Terça-feira, 31 de Março de 2009
Saúde Mental - Introdução (por Maria Elisa Domingues

O programa Serviço de Saúde, da RTP 1, do dia 31 de Março de 2009, debruçou-se sobre o tema da Saúde Mental.

 

Introdução (por Maria Elisa Domingues)
Das dez principais causas de incapacidade a nível mundial, cinco são doenças psiquiátricas.
Considerando os anos de vida saudável perdidos, as perturbações mentais estão lado a lado com as patologias cardiovasculares e as patologias respiratórias, ultrapassando o conjunto das neoplasias.
A depressão, em particular, constitui um dos mais graves problemas de saúde pública, com que se debatem os países industrializados. Em Portugal, os doentes com depressão são o maior grupo do ambulatório e, no entanto, sabe-se que os casos de depressão estão ainda subdiagnosticados.
 
O Serviço de Saúde vai hoje abordar as doenças mentais mais prevalentes em Portugal.
Apesar das leis, que foram sempre avançadas para a época, até mesmo no anterior regime, produzimos uma boa lei de Saúde Mental, em 1963 e, depois, as leis de 98 e 99, que podem mesmo ser consideradas de excelentes. Mas manifestamos na Saúde Mental, a mesma incapacidade de implementar aquilo que concebemos no papel, que tanto prejudica e atrasa outros sectores da nossa sociedade.
 
Quando as boas práticas apontam para as vantagens de tratar os doentes através de serviços inseridos na comunidade, gastamos hoje 83% do orçamento da Saúde Mental em internamentos.
Além disso, a maioria dos recursos concentra-se hoje em Lisboa, Porto e Coimbra, deixando uma boa parte do país, sobretudo os mais carenciados, sem acesso aos serviços especializados. Porquê? É o que vamos tentar saber hoje.
 
A nossa reportagem acompanhou duas equipas, que há muito perceberam a vantagem dos cuidados de proximidade. Uma do Hospital de São Teotónio, em Viseu; outra da Casa de Saúde do Telhal.
 


publicado por servicodesaude às 20:01
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Saúde Mental - Reportagem

De segunda a sexta-feira, das nove da manhã às quatro da tarde, é este o ritmo diário dos seis enfermeiros do serviço comunitário do Departamento de Saúde Mental, do Hospital de São Teotónio, em Viseu. Cada enfermeiro visita em média dez casas por dia, o que dá um total de mais de seis mil visitas domiciliárias, ao fim de um ano.

 
Antes de 1950, o destino inevitável da maioria dos doentes psicóticos era a institucionalização prolongada num hospital psiquiátrico mas com a descoberta da clorpromazina e, mais tarde, dos neurolépticos de acção prolongada, o internamento passou a ser evitado, na medida do possível.
E as visitas, como a do enfermeiro Hélder servem para administrar a medicação, para dar apoio às famílias e ajudar na integração do doente na comunidade.
 
Margarida Marques (prestadora de cuidados): “Desde que toma a medicação está mais calma, mais sossegada”.
 
Hélder Lourenço (enfermeiro): “Somos como os padres ou os médicos da região. Os doentes sabem que se fossem eles a deslocarem-se se ao departamento de saúde não tinham possibilidades económicas. E sabem que, a qualquer momento que precisem da nossa ajuda, não só localmente, mas também em termos de consultas e internamento, têm prioridade.
 
Para este tipo de doentes mentais não existe propriamente uma cura mas sim um tratamento, usado quer na fase aguda da doença quer na prevenção de ocorrência de novas crises. Quando há recaídas, é o enfermeiro que faz a ligação entre doentes, famílias e a restante equipa.
 
No caso de Abílio, uma descompensação levou-o a automutilar-se com uma faca. Foi necessária a intervenção da equipa e, para o caso, o internamento. Mas por agora o homem que quer ser bombeiro voltou à guarda da irmã e à medicação mensal do enfermeiro Hélder.
 
Hélder Lourenço: “Quando os doentes perdem os cuidadores directos - mãe, pais e irmãos – gera-se um grande problema sobre quem é que vai cuidar deles. Porque nós vamos vê-los de quatro em quatro semanas, mas e entre esses dias? Quem é que está ali para orientar, ver se tomam a medicação? Há casos extremos...
 
Para lutar contra todos estes problemas, o hospital criou redes de suporte através de parcerias com instituições privadas de solidariedade social. Uma dessas parcerias tem ajudado à integração dos doentes na comunidade, através do programa Formação Profissional e Apoio à Integração em Mercado de Trabalho.
 
Mário Pereira (Director Técnico da ASSOL): “Tentamos, sempre que possível, e sempre que eles queiram, que façam aquilo que gostem. E que as experiencias socioprofissionais no exterior, não sendo propriamente situações de trabalho ou de emprego, são situações de valor comunitário, através das quais tentamos que as pessoas adquiram um estatuto comunitário reconhecido”.
 
