais doenças, e, normalmente, são também mais idosos, porque a nossa esperança de vida aumentou muito.
Às vezes já fizeram três angioplastias e o espaço que mediou entre as angioplastias e o tal aperto das artérias coronárias faz com que os doentes sejam mais idosos.
Não diminuímos a nossa actividade em termos globais, temos um grupo mais restrito de patologias e actuamos em complementaridade.
 

Dr. António Leitão Marques (cardiologista): E há hoje procedimentos que são híbridos: uma parte é tratada pela Cardiologia (de Intervenção) e outra pela Cirurgia (Cardiotorácica). Estamos cada vez mais a caminhar nesse sentido.



publicado por servicodesaude às 04:04
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Doenças Cardíacas - Ficha Técnica

Autoria, coordenação e apresentação

Maria Elisa Domingues
 
Convidados
José Roquette
Rui Cernadas
António Leitão Marques
Álvaro Carvalho
 
Pesquisa
Alexandra Figueiredo
Miguel Braga
 
Reportagem
Buenos Aires Filmes
 
Produção
Miguel Braga
 
Jornalistas
Teresa Mota
 
Gestão e Edição de Conteúdos
(portal Sapo)
Natacha Gonzaga Borges
 
Imagem
Gonçalo Roquette
 
Edição e pós-produção vídeo
Sara Nolasco
 
Peça Fernando Pádua
Texto Miguel Braga
Imagem
Arquivo RTP
 
Atendimento telefónico
Nuno Gaibino
Manuel Rocha
Joana Lourenço
Ana Marta Coelho
 
Câmaras
José Silveira
Rui Machado
Lília Magalhães Santos
Vasco Silva
Gabriel Ramos
 
Mistura de Imagem
Eduardo Guerreiro
 
Controlo de Imagem
Alfredo Marques
 
Som
João Delgado
Jorge Almeida
Manuel Linã
 
Iluminação
Rui Pimpim
 
Electricista
Jorge Carvalho
 
Técnicos de Electrónica
José Borges
Rui Loureiro
 
Assistentes de Operações
José Fernandes
Álvaro Nunes
Nelson ferreira
Alexandre Silva
 
Caracterização
Fátima Tristão da Silva
Ana Filipa
 
Assistente de guarda-roupa
Paula Silva
 
Registo Magnético
Sérgio Ribeiro
 
Gerador de Caracteres
Manuel Barreiro
 
Teleponto
Filipe Oliveira
 
Genérico e Grafismos
Nicolau Tudela
Teresa Martins
 
Música genérico
Ari de Carvalho
 
Assistente de Realização
Filipe Vasconcelos
 
Anotadora
Judite Davidson Ribeiro
 
Chefe Técnico de Produção
Fátima Duarte
 
Criação cenográfica
Gil Ferreira
 
Execução cenográfica
Isabel Rodrigues
 
Produção
Filipa Azevedo
 
Realização
Paulo Resende


publicado por servicodesaude às 03:16
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Doenças Cardíacas - Links e Bibliografia

Fundação Portuguesa de Cardiologiawww.cardiologia.browser.pt/

Organização Mundial de Saúde (OMS)www.who.int/tobacco/en
Sociedade Portuguesa de Cardiologiawww.spc.pt
Instituto do Coraçãohttp://institutodocoracao.pt/
Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva http://incp.pt/
Fundação Professor Fernando Pádua www.fundacaofernandopadua.pt/menu.swf
American Heart Associationwww.americanheart.org/
European Society of Cardiologywww.escardiology.org/
Fundação Fernando Pádua - http://www.fundacaofernandopadua.pt/
 
INEM - (112) -  http://www.inem.pt/pageGen.asp?sys_page_id=472404&news_id=439
 
Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo - http://www.spedm.org/
Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal - http://www.apdp.pt/default.asp
Enfarte do Miocárdio - http://www.enfarte.com/enfarte-sintomas-descritivos.html
 
Bibliografia
“Livro do Coração – Viver mais e melhor”, da autoria do Dr. Fernando Pádua, editado pela Academia do Livro
 


publicado por servicodesaude às 02:19
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Terça-feira, 12 de Maio de 2009
1º Ano do Bebé - Introdução (por Maria Elisa Domingues)

O Serviço de Saúde da RTP 1, do dia 12 de Maio de 2009, debruçou-se sobre um convidado muito especial: o bebé, no seu primeiro ano de vida.

Quer sejam pais, ou pensem vir a sê-lo, avós, educadores, profissionais de saúde, da segurança social, ou da justiça, este programa vai certamente interessar-vos.

 
Com a ajuda de especialistas, vamos falar das etapas mais importantes das vidas dos bebés, da importância dos afectos, em todas elas, dos problemas que podem surgir, do papel dos pais e, também, naturalmente, dos avós.
 
Mas não poderemos esquecer que às famílias tradicionais se junta um número cada vez maior de famílias monoparentais para quem a responsabilidade de um bebé pode ser uma carga excessiva.
 
Do mesmo modo, a pobreza, as doenças crónicas podem originar situações de grande stress ou de ruptura familiar que tenderão, naturalmente, a afectar a vida do recém-nascido.
 
Nascer é, na verdade, a maior das aventuras. E, embora o feto venha bem equipado para se defender, a justiça social e a diferença de oportunidades podem comprometer o seu futuro.
 

