Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
Infertilidade - "Consultório" Serviço de Saúde - Respostas às questões colocadas on line e por telefone

Transmitido pela RTP1, no dia 22 de Setembro de 2009

 
Respostas às questões dos telespectadores
 
Introdução (por António Manuel Setúbal, médico especialista em Infertilidade)
Na globalidade, as questões colocadas pelos telespectadores confundem o tratamento da infertilidade com a procriação medicamente assistida (PMA).
Relativamente à infertilidade, praticamente 40% dos casos têm uma resolução total ou parcial através de cirurgia específica.
 
Na globalidade dos casais, a infertilidade, sobretudo na sociedade cosmopolita ocidental, tem um carácter feminino/masculino/misto. Embora a infertilidade feminina seja a mais frequente, o factor masculino ou o factor misto, i.e. homem e mulher, representam aproximadamente 40% da totalidade de casos de infertilidade do casal.
 
A infertilidade masculina está relacionada com a quantidade e com a qualidade dos espermatozóides. As suas causas são pouco conhecidas; no entanto, julga-se que factores ambientais e o stress sejam os mais importantes.
 
No que respeita a infertilidade feminina propriamente dita, a causa principal do seu aumento nos últimos anos é uma doença designada endometriose. No entanto, esta doença tem um padrão e uma evolução extraordinariamente lentos, sendo necessários vários anos até causar infertilidade.
 
Na realidade, esta doença que afecta mulheres muito jovens começa (sobretudo em casos de infertilidade profunda) por se revelar com um aumento progressivo de sintomatologia clássica: dismenorreia (dores menstruais), dispareunia (dor na relação sexual), disquésia (cólicas abdominais/intestinais na altura da menstruação), alterações do comportamento intestinal (mais frequentemente diarreia ou aumento das dejecções na altura da menstruação, ou obstipação na altura da menstruação).
Outros sintomas mais graves poderão associar-se ao longo dos anos, de forma progressiva e lenta. Inevitavelmente, se prolongada durante muitos anos, a endometriose conduz a infertilidade feminina.
 
Outros factores de infertilidade feminina são hoje menos frequentes e relativamente fáceis de despistar através do exame clínico e de exames complementares de diagnóstico. Incluem-se, por exemplo, a clássica obstrução tubária secundária a infecções abdominais (por exemplo, peritonite pós apendicite, ainda que na juventude), casos de malformação uterina, ou doenças endócrinas menos frequentes como, por exemplo, a síndrome de ovários poliquísticos ou outras síndromes de anovulação.
 
O tratamento da infertilidade faz parte, naturalmente, do âmbito de actividade dos médicos Ginecologistas do Hospital da Luz e de outras unidades do grupo Espírito Santo Saúde. No entanto, relativamente à procriação medicamente assistida, optou-se por não disponibilizar esse serviço já que existem no país cerca de 10 laboratórios em Lisboa, 5 no Porto e 3 em Coimbra, incluindo públicos, privados e privados com apoio público.
 
Questões colocadas pelos telespectadores 
“Consultório” online:
 
Rita Isabel: Porque é que os casais que já conseguiram uma gravidez, quando vão procurar ajuda no Hospital, por exemplo à MAC (Maternidade Alfredo da Costa) não têm direito a fazer os mesmos tratamentos que um casal que nunca teve filhos?
No meu caso fiquei com uma infertilidade secundária depois da gravidez e agora não tenho direito a fazer os tratamentos.
Só terei sucesso se for a um privado? Porque é que acontece a infertilidade secundária? Nunca tive problemas com os meus ciclos…
 
Dr. António Setúbal: A infertilidade secundária designa a infertilidade numa mulher que já procriou. As causas de uma infertilidade secundária podem ser femininas (por exemplo, lesão da cavidade uterina após raspagem uterina de um parto, entre outras) ou masculinas (por exemplo, mesmo em homens que já tenha tido filhos, ocorrer uma diminuição da produção e qualidade dos espermatozóides).
O diagnóstico da sua infertilidade secundária depende de múltiplos parâmetros de avaliação, quer femininos quer masculinos; obviamente o facto de recorrer a um privado não é garantia de sucesso. A questão principal é o diagnóstico, a forma de tratamento, e a capacidade de resposta ao seu caso, seja o serviço público ou privado.
 
asapinto: Gostaria de saber porque razão as seguradoras não comparticipam ecografias nem os tratamentos para a fertilidade.