Marta Caiado (notária): “O Elei enquadrou-se bastante bem no trabalho aqui no cartório e é bastante responsável. Organizou o arquivo praticamente sozinho, vai aos correios, entrega ofícios nas Finanças e efectua serviços que o cartório tem obrigatoriamente que fazer.
É uma pessoa extremamente diligente e responsável. E que pode perfeitamente fazer esse tipo de serviço sozinho”.
 
Se para uns doentes trabalhar é, sem dúvida, uma vitória, outros conseguiram ultrapassar a barreira do preconceito e da doença, ao viverem sozinhos em residências destinadas a pessoas com doença mental, que outra instituição, a Casa do Telhal, possui. Unidades autónomas e protegidas de acordo com a legislação portuguesa, onde os doentes têm uma vida em tudo idêntica a uma família regular.
 
Os que conseguem, têm o dia ocupado na formação profissional ou em estágios de empresas. Nos tempos livres, fazem as compras e as limpezas da casa, organizam o dia-a-dia ou, simplesmente, lêem um livro.
 
Pedro Hipólito (42 anos): “Conseguimos levar aqui uma vida que eu considero muito razoável, porque temos certas tarefas para fazer e ao mesmo tempo estamos a meia hora de comboio de Lisboa. E podemos ir visitar a família, dar um passeio, ir ao cinema, ir ao shopping, comprar roupa, se precisarmos. Temos uma certa liberdade”.
 
O estudo de cada caso como único, permite à equipa de saúde traçar novos objectivos e aproximar o doente da família, tantas vezes martirizadas com os problemas originados pela doença.
 
Maria do Carmo Leão (Coordenadora da Unidade de Vida Autónoma): “Quando começamos a trabalhar com o doente há sempre uma grande desconfiança por parte da família, mas à medida que vão vendo que o doente até se mantém e consegue trabalhar, às vezes aproximam-se e já temos tido surpresas. Já tivemos um utente que passou da Unidade de Vida para casa da família. As famílias começam a acreditar mas é um processo demorado”.
 
Em Portugal, o internamento continua a consumir mais de 80% dos recursos, quando toda a evidência científica mostra que as intervenções na comunidade, além de mais efectivas, são as preferidas dos doentes e suas famílias.
 
Luís Santos (42 anos): “Tem a função laboral que é muito importante para a nossa reinserção na sociedade. E proporciona-nos mais saúde e qualidade de vida. Agora é um Luís que conseguiu dar a volta com o apoio de toda a equipa. Agora posso dizer que estou feliz com a vida, realizado, e o futuro será cada vez melhor”.
 
Com a implementação do Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016, pretende-se cada vez mais criar condições para dar dignidade e igualdade a quem sofre de doença mental crónica.
 
Em Portugal, apenas uma parte das pessoas que têm problemas de saúde mental, têm acesso aos serviços públicos especializados. E mesmo o número de 1,7% é escasso, se tivermos em conta que pelo menos entre 5% a 8% da população sofre de uma perturbação mental de uma certa gravidade.
 
Junte-se ainda ao envelhecimento da população a depressão que, segundo dados do Ministério da Saúde, afecta cerca de 20% da população portuguesa, e o quadro clínico da Saúde Mental, em Portugal, não é o mais animador.


publicado por servicodesaude às 19:09
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Saúde Mental - Estigma e Reabilitação

Margarida Cordo, psicóloga, terapeuta familiar e psico-terapeuta, é a coordenadora dos Serviços de Reabilitação da Casa de Saúde do Telhal. É membro de várias associações científicas e escritora, por exemplo do livro “Diário de Maria”, diário de uma pessoa com doença mental. 

O que se nota nestes doentes das Unidades de Vida Autónoma, com uma certa autonomia, é uma atitude de auto-estima, de orgulho em si próprios, que é uma atitude geralmente muito diferente daquela que as pessoas têm quando estão institucionalizadas.
Margarida Cordo (psicóloga): De facto. A nossa experiência com o processo de institucionalização - e já começámos há 13 anos -, tem-nos ajudado a perceber que há muito para fazer. Há todo o desfazer de um estigma que está associado geralmente às pessoas com doença mental. E continua a estar; no fundo é um processo gradual.
O trabalho que temos desenvolvido tem a ver com toda uma tentativa de reconversão da instituição para a sociedade. Mas temos a noção que nem todas as pessoas conseguirão atingir este bem-estar e qualidade de vida.
 
A maior parte destes doentes, da Casa do Telhal sofrem de psicoses graves, nomeadamente esquizofrenias, doença bipolar
Margarida Cordo: E o contacto com a realidade, nesse quadro, nem sempre é aquele que se espera. O estigma associado às pessoas com doença mental é esse mesmo; a dificuldade de ter um contacto sereno com a realidade, na nossa prespectiva.
E também tem a ver com o facto de, durante muitos anos, a psiquiatria e os doentes psiquiátricos terem estado confinados aos hospitais, devido ao enquadramento e à abordagem que era feita a estas doenças. E ainda estão em demasia.
 