Estivémos na Maternidade Alfredo da Costa e no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na Clínica de Santo António, na Reboleira e na Associação Bem-Estar Infantil, em Vila Franca de Xira, bem como no Centro Paroquial da Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal, com inúmeros bebés que, connosco, partilharam o seu primeiro choro ou os seus primeiros passos.



publicado por servicodesaude às 20:06
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1º Ano do Bebé - Reportagem

Joana é a mais nova de cinco irmãos. Hoje teve o maior desafio da sua curta existência: o confronto com o mundo exterior. Logo nos primeiros minutos são feitos vários exames.

Depois de várias semanas protegidos no ventre da mãe, os bebés têm agora que enfrentar uma realidade que requer vários cuidados, sobretudo se, como no caso das gémeas Francisca e Lara, o período de gestação for inferior a 37 semanas.
 
Mário Costa (pai de Lara e Francisca): “São pequeninas, nasceram só com 32 semanas, embora dentro do período de gestação já seja uma conquista. Como nasceram antes do tempo têm que ser vigiadas; se estão a comer, a respirar bem…”
 
Assim que nasceram foram transferidas para a Unidade de Cuidados Intensivos da Maternidade Alfredo da Costa. Com apenas uma semana já se notam traços distintos nas suas personalidades:
 
“Já noto algumas diferenças. A Lara mexe em tudo, está sempre a puxar os fios… A irmã é mais sossegada, embora de vez em quando também dê o ar da sua graça”.
 
As idas para casa ao fim do dia e a separação entre pais e filhas torna-se mais leve graças a um sistema que permite, via Internet, acompanhar a cada minuto tudo o que se passa com as gémeas.
 
Embora o nascimento seja um marco, a relação com o mundo exterior começou há muito tempo. Alguns dos reflexos primários são adquiridos durante o período intra uterino.
Com apenas dois dias e durante a primeira consulta, o Guilherme mostra alguns dos reflexos adquiridos:
 
João Gomes-Pedro (professor de pediatria): “É uma capacidade extraordinária do sistema nervoso central, de habituação aos estímulos sucessivos: o reflexo plantar, do tornozelo, o tónus do bebé, voltar à posição de flexão…
Claro que vai ter cólicas, como todos os bebés, mas ele tem estratégias para sair das situações, sozinho. Os bebés não são completamente indefesos e estão preparados para se reorganizar face às adversidades do dia-a-dia”.
 
Também o Tomás responde a todos os testes mas, dentro de pouco tempo, estes reflexos desaparecem para darem lugar a outras funções:
 
Eduarda Reis (pediatra Clínica de Santo António): “Quando bruscamente largado para trás, o bebé faz o sinal de abraço com os dois braços. Isto é normal e é simétrico. E depois o reflexo da marcha, outro reflexo primário que irá desaparecer.
Há ainda outro reflexo no período neonatal. Se eu estimular a zona paravertebral ele desvia a anca para o lado que eu acabei de estimular. Mas estas gracinhas vão desaparecer, são reflexos do nosso sistema nervoso mais primitivo”.
 
Aos 59 cm e quase seis quilos, o Afonso já consegue outras proezas.
Por volta das seis semanas os bebés começam a sorrir, reconhecem a voz e o cheiro dos pais e, além do choro, emitem uma série de sons que equivalem a expressões emocionais. Cabe a cada pai identificar o choro do seu filho.
 
Durante o primeiro ano, os bebés têm um calendário apertado no que toca às vacinas.
Este é o plano oficial em Portugal, mas não é igual em todos os países europeus ou nos Estados Unidos.
 
Programa Nacional de Vacinação 
 
Até aos 6 meses
À nascença
BCG – Vacina Contra a Tuberculose - dose única
VHB – Vacina Contra a Hepatite B - 1ª dose
 
Aos 2 meses
DTPa Hib VIP - Vacina Contra a difteria, o tétano, a tosse convulsa (DTPa), as doenças causadas pelo Haemofilus Influenzae b (Hib) e poliomielite (VIP) - 1ª dose
VHB - 2ª dose
 
Aos 3 meses - MenC - Vacina contra as doenças causadas por Neisseria meningitidis C - 1ª dose
 
Aos 4 meses - DTPa Hib VIP - 2ª dose
Aos 5 meses - MenC - 2ª dose
Aos 6 meses - DTPa Hib VIP - 3ª dose e VHB - 3ª dose
 
Muitas vezes a vacina é um episódio de tensão, tanto para os bebés como para os pais.
Há quatro meses nestas andanças, Ana Carolina, levada pela mão da avó, leva mais uma pica.
 
Quando atingem os cinco meses a maioria dos bebés enfrenta um novo desafio: a escola.
O Diogo tem cinco meses e há uma semana que vai para o infantário, numa das várias instituições privadas de solidariedade social espalhadas pelo país que prestam este serviço a pais trabalhadores.
A adaptação correu bem para o Diogo. Foi a mãe Susana quem mais sofreu com a nova etapa: “É horrível… Para eles quanto mais cedo se calhar até é bom, para nós é que é horrível, porque estivémos sempre com ele”.
 
Embora estejam mais expostos a doenças, na escola os bebés são estimulados constantemente, não só pelas profissionais que os acompanham, mas também pelas outras crianças. O convívio potencia o desenvolvimento de novas competências, a vários níveis.
 
Sandra Camolas (ajudante de acção educativa): “Ao fim ao cabo passamos uma grande parte do dia com eles e aqui apercebemo-nos, por vezes, mais rapidamente das coisas do que os pais em casa. Por exemplo a Inês, que é gémea da Raquel, começou a levantar-se mais cedo. A irmã era mais preguiçosa mas depois com muito estímulo, e como via que batíamos palmas, também se foi levantando”.
 
Para as famílias portuguesas a hipótese dos pais ficarem em casa a tomar conta do bebé é cada vez mais difícil mas a Madalena, aos seis meses, ainda não foi à escola.
 