Dr. António Setúbal: Esta questão está fora do âmbito da nossa actividade médica no Hospital da Luz na área da infertilidade. No entanto, não será demais salientar que de acordo com a legislação recente em vigor está previsto um acordo entre o SNS e prestadores privados no âmbito da infertilidade.
Quando à questão em concreto, é um tema que tem de ser visto junto das seguradoras e/ou subsistemas de saúde.
 
Inês Beirão (27 anos): Tenho uma doença rara transmitida pelo cromossoma X, pelo que cada filho que possa vir a ter terá 50% de possibilidade de ser saudável ou de nascer com a doença. Por esta razão penso fazer fertilização in vitro, para apenas implantar embriões saudáveis. E, de qualquer forma, esta doença não me fará abortar, no caso de uma gravidez espontânea.
Onde se faz este tipo de tratamento em Portugal? Apenas posso implantar 2 embriões como nos casos "normais" de infertilidade? É possível congelar possíveis embriões saudáveis para outras implantações?

Dr. António Setúbal: Pelo que se pode entender do enunciado da sua questão, o problema não reside no tratamento em Portugal, mas sim no diagnóstico pré-implantação. Esse diagnóstico já é possível ser realizado em Portugal, em pelo menos um dos centros existentes. Quando à questão de implantar 2 embriões nos casos ”normais” de infertilidade, trata-se do protocolo habitual, e consensual um pouco por todo o mundo. Relativamente à questão da congelação de embriões saudáveis para outras implantações a resposta é sim, ou seja, é possível.
 
Isabel Lopes: Estou numa luta com a infertilidade há 4 anos. E, no meu caso a infertilidade é inexplicável. Já gastei bastante dinheiro em tratamentos hormonais mas ainda não consegui um bom resultado.
Sou de Viseu e neste momento estou a ser seguida pelo Hospital da Universidade de Coimbra. Infelizmente nem todos os Hospitais, como é o caso do Hospital S. Teotónio de Viseu, têm forma de ajudar os casais com esta "doença" que é a infertilidade.
Fiz um tratamento hormonal que foi seguido pelo Hospital de Viseu, durante 3 meses mas como não havia mais a fazer, fui direccionada para o Hospital da Universidade de Coimbra, onde estou à espera de fazer uma inseminação artificial.
Infelizmente só há muito pouco tempo, nós, casais inférteis começamos a ter um pouco de ajuda do Estado. A medicação é muito cara e infelizmente o tempo de espera para os tratamentos é muito. Só damos conta de mais um ano a passar e...
Pergunto eu, iremos ter mais ajuda? Não vamos estar tanto tempo à espera para um fazer uma inseminação artificial ou uma fertilização in vitro?
Concordo que cada vez mais esta causa da "infertilidade" seja debatida e que encontrem mais soluções pois é com muita dor que nós, os casais inférteis lutamos contra ela. SONHO UM DIA SER MÃE!

Dr. António Setúbal: Com base no resumo do seu caso, é impossível aferir qualquer tipo de diagnóstico. Não estando em causa a competência dos múltiplos serviços pelos quais já passou, é completamente impossível elucidá-la do que é mais importante: o seu diagnóstico. Só conhecendo-o será possível propor uma terapêutica seja médica, cirúrgica, ou conjugada para o seu caso.
 
Lúcia Brandão (30 anos, auxiliar de acção educativa, Braga): Estou a tentar engravidar há 3 anos. Estou à espera de uma consulta de FIV (fertilização in vitro) e só tenho uma trompa. Terei possibilidade de engravidar?
 