Este programa, de 2006 a 2017, tem como objectivo converter as instituições hospitalares para que possam oferecer serviços que permitam uma melhor qualidade de vida às pessoas com doença mental. Desde formação adequada, integração no mercado de trabalho, até à integração residencial.
No fundo, objectivos que permitam a estas pessoas a luta pela dignidade.
 
Apesar dos números não serem muito diferentes dos que existem no resto do mundo, ou da Europa; em Portugal, o papel da família ainda é determinante e fornece uma rede de apoio a estes doentes…
Margarida Cordo: Com a família também temos vindo a seguir um trabalho de psico-educação, para que aprendam a lidar com estas realidades.
As residências que temos na comunidade recebem aquelas pessoas que não conseguimos integrar nas famílias. Ainda assim, não se pode de forma simplista acusar as famílias, que têm que trabalhar e têm outras pessoas a seu cargo.
Quando dizemos que não têm alternativa residencial é exactamente nessa perspectiva. Mas continuamos a contar com o apoio da família, no suporte afectivo e no que está ao seu alcance fazerem.
 
Fala-se na reportagem de um caso que foi possível restituir à família.
Desde que a pessoa venha mais serena, menos agressiva, que não constitua um perigo, até mesmo para ela própria, a resposta das famílias é boa?
Margarida Cordo: Quando procuramos integrar as pessoas na sociedade, e sobretudo quando falamos de pessoas que estiveram institucionalizadas durante muito tempo, a primeira atitude das famílias é alguma resistência. E esta resistência tem a ver com alguma ameaça pressentida porque quando as pessoas com doença psiquiátrica entram numa instituição é quase como um “descanso” para as famílias que por vezes viram as suas próprias vidas muito perturbadas. Ou seja, há uma solução intermédia não apenas para o problema mental do seu familiar, mas para si próprios.
 
Por vezes quando se fala em reabilitar e tentar reinserir, acaba por ser uma ameaça. E o nosso trabalho passa por lhes transmitir que quando a pessoa com doença mental for reinserida já vai para casa noutras condições, tem outra autonomia e outra perspectiva de vida.
 
A própria farmacologia dá hoje respostas diferentes daquelas que havia há uns anos atrás? A partir dos anos 50, o aparecimento dos antipsicóticos foi tornando a reabilitação possível. Antes disso era impossível.


publicado por servicodesaude às 18:11
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Saúde Mental - Leis e Planos de Saúde Mental

Prof. José Miguel Caldas de Almeida (psiquiatra e coordenador Nacional Para a Saúde Mental, é presidente da Comissão para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental, tendo coordenado o Plano Nacional de Saúde Mental que se está a implementar.

É também professor de Psiquiatria e Saúde Mental na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, do qual também é director, tendo estado ao serviço da Organização Mundial de Saúde e participado no Relatório Mundial de Saúde 2001).
 
Desde 1963, mesmo durante o Antigo Regime, sempre tivémos uma boa lei de Saúde Mental, que já previa a criação de centros de saúde mental em todos os distritos, por exemplo. Temos uma excelente lei desde 1998. Temos bons especialistas, exemplos de boas práticas pelo país, algumas já com algumas dezenas de anos, mas não conseguimos implementar as medidas necessárias, duma forma organizada e sistemática em todo o país, e continuamos a concentrar uma percentagem de recursos sem justificação no internamento…
Porquê esta dificuldade em fazer o que tem que ser feito?
 
Prof. José Miguel Caldas de Almeida (psiquiatra, coordenador Nacional Para a Saúde Mental): Penso que é uma responsabilidade de todos. Do poder político, que só em momentos muito raros se interessou e apostou na Saúde Mental. Nossa, enquanto profissionais, que nem sempre termos conseguido criar os consensos necessários e perdemos demasiado tempo em lutas sem sentido. E é também uma responsabilidade de todos nós enquanto sociedade.
Temos tido dificuldade em valorizar as pessoas com doenças mentais e a Saúde Mental, em geral. Portugal tem sempre escondido os problemas da Saúde Mental; não tem discutido suficientemente.
Tudo isto dificulta as reformas nos Serviços de Saúde Mental, que são complicadas. A psiquiatria esteve durante séculos separada do resto da Medicina. Os hospitais psiquiátricos ficavam longe das cidades…
Outros países conseguiram mais facilmente. A Espanha, por exemplo, está 15 ou 20 anos à nossa frente. Porque foram capazes de criar consensos que nós não criámos.
 
A evolução política espanhola foi parecida com a nossa. Foi mais difícil criar esses consensos ao nível das classes socioprofissionais? São interesses corporativos instalados que têm dificultado a implementação de outro tipo de serviços de Saúde Mental?
Prof. José Miguel Caldas de Almeida: Em Espanha, a seguir à queda do regime franquista, toda a psiquiatria, com excepção de pequenos sectores, apostou consensualmente na reforma psiquiátrica. O que aliás acontece na maior parte dos processos de democratização.
Em Portugal não aconteceu. A seguir ao 25 de Abril, embora tenha havido alguns progressos, houve muitas lutas internas, mesmo entre os profissionais.
 