Ana Morais Sarmento (mãe da Madalena): “Felizmente tenho o apoio da minha sogra, que fica com a Madalena, e para mim é um descanso. Claro que quero que ela vá para a escola. Vai em Setembro, já está inscrita. Se não houvesse outra hipótese ia para a cresce aos cinco meses, mas era muito mais violento”.
 
Com a idade da Madalena as crianças começam a criar mais mobilidade e para os pais é importante perceberem que a casa, da perspectiva de um adulto, é outra, muito diferente da perspectiva de um bebé.
 
Menos violenta tem sido a descoberta do mundo por parte da Rita e da Carolina.
É ao espelho que aprendem a reconhecer-se, a identificar os amigos e tudo o que existe para além delas. Esta fase é extremamente importante para o desenvolvimento dos bebés, pois é entre os sete e os oito meses que desenvolvem o conceito de permanência. Este ponto dará ao bebé um novo nível de confiança já que aprende, por exemplo, que mesmo quando os pais não estão ao alcance da vista, podem estar presentes.
 
Por volta dos nove meses começa uma nova etapa. Para o Rodrigo está na hora de começar a experimentar a verticalidade e a dar os primeiros passos. Nesta fase os bebés já desenvolveram a motricidade fina e é normal que comecem a procurar encontrar e a agarrar objectos.
 
Aos 12 meses o Joel já quase anda sozinho. Nasceu de uma gravidez de alto risco e os primeiros 14 dias de vida passou-os na unidade de cuidados intensivos da maternidade.
 
Georgeta Loureiro (mãe do Joel): “É uma criança bastante calma, é um bebé amável, brinca, não chateia e tem as coisas normais de todos os bebés: uma febrezinha quando estão a sair os dentes… Fora disso, está tudo em ordem; viémos agora da consulta e o médico disse que está tudo bem”.
 
Chegados ao final do primeiro ano, há certos sinais que podem ser alarmantes no desenvolvimento do bebé, como não aguentar o peso sobre os membros inferiores, permanecer imóvel ou não procurar mudar de posição. Mesmo assim, é importante lembrar que cada caso é um caso e que é fundamental a conversa entre pais, pediatras e, quando existem, profissionais de educação.
 
Dídia Tavares (coordenadora pedagógica “A Nuvem”): “Há muitas situações em que os pais estão ansiosos. Dizem: «O meu bebé tem um ano e não anda e o outro fez 11 meses e já anda». Aí temos que lhes dar exemplos de outras crianças que têm um ano e que também não andam e até outros que só começaram a andar aos 13 ou 14 meses e que são perfeitamente normais. Temos que descansar os pais para o facto de as crianças não serem todas iguais.”
 
Por isso fica a mensagem para os pais: estejam atentos mas não se preocupem, pois embora a ritmos diferentes, no final, todos chegarão onde devem chegar.
 
Etapas do Desenvolvimento
 
6 semanas
Começa a sorrir
Corresponde à face humana expressando agrado
Reconhece a voz e o cheiro dos pais
 
3 meses
Repara nas mãos
Agarra objectos
Estica-se para apanhar um brinquedo
 
6 meses
Rola sobre si próprio
Começa a sentar-se sem apoio
Brinca com os pés e leva-os à boca
 
9 meses
Responde pelo nome
Pode já dar uns passinhos, apoiado
Diz adeus e faz gracinhas
 
1 ano
Pode já andar
Pode dizer palavras com significado
Pode segurar um lápis na mão
 


publicado por servicodesaude às 19:11
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1º Ano do Bebé - Programa Nacional de Vacinação

Idades
Vacinas e respectivas doenças
0 nascimento
BCG (Tuberculose)
VHB – 1.ª dose (Hepatite B)
2 meses
VIP – 1.ª dose (Poliomielite)
DTPa – 1.ª dose (Difteria, Tétano, Tosse Convulsa)
Hib – 1.ª dose (doenças causadas por Haemophilus influenzae tipo b)
VHB – 2.ª dose (Hepatite B)
3 meses
MenC - 1ª dose (meningites e septicemias causadas pela bactéria meningococo)
4 meses
VIP – 2.ª dose (Poliomielite)
DTPa – 2.ª dose (Difteria, Tétano, Tosse Convulsa)
Hib – 2.ª dose (doenças causadas por Haemophilus influenzae tipo b)
5 meses
MenC - 2.ª dose (meningites e septicemias causadas pela bactéria meningococo)
6 meses
VIP – 3.ª dose (Poliomielite)
DTPa – 3.ª dose (Difteria, Tétano, Tosse Convulsa)
Hib – 3.ª dose (doenças causadas por Haemophilus influenzae tipo b) 
VHB – 3.ª dose (Hepatite B)
15 meses
VASPR – 1.ª dose (Sarampo, Parotidite, Rubéola)
MenC - 3.ª dose (meningites e septicemias causadas pela bactéria meningococo)
18 meses
DTPa – 4.ª dose (Difteria, Tétano, Tosse Convulsa)
Hib – 4.ª dose (doenças causadas por Haemophilus influenzae tipo b)

 Fonte: Ministério da Saúde



publicado por servicodesaude às 18:17
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1º Ano do Bebé - Apresentação dos convidados

Prof. Dr. João Gomes-Pedro – Pediatra clínico, director da Clínica Universitária de Pediatria do Hospital de Santa Maria

Iniciou o chamado método Brazelton em Portugal, na Clínica Universitária de Pediatria do Hospital de Santa Maria, o primeiro centro fora dos EUA.