Dr. António Setúbal: A questão principal não está associada à presença de uma só trompa. O mais importante é determinar um diagnóstico correcto de toda a sua situação no sentido de instituir uma terapêutica médica, cirúrgica ou conjugada.
 
Manuela (46 anos, reformada, Paços de Ferreira): Tive 2 abortos com 5 semanas. Comecei a tentar engravidar aos 44 anos porque casei há 3 anos.
Há tratamentos que possa fazer?
Dr. António Setúbal: Claro que sim. A gravidez em mulheres com mais de 40 anos na sociedade cosmopolita actual, muito embora difícil por razões de ordem biológica, continua a ser possível. Um dos tratamentos mais frequentes, muito embora controverso, é a doação de ovócitos.
 
Ana Pedro (33 anos, Técnica de Ambiente, Lisboa): Tenho o útero pequeno e questiono-me se posso engravidar ou se isso me pode levar a ter um aborto. Há algum paralelismo entre ter o útero pequeno e poder não engravidar?
Dr. António Setúbal: O importante é ter um diagnóstico concreto do que é um “útero pequeno”. Será uma malformação, como por exemplo um útero em forma de T, ou uma outra qualquer?
Geralmente este tipo de problemas está relacionado em com malformações uterinas, muitas delas passíveis de correcção por cirurgia.
 
Maria Gomes (39 anos, Lisboa): Já fiz caparoscopia e acho que o problema seja  o facto do meu marido ter cerca de 9 milhões de espermatozóides…
Qual é a probabilidade de sucesso para uma gravidez?
 
Dr. António Setúbal: Tudo aparenta ser um caso de infertilidade masculina; se não existir patologia feminina a probabilidade de sucesso de uma gravidez depende das várias técnicas de PMA. Neste caso, a probabilidade ronda os 30%.
 
Ana Moreira (39 anos):Tive um linfoma de Hodgkin. Posso engravidar?
 
Dr. António Setúbal: Felizmente sim. A questão principal é saber a que idade contraiu e tratou o linfoma. Muitas dos fármacos usados neste tratamento, desencadearam a ocorrência no futuro de úteros miomatosos que poderão influenciar ou não a gravidez. Ou seja, o linfoma de Hodgkin se totalmente tratado não interfere com a sua gravidez. O tipo de fármacos usado no tratamento é que o poderá fazer. Para uma resposta definitiva à sua questão a informação fornecida é insuficiente.
 
Maria (34 anos, Educadora de Infância, Castelo Branco): Porque as pessoas vão para o estrangeiro? Em Portugal não há doação de ovócitos e de espermatozóides?
 
Dr. António Setúbal: À sua primeira questão não sabemos responder.
Relativamente à segunda questão, a resposta é afirmativa, isto é há doação de ovócitos e de espermatozóides em Portugal.
 
Paulo Marques (33 anos, Montijo): Somos seguidos há 7 anos. Há 2 meses fui à maternidade e tenho o diagnóstico feito. O médico disse que era impensável mandá-lo para o privado gastar cerca de 10 mil euros, mas o problema é que no SNS não existem médicos para fazer a recolha e o estudo dos embriões.  
 
Dr. António Setúbal: Não sabendo qual é o diagnóstico, não temos possibilidade de responder à sua questão. No que se refere aos custos, desconhecendo o que lhe é proposto não temos capacidade para os avaliar.
Ao contrário do que afirma, no SNS existem médicos que fazem recolha e estudo de ovócitos, de espermatozóides e de viabilidade de implantação pós-fertilização in vitro.
 


publicado por servicodesaude às 18:25
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Terça-feira, 22 de Setembro de 2009
Consultório

A partir de hoje está disponível o consultorio online: um local onde poderá colocar as suas questões relacionadas com o tema do programa.

Serão seleccionadas algumas das questões que serão respondidas com a máxima brevidade possível por um especialista da área em questão.

 

Este consultório é fruto da parceria entre o Hospital da Luz, o programa Serviço de Saúde e o portal SAPO.

 

Ficamos à espera das suas questões.



publicado por servicodesaude às 23:55
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