O texto do Plano Nacional de Saúde Mental é extremamente bem feito e aponta o que está mal. Aqui parece existir uma invulgar capacidade de diagnosticar o que está mal, mas depois existe uma enorme incapacidade de pôr as medidas em prática, o que é lamentável, porque as vítimas – que são os doentes -, são os mais frágeis…

 



publicado por servicodesaude às 17:18
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Saúde Mental - Depressão: estigma e incapacidade

Dr. Álvaro Carvalho (médico de Saúde Mental e Psiquiátrica residente. Foi director do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental, do Hospital São Francisco Xavier e esteve ligado por diversas vezes à reestruturação da Saúde Mental, tendo sido o director do Serviço de Psiquiatria e de Saúde Mental da DGS, de 1996 a 2000.

Hoje, para além de docente na Faculdade de Ciências Médicas, integra a Coordenação Nacional para a Saúde Mental. E esteve, desde o início, ligado aos Centros de Responsabilidade Integrada. 
Os problemas de psiquiatria são hoje dos mais graves das sociedades. Entre as dez maiores causas de incapacidade no mundo, cinco são de origem psiquiátrica e, no entanto, ainda há um grande estigma em relação à doença mental…
Dr. Álvaro Carvalho (psiquiatra): Sim, sim. Há uma incapacidade sobretudo em relação à actividade produtiva. E era preciso sensibilizar os poderes públicos e políticos para este problema.
A depressão, por exemplo, neste estudo que a OMS fez em 1996, estava em quarto lugar com a perspectiva de subir a primeiro ou segundo, em poucos anos.
O que tem sido feito entre nós é muito limitado e inconsequente. Se os poderes públicos assumirem esta importância da Saúde Mental, as resistências que possam existir, a integração a nível profissional ou até o estigma que a população em geral ainda mantém, podem alterar-se.
As pessoas ainda dizem que sofrem “dos nervos” e vão ao neurologista em vez de ir ao psiquiatra, porque ir ao psiquiatra pressupõe a existência de um problema psíquico.
Felizmente, a prevalência das psicoses esquizofrénicas anda à volta de 1% relativamente à população em geral. São situações muito dramáticas que deixam as pessoas muito impressionadas porque ouvem vozes, sentem-se perseguidas, têm alterações de comportamento, ou até comportamentos agressivos, o que assusta as pessoas.
 
Mas mesmo a depressão, que não assusta tanto, apesar de poder ser muito incapacitante, não leva a pessoa ao médico. E essa é uma das razões porque está subdiagnosticada…
Dr. Álvaro Carvalho (psiquiatra): Existem vários tipos de depressão. Felizmente que a maioria das situações depressivas são “menores” e não há o risco de algo dramático, como nas graves, que é o suicídio. Mas entre nós ainda é relativamente frequente as pessoas tomarem complexos vitamínicos ou simplesmente tranquilizantes.
Um dos sintomas mais comuns nas depressões “menores” é a dificuldade de adormecer.
E muitas vezes anda-se ali meses, ou mesmo anos, com situações que se podem agravar, e a tomar medicamentos que podem dar dependência e que não vão resolver o verdadeiro problema.
 
Dr. Ricardo Gusmão (especialista em psiquiatria), fez a sua tese de doutoramento sobre “a depressão”. Segundo a sua tese, muitos médicos de família não têm a capacidade de diagnosticar alguns casos de depressão e essa será uma das razões pela qual estará subestimada…
Dr. Ricardo Gusmão: Sim, mas o problema não é intrínseco à qualidade dos médicos de família. É algo que diz respeito aos profissionais de saúde, à actividade docente, e tem a ver com o facto da saúde mental não estar integrada nas outras áreas do ensino médico.
Tento comunicar a importância de diagnosticar e tratar a depressão. A depressão é uma doença sistémica que tem impacto ao nível de todo o corpo, do que as pessoas pensam, sentem e ao nível das emoções.
Tem um impacto ao nível do tubo digestivo, das dores de cabeça, dos ossos, dos músculos. E muitas vezes as pessoas não identificam como sendo um problema psicológico, sendo estes os componentes aparentes das síndromes depressivas.
O ensino médico é muito concentrado nos sistemas: ossos, fígado, estômago, coração, cérebro, nervos periféricos... Há por vezes a dificuldade de compreender o indivíduo como um todo e esquecemo-nos que o cérebro é o núcleo central, que controla tudo o que está da pele para dentro mas também da pele para fora.
E há uma grande dificuldade em perceber que o sofrimento mental faz parte da vida e é normal, e depois distingui-lo daquilo que é patologia.

 



publicado por servicodesaude às 16:20
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Saúde Mental - Acolhimento de doentes mentais e bipolares

Telefonema de Maria do Carmo Barroso, 46 anos, operadora de lavandaria do Entroncamento.

Tenho uma irmã com 51 anos, tem doença bipolar e vive com uma tia de 65 anos.
O problema são as crises. Está a ser tratada mas a minha tia diz que já não vai aguentar a próxima crise. Deita tudo fora, não deixa dormir ninguém…
Ela não pode ficar sozinha e precisava de um local onde pudesse estar até passar a crise. Porque o problema dela é deixar de tomar a medicação quando sente que está melhor.
 