 

Dra. Maria Amélia Silva - Enfermeira pediátrica

Trabalhou com recém-nascidos ao longo de 14 anos, na Neonatologia do Hospital de São Francisco de Xavier e, anteriormente, na Urgência Pediátrica do Hospital da Estefânia.
Hoje, dedica-se sobretudo ao trabalho comunitário, na direcção do Agrupamento dos Centros de Saúde da Amora, Seixal e Sesimbra.
 

Dra. Maria José Gonçalves – Pedopsiquiatra e psicanalista
Fundou e dirigiu a Unidade da Primeira Infância, no Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. Actualmente, é presidente da Associação “Ser Bebé".
 
Dra. Fátima Xerepe – Assistente social, pós-graduada em Direito de Menores e coordenadora da Assistência Social da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa


publicado por servicodesaude às 17:30
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1º Ano do Bebé - Recém-nascido e o choro (1-2)

Os bebés, ao contrário do que muitas pessoas pensam, vêm munidos de muitas capacidades para enfrentar este grande desafio que é a vida, cheia de dificuldades e surpresas, nem sempre agradáveis…

Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatra): São extraordinárias as competências que um bebé de horas, ou dias de vida, já manifesta. E é importante fazer essa descoberta conjunta com os pais.
Os enfermeiros também desempenham um papel importantíssimo nesta viagem de descoberta, de aliança, logo no nascimento, e a seguir, nas primeiras horas e dias de vida, ao garantirem segurança e orgulho nas competências demonstradas pelo bebé e ao viabilizarem perguntas, num trabalho de aliança que vai começar com quem primeiro viu o bebé: os enfermeiros, mas também nos centros de saúde, nos consultórios e nos serviços de educação.
 
Em muitos casos o único interlocutor dos pais é o enfermeiro. E, nos casos em que os pais vão ao centro de saúde, o médico de clínica geral. Mas em Portugal, infelizmente, ainda há muitas crianças que não têm pediatra…
Uma das situações que mais preocupam os pais é o choro.
 
Um importante pediatra, Brazelton (“A criança e o choro – o Método Brazelton, de T. Berry Brazelton e Joshua D. Sparrow da editorial Presença), cujo método o senhor iniciou em Portugal - constituindo o primeiro centro fora dos EUA -, funciona na Clínica Pediátrica do Hospital de Santa Maria.
Ao lermos o livro deste autor ficamos com a impressão que se os pais olharem bem para o bebé, se estiverem atentos a todas as suas reacções e ao seu olhar, conseguem sempre descodificar as suas preocupações e, de algum modo, acalmá-lo através dos afectos. Mas eu, como mãe, tenho a experiência de que não é bem assim…
 
Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatra): Antes pensávamos que o desenvolvimento acontecia numa linha ascendente. Hoje sabemos que não é bem assim.
O desenvolvimento processa-se em etapas, em patamares, com paragens e saltos no desenvolvimento (resultado da maturação do sistema nervoso central), que coincidem com períodos de desorganização do bebé e mudanças bruscas que se projectam em toda a vida familiar.
Ora estes pontos de viragem são uma oportunidade para a preparação das etapas seguintes, entre os pais e os profissionais de educação. Para o bebé, são momentos de fortalecimento da confiança e de preparação para o futuro.
 
O choro é uma das linguagens do bebé. Às três semanas de vida, os bebés choram porque começam com as cólicas e estas são um motivo de desorganização.
Muitas vezes os pais dizem que já não aguentam mais. Mas esta é uma oportunidade de reflexão sobre o que está a acontecer ao bebé e sobre o que podem fazer para aliviar este choro incómodo que não os deixa descansar. E também é uma oportunidade para construirem uma base de segurança para o próximo ponto de viragem que pode ser aos dois, aos quatro ou aos seis meses.


publicado por servicodesaude às 16:32
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1º Ano do bebé - Recém-nascido e o choro (2-2)

Vamos a situações concretas. Existem muitos pais que vivem com grande ansiedade a situação do choro. Não é fácil saber se são as cólicas, porque os pais dão aquelas gotinhas e, por vezes, o bebé continua a chorar…

Dra. Maria Amélia Silva (enfermeira pediátrica): Não sei se é fácil ou difícil. É importante perceber como aquela família fala do recém-nascido, como o acolhe, se olham para ele, se os pais o abraçam, se o chamam pelo nome, se referem a parecença com algum membro da família. São tudo pistas de como aquela família está a acolher a criança.
 
A questão do choro tem a ver com o irmos conhecendo o bebé e irmos dando competências aos pais para que eles também o conheçam. Porque cada choro significa uma necessidade. E quando ele perceber, aos dois ou aos quatro meses, num dos tais pontos de viragem, que se chorar, alguém lhe satisfaz essa necessidade e lhe dá atenção, isso permite-nos perceber que estamos num desenvolvimento adequado.

E o papel dos profissionais de saúde é irem preparando os pais para estes momentos do desenvolvimento do seu filho.



publicado por servicodesaude às 15:36
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1º Ano do Bebé - Recém-nascido e famílias monoparentais (1-2)

Tem uma experiência muito grande, resultado do seu trabalho com recém-nascidos ao longo de 14 anos, na Neonatologia do Hospital de São Francisco de Xavier e, anteriormente, na Urgência Pediátrica do Hospital da Estefânia. Hoje, dedica-se sobretudo ao trabalho comunitário, na direcção do Agrupamento dos Centros de Saúde da Amora, Seixal e Sesimbra.