Já vimos esta situação. O que é que acontece às pessoas quando perdem o único familiar que cuida delas? O acolhimento faz-se mas num número reduzido de casos …
Dr. Álvaro de Carvalho: Esta senhora (bipolar) pertence à zona do nosso hospital, de São Francisco de Xavier, actualmente Centro Hospitalar Lisboa Ocidental. Há equipas dos serviços oficiais ali na zona e há hipótese de internamento, numa situação de crise, que se justifique. Mas regra geral um doente bipolar não tem as mesmas implicações que um doente esquizofrénico e há crises que podem ser controladas em ambulatório.
Aguardamos a todo o momento que as Unidades de Vida Protegidas e Autónomas (unidades residenciais para as pessoas com doença mental) possam surgir em maior número e em maior número de especificações.
 
Prof. José Miguel Caldas de Almeida: Este caso é paradigmático e coloca dois problemas diferentes. O primeiro, é a necessidade dos doentes terem uma equipa que seja responsável por eles. É muito difícil estes doentes serem tratados apenas por um profissional. É uma doença que se arrasta ao longo da vida, que pode ter vários surtos e fases de evolução diferentes, e só uma equipa multidisciplinar - com psiquiatras, psicólogos e enfermeiros - é que tem a capacidade para lidar com estes doentes.
E é preciso haver uma rede com vários dispositivos. Tem que haver um internamento num hospital geral para que, nestas crises (que podem ser de algumas semanas), o doente seja imediatamente assistido e a família não tenha que passar pela situação de ter um doente psicótico em casa, e esperar dias ou semanas para ter uma resposta.
 
Depois devia haver um programa individual para cada doente que incluísse outras respostas, como o hospital de dia e um programa psico-educacional, que envolvesse a família. O que esta doente precisa é estar em contacto com uma equipa de saúde mental e até vive numa das poucas áreas em Portugal onde existem equipas que podem dar este tipo de apoio.
Outro problema, é as pessoas não terem família que lhes possa dar esse apoio. E estas residências já existem há 10 anos em Portugal e num número razoável para se perceber que funcionam. E que, portanto, são necessárias mais.
 
Essa é uma das grandes apostas do Plano Nacional de Saúde Mental. Primeiro, todo o território ser coberto por estas equipas que referi. E que em todas as zonas do país possa haver acesso às tais residências, para que os casos que não podem ficar com a família tenham de facto uma perspectiva.


publicado por servicodesaude às 15:22
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Saúde Mental - Unidades Psiquiátricas de Proximidade (1-2)

Ambas trabalham na Unidade Psiquiátrica de Odivelas. Servem uma comunidade de 135 mil habitantes, com carências de diversa ordem...

Marta Gaspar (enfermeira): Sim, sem dúvida. Notamos diariamente uma grande procura dos nossos serviços. Trabalhamos com os centros de saúde da zona. A equipa é composta por uma assistente social e um enfermeiro que, mensalmente, fazem reuniões com os cuidados continuados e visitas domiciliárias a casos de doença mental que precisam de ser avaliados.
 
Privilegiam o contacto de proximidade, que é o que melhor se adapta à doença mental?
Marta Gaspar (enfermeira): Na comunidade é importante conhecer o meio em que os doentes estão inseridos, quais os problemas que afectam as pessoas com doença mental, e poder desenvolver estratégias articuladas com as redes de apoio social, para que estas pessoas tenham maior qualidade de vida e prevenir o internamento, se possível.
 
E apoiar certas famílias?
Nélia Canudo (psicóloga): A nossa equipa, no ano passado, relativamente às outras equipas do hospital, foi a que teve uma taxa de internamento e de reinternamento mais baixa, precisamente, porque existe esta equipa na comunidade que faz uma detecção precoce e mais completa dos problemas.
 
A equipa faz um trabalho não só com a pessoa que está doente. Há um grande sofrimento por parte das famílias e um grande desconhecimento da doença mental. A dinâmica familiar, o estilo de relação teve que ser adaptada à doença e, muitas vezes, quando a pessoa já conseguiu estabilizar, entretanto o funcionamento anterior “cristalizou”. E quando a pessoa tenta readquirir o seu papel e as suas funções familiares - a que tem direito -, “já lá não cabe”. E isso muitas vezes até provoca uma outra crise. É este trabalho na comunidade que nos cabe fazer.


publicado por servicodesaude às 14:24
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Saúde Mental - Internamento compulsivo: psicose grave

Telefonema de Maria Pereira, de Vila Real:

Tenho uma irmã mais nova e que está há meses completamente isolada. Deixou de trabalhar, quase não se alimenta… E o diagnóstico que lhe foi feito há uns anos atrás é que tinha uma psicose maníaco-depressiva.
Na altura houve um internamento porque houve manifestações de agressividade para o exterior. Depois do internamento ficou melhor, mas depois acabou por piorar porque não toma a medicação. E esse é o grande problema, é não dar continuidade ao tratamento. Ou seja, agora houve uma recaída.
Não há ninguém que consiga chegar perto e ela não toma a medicação. Já marquei duas consultas psiquiátricas e não quis comparecer. A sofrer com isto está a minha mãe, e não sabemos o que fazer.
Já recorri ao Serviço de Psiquiatria do Hospital de Bragança e dizem que tem que haver uma agressão pública ou uma automutilação para ser internada compulsivamente. Fomos ao Ministério Público e dizem o mesmo. Fizémos todas as diligências e isto é uma situação desesperante.
Para além disso está a pôr em risco o emprego, está sem trabalhar há meses, de baixa, com atestados passados pelo médico de família, com muito favor.
 