Nesse seu trabalho comunitário, como é que as pessoas de famílias mais carenciadas lidam com o bebé nestas várias fases, por exemplo, quando os bebés choram e nada os parece fazer calar? E qual é o papel do enfermeiro?
Dra. Maria Amélia Silva (enfermeira pediátrica): É muito importante dar competências a estes pais para que possam acompanhar o desenvolvimento do bebé. E, sobretudo, ao nível dos cuidados de saúde primários, voltou-se muito às visitas domiciliárias no puerpério.
A primeira visita ao recém-nascido é feita no domicílio. E aí apercebermo-nos muitas vezes até das dificuldades económicas que não transparecem quando os pais vêm a uma consulta no centro de saúde. E também da saúde mental da mãe, enquanto parturiente, durante a fase do puerpério.
 
Por outro lado, com a nova reforma dos cuidados de saúde primários, os centros de saúde estão a apostar muito no enfermeiro de família: aquele que presta cuidados ao longo do ciclo de vida. Ou seja, acompanha a mãe e aquela família no seu processo de gestação, numa equipa conjunta com o médico de família. Desta forma consegue perceber algumas das ansiedades da futura mãe, logo no momento da gravidez e, depois,  será essa mesma enfermeira que acompanhará o recém-nascido no puerpério.


publicado por servicodesaude às 14:37
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1º Ano do Bebé - Recém–nascido e famílias monoparentais (2-2)

A Dra. Maria José Gonçalves é pedopsiquiatra e psicanalista, fundou e dirigiu a Unidade da Primeira Infância, no Departamento de Pedopsiquiatria do Hospital Dona Estefânia. Actualmente, é presidente da Associação “Ser Bebé”.

Nestas situações de famílias monoparentais ou de disfunções, que vão com certeza perturbar a vida inicial do bebé, o que é que se pode fazer para que a situação do bebé seja o menos agravada possível?
Dra. Maria José Gonçalves (pedopsiquiatra e psicanalista): Ainda em relação ao choro, os bebés choram porque têm necessidades, logo, é importante que se percebam e se acolham essas necessidades. É nessa resposta, dos pais ou de quem deles cuida, que o bebé começa a ter mais consciência de si próprio.
Mas também é preciso perceber que os bebés são diferentes e que há uns muito difíceis de acalmar. Como o Brazelton diz “é preciso ajudar os pais a conhecê-los”.
Os pais, os adultos, têm habitualmente competências para lidar com os bebés, mas há bebés com necessidades especiais e é preciso ajudar os pais a lidar com elas. Depois, para além desta ajuda profissional, também é fundamental o apoio da família alargada porque não há mãe nenhuma que possa estar 24 horas a tomar conta de um bebé.
E esse é o problema das famílias monoparentais. Muitas vezes criam-se ciclos viciosos porque as mães ficam completamente esgotadas no seu trabalho e o apoio psicossocial, da família, de um terceiro elemento que possa dar suporte à mãe é também permitir-lhe adquirir cada vez mais conhecimentos sobre o seu bebé.
 
A maior parte dos livros de pediatria referem-se a famílias ideais, mas hoje a realidade é cada vez menos essa. Quando se trata de famílias monoparentais a grande maior parte são constituidas por mulheres que vivem sozinhas com as crianças, que acabaram por se separar ou divorciar dos seus companheiros, muitas vezes antes do termo da gravidez e que não podem estar com elas 24 horas por dia. E que se despedem dos bebés, com grande desespero, à porta das creches ou dos infantários.
No entanto, sabemos que não existem creches em número suficiente e as crianças ficam muitas vezes em amas que, por sua vez, são pessoas muito menos treinadas para tratar dos bebés.
No livro “Para um sentido de coerência da criança”, da Editorial Europa-América, o Prof. Dr. João Gomes-Pedro diz que quando deviam ser as pessoas mais competentes a tratar dos bebés, é o contrário que se passa. São pessoas muito pouco diferenciadas, em alguns casos menos bem pagas que uma mulher a dias…
Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatria): Há hoje uma grande necessidade de respeitar e dar prioridade ao bebé. É o que se está a tentar fazer com as visitas domiciliárias e também nos serviços de educação. No fundo, é a possibilidade de ajudar uma mãe sozinha, uma família, de maior ou menor risco, a ler os sinais dos bebés. Eles mostram o que querem mas é preciso saber ler esses sinais. A nossa função, dos profissionais de saúde e de educação, é ajudar a saber ler o comportamento do bebé.
 

Há bebés com os movimentos descoordenados dos membros superiores ou inferiores e, por vezes, basta conter um bocadinho o bebé nos abraços, e ele olha para nós e como que diz “obrigado, que bom, era mesmo isto que eu precisava”. E os pais vêm resolvidas muitas das suas ansiedades porque sentem que têm no profissional de saúde um aliado que partilha das suas preocupações.



publicado por servicodesaude às 13:40
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1º Ano do Bebé - Ida para a creche

Telefonema Sónia Guerreiro, 32 anos, de Lisboa

Apesar de ter a possibilidade de ficar em casa com a minha filha, que tem actualmente cinco meses, gostava de saber qual é a idade ideal para a entrada de uma criança na creche. Penso que é importante a socialização com outras crianças e não sei se o vínculo apenas aos pais não será excessivo…
 
A criança tem mesmo que ir para a creche?
Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatria): O vínculo do bebé aos pais nunca é demais; a confiança, o ser amado, vão ser determinantes. A forma com vai ver os outros no futuro, a família, os educadores, depende muito da construção de uma relação de amor e dos afectos nos primeiros tempos de vida.
A socialização surge no segundo ano de vida. Mas cada caso é um caso, e o comportamento e desenvolvimento do bebé, a situação familiar, as fantasias e as expectativas de cada mãe e de cada pai, e até a existência, ou não, dos avós ou de alguém que ajude, são variáveis múltiplas.
 
Então este bebé não necessita de entrar já na creche?
Sim, se a mãe até tem a possibilidade de ficar em casa e promover uma relação íntima, devia aproveitar essa oportunidade que nem todos têm.
 
Dra. Maria José Gonçalves (pedopsiquiatra e psicanalista): Estou de acordo. E também no que toca a cada caso ser um caso, porque termos sempre que avaliar diversas variáveis.
E apesar de tudo, a partir dos 24 meses a criança já tem uma certa autonomia. Sobretudo se já não usa fraldas, que dificultam um pouco mais. É importante o contacto não apenas com outros adultos, mas sobretudo com os seus pares.
Antes dos 24 meses isto tudo não faz muito sentido, mas na maior parte das vezes não têm outra possibilidade e têm mesmo que ir para a creche.  


publicado por servicodesaude às 12:51
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1º Ano do Bebé - Licença de maternidade e amamentação

Telefonema Luís Pinto, 31 anos, de Estarreja:

Sou pai há dois meses, de um menino, o Luís. Nasceu no Hospital de Santa Maria da Feira, correu tudo bem, mas nasceu com pouco peso e teve que estar na Neonatologia.
 
Fomos a uma consulta de pediatria do primeiro mês e o médico aconselhou que se houvesse essa possibilidade, até aos seis meses, só se alimentasse com o leite materno. Mas a mãe só tem licença de parto até aos quatro meses, logo, como é que isso será possível nos restantes dois meses?
Dra. Fátima Xerepe (assistente social): Ela poderá, possivelmente, pedir uma licença sem vencimento para poder ficar com a criança em casa, senão não há outra hipótese. Os apoios sociais nestas situações são muito débeis para as mulheres, que precisavam de ficar seis ou sete meses em casa para poderem proporcionar um desenvolvimento harmonioso aos seus filhos. No entanto, o período de licença de maternidade tem vindo a ser aumentado e agora é de cinco meses.
Noutros países, nomeadamente nos países escandinavos, esse período é maior. O que podemos esperar é que no futuro, entre nós, este período possa ser ainda mais alargado.
Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatria): Em alguns casos as mães conseguem juntar aos cinco meses de licença de parto, o seu período de férias, perfazendo assim os tais seis meses.
Gostaria ainda de realçar o papel do pediatra na promoção do aleitamento materno, logo na fase pré-natal, quer na consulta de gravidez, quer depois em pediatria, nas quais a alimentação constitui um dos temas “obrigatórios” da conversa.


publicado por servicodesaude às 12:44
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1º Ano do Bebé - Licença de maternidade e ida creche

Dra. Maria José Gonçalves (pedopsiquiatra e psicanalista): Acerca da ida das crianças para as creches aos cinco meses, o melhor seria aumentar a licença de maternidade, pelo menos até ao um ano de idade.

Existem muito boas creches, mas até aos cinco meses as crianças não aproveitam tanto a socialização e tiram muito mais proveito do contacto directo com a mãe, com o pai, com a família, porque a relação é muito mais próxima. E a leitura dos sinais e as respostas são muito mais individualizadas, o que ajuda a criança a desenvolver-se melhor.
 
Uma das questões que as creches levantam é, desde logo, o número de crianças que cada profissional tem a seu cargo que, muitas vezes, não é o mais indicado. Por vezes não têm muito mais tempo disponível para além daquele que é dispendido a mudar as fraldas, a dar a alimentação, restando pouco tempo para brincar…
Dra. Maria José Gonçalves (pedopsiquiatra e psicanalista): E, sobretudo, dar aquela atenção, personalizada. O ideal seria aumentar o período de licença da maternidade.
 

Dra. Maria Amélia Silva (enfermeira pediátrica): É também a minha opinião, mas sabemos como é difícil nos empregos e, neste momento, nada aponta que se possa ir nesse sentido.



publicado por servicodesaude às 11:46
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1º Ano do Bebé - Auto-consolação: chucha, dedo e fralda

Falámos há pouco da importância da leitura dos sinais que o bebé fornece…

Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatria): Cada bebé tem as suas estratégias de auto-consolação, para se reorganizar. O grande desafio é este: desorganização/reorganização. E muitos bebés gostam de levar as mãos à boca para chuchar e são, por exemplo, contrariados com uma chucha.
 
E há pais que pensam que se o bebé tiver o polegar muito tempo na boca ficará com o dedo muito grosso…
Não tem importância nenhuma. No fundo, há que facilitar as suas próprias auto-estratégias para ele se organizar. E assim, a família também sente mais confiança e orgulho nas competências do bebé pelo facto de utilizar as suas próprias mãos para se consolar, por exemplo, quando adormece e não encontra a chucha.
Há outros que preferem chupar a fralda…
Dra. Maria Amélia Silva (enfermeira pediátrica): Sim, e muitas vezes aquilo que para nós é uma fralda que já está muito suja, para eles é importante que contenha aquele cheiro.
 
É uma das funções mais desenvolvidas nos bebés, o olfacto? É a partir do cheiro que começam por reconhecer as mães?

Dra. Maria Amélia Silva (enfermeira pediátrica): Sim, a partir do cheiro e do tacto, obviamente. Mas os objectos de transição são muito importantes porque dão-lhes segurança. Não interessa se para o sítio onde o bebé vai não precisar de os levar. Para o bebé eles são importantes. De vez em quando têm que ser lavados, mas são muito securizantes.



publicado por servicodesaude às 10:48
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1º Ano do Bebé - O papel dos avós

Há uma outra presença que pode ser securizante, que são os avós.