A sua irmã não admite que está doente?
Não, não admite. Entra em delírio total e é muito desesperante.
Na teoria ouvimos muitas soluções, na prática gostava de saber o que fazer numa situação destas…
 
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra): A lei é clara e explícita. Há dois tipos de internamento compulsivo. Ou há um internamento normal, que tem que ser através do tribunal e este tem que ouvir o médico. O médico é que tem que avaliar e ver se é, ou não, uma situação para internamento compulsivo. Ou então, se a situação for de facto muito urgente, pode-se dirigir a um hospital de qualquer zona do país…
 
Mas a senhora disse já o ter feito…
Dr. Álvaro de Carvalho (psiquiatra): Quando há uma situação psicótica, em que a pessoa não reconhece que está doente, há um recurso obrigatório ao delegado de saúde (que é a autoridade de saúde) que, face ao parecer do médico psiquiátrico, ou até do clínico geral, emite um mandato, que pode ser conduzido através das forças policiais. Isto quando há perigo eminente, de acordo com a lei, “relativamente aos bens pessoais ou patrimoniais, pessoais ou alheios”.
Ao que parece, a senhora está em perigo eminente de saúde, eventualmente de vida, são grandes os transtornos do ponto de vista familiar e está, pelos vistos, francamente psicótica, portanto é este o caminho a seguir.
 
Prof. José Miguel Caldas de Almeida: Fico surpreendido, porque este caso, hoje em dia e à partida, não apresenta grandes dificuldades. Temos meios terapêuticos que permitem uma rápida compensação do estado do doente.
Mas volto ao mesmo: é preciso uma equipa que acompanhe o caso. Se o doente não toma a medicação, a equipa vai a casa para assegurar a continuidade da medicação. Porque se as pessoas deixam de aderir à terapêutica podem descompensar outra vez. A continuidade da medicação é a chave do sucesso para as pessoas conseguirem reabilitar-se.
Infelizmente em Portugal ainda há muitos casos destes porque há pouca informação, e porque muitos dos interlocutores desta cadeia não sabem o que fazer.
Não é preciso haver agressão para haver internamento compulsivo, desde que haja uma situação psicótica grave. Que traga perigo para os outros ou para o próprio.
 
Aqui há duas maneiras de agir. Ou seguir o caminho que o Dr. Álvaro de Carvalho referiu, junto do delegado de saúde. Ou então, seguir uma forma menos ortodoxa, e pegarem na doente, mesmo com ajuda de outros familiares, amigos, ou os bombeiros, e levarem-na a um serviço de urgência de um hospital. Se for um caso de psicose aguda é internada, e passado poucos dias a doente está compensada. Depois, se entrar num programa adequado, tudo pode mudar.


publicado por servicodesaude às 13:26
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Saúde Mental - Depressão e Bipolaridade

A depressão é, na área das doenças mentais, uma das mais prevalentes. Existem vários tipos, mas na sua forma mais grave ela é, ou pode ser, uma doença crónica?

Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): A depressão pode ser uma doença crónica. Embora o que me pareça que os dois telefonemas anteriores se referem a casos de doença bipolar, na sua fase depressiva.
O que há em comum entre os dois casos é que não aceitam que estão doentes. E o internamento compulsivo é uma medida essencial, que permite que as pessoas tenham acesso aos cuidados de que necessitam mesmo contra a sua vontade.
 
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): A pessoa tem que perceber que tem uma doença cerebral que interfere com os seus humores. Fico surpreendido porque estes casos têm tratamento e a taxa é das mais elevadas em medicina. É mais difícil tratar uma hipertensão arterial que uma perturbação bipolar. Embora seja óbvio que há casos e casos, com resistência à terapêutica, em pessoas com situações complicadas, até a nível familiar.
 
Hoje em dia a depressão, entre outras doenças, são geridas como doenças crónicas. Porque não se trata apenas de estar sempre no estado depressivo ou de ser imprevisível quando se vai estar deprimido. É que os estados depressivos são altamente recorrentes.
O problema hoje é que uma pessoa tem uma depressão menor, muitas vezes reactiva a situações vivenciais mas, por ter tido este episódio, que até pode ter sido relativamente bem ultrapassado, a probabilidade de vir até um episódio mais sério no futuro aumenta exponencialmente.
 