“A razão dos avós” – A importância dos avós na família, de Daniel Sampaio, das Edições Caminho, é uma viagem pela própria família do autor, em que ele defende que não somos nada sem o nosso passado, as nossas raízes. E os avós ajudam a passar essa mensagem, os rituais familiares, as crenças religiosas…
O que pensa relativamente ao papel dos avós?
Dra. Maria José Gonçalves (pedopsiquiatra e psicanalista): A presença dos avós directamente junto dos bebés, mas também dando apoio aos pais, é de facto extremamente importante.
Há 20 anos, quando Brazelton esteve a primeira vez em Portugal, admirava-se e congratulava-se com a nossa cultura, que ainda contava muito com a presença dos avós e que ainda possuía muitas famílias alargadas, ao contrário do que se passava nos EUA, em que os jovens estavam muito sós.
De facto, a importância dos avós tem a ver com a transmissão cultural, a transmissão do saber ser mãe, dos hábitos maternos, que são passados às filhas e às noras, e que lhes dá confiança. Para além de transmitirem coesão à família e socialmente.
 
Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatria): Os pais são os peritos e os avós são os “mais que peritos” porque eles fornecem paixão no dia-a-dia e constituem uma dupla peritagem. E promovem muito mimo.
 
O mimo dos avós nunca é demasiado? Às vezes os próprios pais queixam-se que os seus pais estragam os seus filhos com mimos a mais…
Dra. Maria José Gonçalves (pedopsiquiatra e psicanalista): Não. O mimo dos pais e dos avós nunca é demasiado. Mas depende: se os avós se substituem aos pais…

Agora se os pais são os líderes da situação e os avós estão ali para amparar um pouco o bebé, numa tarde, numa manhã, para os levar à escola; são situações pontuais. Se estão entregues aos avós, eles têm que fazer o papel de pais, que é, apesar de tudo, educar.



publicado por servicodesaude às 09:50
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1º Ano do Bebé - Risco à nascença: negligência ou maus tratos

Infelizmente, a realidade dos bebés não é sempre a que gostaríamos, a de terem sempre carinho e amor…

Várias crianças são todos os anos consideradas em risco e algumas conseguem ser reabsorvidas pela família, graças à vossa intervenção terapêutica, mas outras têm mesmo que ser institucionalizadas, que é sempre a pior das soluções para os bebés.
Só na Maternidade Alfredo da Costa, no ano passado, 420 crianças foram consideradas em risco, para não falar dos números das próprias comissões de protecção de crianças e jovens, que são na ordem dos milhares; vitimas de maus tratos psicológicos, maus tratos físicos, de abandono, de abuso sexual, etc.
 
Porque é que há tantas crianças em risco, logo quando nascem?
Dra. Fátima Xerepe (coordenadora da Assistência Social da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, assistente social e pós-graduada em Direito de Menores): Porque provavelmente há muitas mulheres e muitas mães que não desejaram os seus bebés. Há muitas crianças com factores de risco social, como vimos pelas 420 crianças consideradas em risco, só na Maternidade Alfredo da Costa, no ano passado.
Felizmente, conseguimos que mais de 70% saíssem da maternidade para as suas famílias de origem e apenas um pequeno número foi institucionalizado.
 
À partida, quando a mulher entra na Maternidade Alfredo da Costa tem um acompanhamento psicossocial. E não só a mulher, o apoio é concedido aos dois pais. Vamos tentando proporcionar o que necessitam e a aprendizagem das competências para serem “mais pais” e “mais mães”. Essa é a nossa grande preocupação.
No entanto, há mulheres muito sozinhas, com uma baixa auto-estima, uma pobreza extrema, em que por muito apoio que queiram dar aquela criança, são incapazes, porque elas próprias não estão estruturadas e as crianças têm que entrar temporariamente numa instituição. Por vezes, com a própria mãe.
Em outras situações, verificamos que as mulheres têm a sua capacidade materna muito debilitada. Elas querem muito ter um filho mas não sabem ser mães. E é aí que o apoio e a intervenção social têm que ser feitos junto das famílias, no sentido do superior interesse das crianças.
A nossa grande preocupação é a detecção precoce dos factores de risco, para que quando aquela criança sai do hospital não sofra nem negligências nem maus tratos.
 
Infelizmente, não há uma parceria assim tão grande com outras entidades, nomeadamente com as Misericórdias e com a Segurança Social porque, como me disse, algumas mulheres já estão a ser seguidas antes de chegarem à maternidade, mas essas situações não vos são apontadas.
Se esse trabalho em rede fosse mais significativo, porventura poderiam detectar mais situações ou saber antecipadamente o que se estava a passar?
Dra. Fátima Xerepe (coordenadora da assistência social da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, assistente social e pós-graduada em Direito de Menores): Muito se tem feito ultimamente no que diz respeito á articulação dos vários intervenientes, nomeadamente com os Centros de Saúde.
Quando as crianças saíem da Maternidade Alfredo da Costa há uma grande articulação com os Centros de Saúde da área. Todas as crianças são sinalizadas e há um feedback mútuo.
Relativamente à Segurança Social e à Misericórdia de Lisboa, esta articulação é um pouco mais débil e fracassada porque os técnicos ainda não têm o entendimento que gostaríamos, mas pensamos que iremos caminhar nesse sentido.


publicado por servicodesaude às 07:53
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1º Ano do Bebé - Maus tratos ou simples bofetada

Telefonema de Orlando Pinto, 52 anos, da Figueira da Foz:

"Fui vítima de maus tratos, em criança, por parte do meu pai. Fez-me torturas, pôs-me na rua e batia-me na cabeça. Tenho muita pena das crianças que sofrem e que mais tarde vão sentir isso pela vida fora".
 