O peso da gestão da depressão na saúde pública é fundamental porque as pessoas, por múltiplos factores, têm cada vez mais depressão.



publicado por servicodesaude às 12:28
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Saúde Mental - Depressão - sintomas e riscos

Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Existem situações mais graves, com menor expressão e, depois, existem outras situações, da qual a depressão talvez seja o paradigma, altamente prevalentes, mas muito menos graves.

Estima-se no entanto que 150 mil pessoas por ano tenham a forma mais grave de depressão: a depressão psicótica.
 
Mas são cerca de 20%, os doentes com alguma forma de depressão?
Diria que não me espantaria que a estimativa de prevalência anual chegasse aos 14% ou 15%.
 
E entre os jovens, nomeadamente do sexo masculino, a depressão está a aumentar
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Sim, está. E o risco de suicídio também.
 
Até hoje a depressão era maioritária nas mulheres, mas agora a situação também está a mudar…
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Sim, se tivermos em conta a expressão clássica do estado depressivo, tal como o temos vindo a descrever… As mulheres reconhecem melhor os afectos e exprimem melhor os afectos. Não me espanto com uma diferença de género. Mas essas diferenças de género têm-se vindo a esbater.
Os homens também começaram a abandonar outro tipo de “estratégias” para evitar a depressão que passavam muito pelo alcoolismo, por comportamentos aditivos com substâncias ou por comportamentos violentos…
 
A depressão é altamente debilitante do resto da saúde? Quem tem depressão tem mais probabilidade de ter outras doenças associadas?
Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): E até de morrer, independentemente do suicídio. O risco de mortalidade em pessoas com depressão é superior, de acordo com critérios de idade, sexo e estrato socioeconómico e cultural.
 
Quando é que a pessoa deve procurar ajuda? Quando é que aquele, “ando a sentir-me um bocado em baixo”, pode ser mais que isso e tratar-se de uma depressão?
 Dr. Ricardo Gusmão (psiquiatra): Primeiro acho que as pessoas têm que aceitar que a vida que nos foi prometida não é assim tão fácil e que o sofrimento é uma constante da vida. E que felizmente não é persistente.
Agora quando a pessoa sente que atingiu um ponto de não-retorno, não consegue aceder aos recursos que tinha em memória, ou sente que tinha, quando percebe que ao nível profissional, ao nível afectivo, social e relacional, as coisas se modificaram e os outros fazem reparos nesse sentido; as pessoas devem intuir isso e procurar ajuda, nem que seja para tirar as dúvidas.


publicado por servicodesaude às 11:30
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Saúde Mental - Unidades Psiquiátricas de Proximidade (2-2)

Vasco Inglez e Cláudia Catalão integram uma equipa que funciona em Sintra, à semelhança do caso de Odivelas, e que actua junto dos centros de saúde, numa espécie de unidade de dia que presta apoio à população da zona.

 
Vasco Inglez (psicopedagogo clínico): É mais fácil para as pessoas daquela zona irem ao nosso Centro de Saúde Mental do que terem que se dirigir a Lisboa. Ainda mais porque estamos a falar de pessoas que têm grandes dificuldades e só o facto de se terem que se deslocar, pode ser o suficiente para não irem. E isso pode ser o suficiente também para uma recaída. O que depois pode levar ao internamento, que queremos evitar.
A psicopedagogia tenta explicar através do ensino o que é a doença mental e o que é que a  pessoa pode fazer para se sentir melhor.
 
Não há terapeutas ocupacionais em número suficiente?
Cláudia Catalão (terapeuta ocupacional): De facto. E a terapia ocupacional permite que estas pessoas - com dificuldades em fazer coisas todos os dias, desde lavar os dentes ou ir trabalhar -, aprendam a conseguir e a pôr em prática todos os dias estas actividades, com autonomia.


publicado por servicodesaude às 10:32
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Saúde Mental - Ficha Técnica

 

Autoria, Coordenação e Apresentação
Maria Elisa Domingues
 
Convidados
Caldas de Almeida
Álvaro Carvalho
Ricardo Gusmão
Margarida Apetato
João Amaro
 
Pesquisa
Teresa Mota
Alexandra Figueiredo
 Miguel Braga
 
Reportagem
Buenos Aires Filmes
 
Produção
Miguel Braga
 
Jornalistas
Miguel Braga
 
Gestão e Edição de Conteúdos
na Web (portal Sapo)
Natacha Gonzaga Borges
 
Imagem
Gonçalo Roquette
Daniel Ruela
Arquivo RTP
 
Edição e pós-produção vídeo
Sara Nolasco
 
Pós-produção aúdio
Miguel Van Der Kellen
 
Atendimento telefónico
Nuno Gaibino
Manuel Rocha
Mariana Sousa
Margarida Castanho
 
Câmaras
João Carlos Martins
Carlos Henriques JR.
Lima Matos
Ricardo Ramalho
Carlos Abreu
 