Este senhor, que terá sido vítima de maus tratos, sobre os quais não poderemos avaliar a dimensão, refere a questão dos pais baterem nos filhos.
Os pais que dão uma bofetada nos filhos achando que isso pode resolver melhor a situação do que qualquer outra atitude é, para si, completamente errado...
Prof. Dr. João Gomes-Pedro (professor de pediatria): Sou completamente contra. Se a atitude for, desde o inicio, a de ter respeito e de tentar, em harmonia, encontrar soluções para cada caso e de criar confiança (mesmo às três semanas e depois por aí fora, aos dois, aos quatro meses), os pais verificam que há soluções variadíssimas.
 
Sobre o facto de muitas mulheres não se sentirem preparadas para ser mães, gostava de referir a importância da consulta pré-natal, centrada na criança, no bebé, porque é desde muito cedo que se prepara a mãe e o pai para a paixão de serem pais e para estas soluções encontradas em conjunto.
Na consulta pré-natal planeia-se o que se vai passar no parto mas também aquilo que se vai passar a seguir, antecipando por exemplo a questão das cólicas.
 
Dra. Maria José Gonçalves (pedopsiquiatra e psicanalista): Este trabalho pré-natal, das visitas domiciliárias, é muito importante, porque detectam-se estas situações de risco e previnem-se os futuros maus tratos nas crianças.
 

Dra. Maria Amélia Silva (enfermeira pediátrica): Muitas vezes é a falta de comunicação entre algumas instituições que impede a antecipação da resolução de alguns problemas e que não permite o encadear do acompanhamento destas situações.



publicado por servicodesaude às 06:56
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1º Ano do Bebé - Bibliografia

“A Criança e o Choro – o Método Brazelton", de T. Berry Brazelton e Joshua D. Sparrow da editorial Presença)

“O Grande Livro do Bebé”, de T. Berry Brazelton

“Para um Sentido de Coerência da Criança”, do Prof. Dr. João Gomes-Pedro, editado pela Europa-América
“O Grande Livro do Bebé – O Primeiro Ano de Vida", do pediatra Mário Cordeiro, editado pela Esfera dos Livros
“Bésame Mucho - Como criar os seus Filhos com Amor", do médico espanhol Carlos Gonzalez, da editora Pergaminho
“Onde Vamos Papá?", do jornalista e realizador francês Jean Louis Fournier (Prémio Femina 2008), editado pela Guerra e Paz:
 
“Dedico-o a todos os pais que, como ele, não tiveram um filho saudável e que tiveram um filho com deficiência. Este livro é um grito contra o preconceito relativamente a essas crianças” (Maria Elisa Domingues)


publicado por servicodesaude às 05:00
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1º Ano do Bebé - Links e telefones de interesse

Número Nacional de Socorro - Tel: 112

Centro de Informação Antivenenos (Centro de intoxicações) - Tel: 808 25 01 43
Saúde 24 / Dói-dói, Trim-Trim - Tel: 808 24 24 00
Farmácias de Serviço – Tel: 118 ou 12 118
Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI) / Tel: 218 870 161
S.O.S. Criança - Tel: 800 202 851 / 217 931 817
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publicado por servicodesaude às 04:08
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1º Ano do Bebé - Pedopsiquiatria e formação magistrados

Um médico, Dr. Mário Albuquerque pergunta:

Qual é a formação dos magistrados, na área da Psicologia do Desenvolvimento para lidarem com a questão dos abusos às crianças? E qual o parecer da Pediatria da Ordem dos Médicos, sobre este assunto?
Um assunto muito importante, já que há casos em que um parecer de um pedopsiquiatra foi ignorado por um juiz…
 
Dr. Álvaro de Carvalho (Coordenação Nacional de Saúde Mental): O colega fala da Pediatria mas acho que é mais uma questão da Pedopsiquiatria.
É um assunto muito importante. Tanto quanto consegui aperceber-me, numa licenciatura em Direito não há nenhuma cadeira sobre os direitos das crianças. Há apenas algumas abordagens em pós-graduações.
E nos Centros de Estudos Judiciários também não, para onde vão só os licenciados em Direito e, portanto, não terão tido essa sensibilização prévia. Até nos anos em que o Sr. Armando Leandro e o Dr. Laborinho Lúcio foram grandes impulsionadores do CEJ, e tinham uma grande sensibilidade para estas questões.
Até aí os juízes consideravam-se os peritos dos peritos. Há muitas áreas em que isso acontece, mas eu enquanto psiquiatra não me sinto competente para dar um parecer sobre cirurgia ou cardiologia.
Nas decisões médico-legais em que tenho intervido, constatei que há uma posição de certos magistrados, de uma certa omnipotência, e não procuram ouvir a posição dos peritos, quer sejam pedopsiquiatras, quer sejam pediatras, num tempo em que a multidisciplinaridade e a complementaridade das ciências são fundamentais.
Há a necessidade de haver em Portugal uma figura que seja transversal a todas essas situações que é a figura do Provedor da Criança. Somos dos poucos países da Europa que não a tem.
E seria bom que os políticos pudessem de facto criar essa figura; alguém que chame a atenção para as faculdades de Direito, para os Centros de Estudos Judiciários, da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Advogados, para a importância de, nesta área tão sensível, haver interdisciplinaridade, diálogo e respeito entre os vários saberes.


publicado por servicodesaude às 03:08
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