Mistura e Imagem
Fátima Duarte
 
Controlo de Imagem
Cecília Furtado
 
Som
Rafael Braz
Manuel Linã
 
Iluminação
Armindo Caneira
 
Electricista
João Martins
 
Técnicos de Electrónica
José Borges
Rui Loureiro
 
Assistentes de Operações
Orlando Aurélio
Carlos Pereira
António Almeida
 
Caracterização
Fátima Tristão da Silva
Ana Filipa
Rita Craveiro
 
Assistente de guarda-roupa
Paula Sousa
 
Registo Magnético
Vasco Rio Ferreira
 
Gerador de Caracteres
Sílvia Santos
 
Teleponto
Luís Pereira Torres
 
Genérico e Grafismo
Nicolau Tudela
Teresa Martins
 
Música Genérico
Ari de Carvalho
 
Assistente de Realização
Carlos Cid Carmo 
 
Anotadora
Dinah Costa
 
Chefe Técnico de Produção
Gaspar Fiúza
 
Criação Cenográfica
Gil Ferreira
 
Execução Cenográfica
Isabel Rodrigues
 
Produção
Filipa Azevedo
 
Realização
Paulo Resende
 
 
 


publicado por servicodesaude às 09:34
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Saúde Mental - Links

Bibliografia:

“The Noonday Demon” ou “Le Diable Intérieur – Anatomie de la Dépression”
(tradução francesa de Andrew Solomon) e
"Diário de Maria" (de Margarida Cordo)
 
Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental
Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares (ADEB)
Lisboa - 21 854 07 40/8 / Porto – 22 606 64 14 / Coimbra – 23 981 25 74
 
Associação de Saúde Mental do Algarve (ASMAL)
European Psichiatric Association (33 3 88 23 99 30)
Associação Olhar – Associação pela Prevenção e Apoio à Saúde Mental 
Sintra 21 797 18 05 / Porto – 93 681 54 50 / Barreiro – 21 797 18 05
 
Associação de Familiares e Amigos de Doentes Psicóticos – 93 712 33 64
Associação de Reabilitação Social e Institucionalização de Doentes Psiquiátricos
– 23 964 04 30
Associação Persona – Associação para a Promoção da Saúde Mental
 


publicado por servicodesaude às 08:36
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Saúde Mental - Questões colocadas telespectadores

Adélia Lourenço, de Aveiro:

“Fui internada por cefaleias e fui encaminhada para um neurologista, onde fui medicada com corticóides e, devido a essa medicação, acabei por fazer uma descompensação, tendo entrado em delírio e autoagressão.
Depois fui encaminhada para psiquiatria onde me fizeram o diagnóstico de doente bilopar.
Nós, doentes mentais, somos medicados sem diagnóstico exacto. Porquê?”
 
Dr.Álvaro de Carvalho (psiquiatra/coordenação de Saúde Mental):
Há aqui alguns equívocos. Os corticóides, numa percentagem imprecisa, podem desencadear alterações de humor, quadros de mania, ou seja, quadros bipolares, em algumas pessoas que têm uma predisposição para estas patologias, e que até aí podem não se ter manifestado.
Não é por ausência de diagnóstico, porque até aí não tinham existido sintomas. Pessoas com diagnóstico de perturbações bipolares, ou depressões, que têm que fazer corticóides por motivos de outra natureza, orgãnica ou outros,  não agravam a sua patologia de humor.
É um dado da evidência clínica. Quando outros médicos sentem alguma dificuldade, regra geral pedem ajuda aos psiquiatras.
 
Maria Duarte, de Braga:
“Sou mãe de um rapaz de 17 anos com problemas do foro psicológico, que ainda não foi diagnosticado. Fiquei chocada ao ouvir o Dr. Álvaro Carvalho dizer que existem muitos meios terapêuticos em Portugal. Pergunto o que é que entende por esses meios terapêuticos? Trata-se da existência de psiquiatras isolados ou de uma rede ao nível dos cuidados de Saúde Mental?
O meu filho tentou o suicídio e um diagnóstico feito já após essa tentativa de suicídio, por um novo psiquiatra, não relatava quaisquer sintomas. Um diagnóstico errado, porque a tentativa já tinha sido feita, embora só tivesse contado depois ao psiquiatra, porque queria ouvir uma nova opinião".
Temos muitos meios disponíveis para pessoas com doença mental, ou não?
 
Dr.Álvaro de Carvalho: Antes de pensarmos nos meios terapêuticos temos que pensar nos meios de diagnóstico. Há aqui algumas contradições aparentes. Da leitura que posso fazer, admito que o segundo colega que viu o filho desta senhora, já não terá encontrado a disposição suicída que terá existido antes.
Não sei em que contexto proferi o que a senhora disse. Quando me referia que existem várias formas de abordar os problemas psiquiátricos, referia-me à acção de vários profissionais, como psicólogos, psiquiatras e também pelo clínico geral, pelo qual passa a primeira abordagem.
Depois, as respostas podem ser orientadas por esse profissional ou por uma equipa de profissionais, que aí incluirá várias especialidades: psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais... e aí, essas equipas, regra geral, só se encontram nos serviços oficiais, mas nem todos ainda as possuem.
 
 


publicado por servicodesaude às 07:42
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