Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Hipertensão - Introdução (por Maria Elisa Domingues)

 

Hoje vamos falar de Hipertensão Arterial, um dos maiores problemas de saúde pública dos nossos dias, não apenas em Portugal, mas na generalidade dos países ocidentais.
 
Mas antes gostaria de informar os telespectadores que nos seguem, em particular os que virão a emissão anterior, sobre Cuidados Paliativos, que quase todos os dramas humanos que nos foram expostos pelo telefone estão resolvidos ou muito perto de uma solução, graças à intervenção da Dra. Inês Guerreiro, directora da Rede de Cuidados Continuados Integrados, e à dedicação e interesse da enfermeira Fátima Oliveira, da Casa de Saúde de Idanha, que foi nossa convidada na semana passada. Alertar e contribuir para um Serviço Nacional de Saúde cada vez mais perto dos mais carenciados é um dos nossos objectivos.
 
Cerca de 42% dos portugueses sofre de hipertensão: esta realidade ficou demonstrada no primeiro estudo nacional coordenado e apresentado em 2004 pelo Prof. Mário Espiga de Macedo, um dos meus convidados de hoje. Estudo de grande dimensão e rigor científico levado a cabo junto de mais de 5.000 portugueses entre os 18 e os 90 anos, em mais de 70 conselhos no nosso país. Ora, como é sabido, a hipertensão é um dos maiores factores de risco das doenças cardiovasculares e Portugal tem uma das taxas mais altas de AVCs do mundo.
 
Visitámos esta semana os Hospitais de Santo André, em Leiria e o Hospital do Litoral Alentejano, em Santiago do Cacém, onde fomos ouvir as histórias de vários doentes cujos problemas começaram exactamente com a tensão alta.
Reportagem


publicado por servicodesaude às 23:23
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Hipertensão - Reportagem

O senhor Gildo sentiu-se mal no passado dia 7. Diagnosticado com hipertensão desde os 15 anos, deu entrada no Hospital de Leiria, onde agora recupera forças:

Gildo Coelho Pedrosa (58 anos): “Deitei-me bem, estava tudo normal… Vi que eram três da manhã e já não deixava dormir ninguém com dores no peito”.
 
João Morais (director de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): “O senhor Gildo, de uma forma muito simples e sintética, diria que é um português típico. É um homem ainda novo, tem 58 anos, que muito cedo na vida começou a ter problemas cardiovasculares. Começou por ser um hipertenso e, ao longo da sua vida foram-se juntando outros problemas: juntou-se a diabetes, o colesterol elevado e ao fim de alguns anos teve o primeiro episódio de natureza vascular, que foi um pequeno AVC (acidente vascular cerebral). A doença foi avançando e agora tem uma nova admissão hospitalar; desta vez por um problema coronário”.
 
Apesar desta não ser a primeira vez que é aconselhado a fazer uma dieta, o senhor Gildo sabe das dificuldades em manter a linha. Mais que uma questão de vontade, o que lhe dificultam a vida são as condições económicas:
 
Gildo Coelho Pedrosa (58 anos): “Tentava fazer… mas quando uma pessoa vive num meio pobre é um problema; não dá para fazer grandes dietas”.
 
Num país envelhecido e pobre como Portugal, a hipertensão é um grave problema de saúde pública. Até porque esta é uma doença sem sintomas, sem dor e que não incomoda:
 
João Morais (director de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): “O senhor Gildo é uma lição porque esta história repete-se em muitos doentes. Começa com uma simples hipertensão a que não se atribui grande importância.
O senhor Gildo no princípio também não atribuía grande importância. Fazia a terapêutica mas depois começou a sentir-se tão bem que abandonou a terapêutica”.
 
Gildo Coelho Pedrosa (58 anos): “Com o tempo fui esquecendo…”.
 
João Morais (director de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): “É isto que acontece normalmente, mas a doença não perdoa. Ela está presente, vai-se mantendo e evoluindo. Às vezes começa por dar “um bocadinho de diabetes”, como os doentes dizem. E não há um bocadinho de diabetes: há diabetes; ou se é doente ou não. E depois tudo isto vai envelhecendo as artérias e os fenómenos vão-se repetindo”.
 
Durante alguns dias o senhor Gildo fará alguns exames como o electrocardiograma e levará consigo orientações que lhe permitirão controlar a hipertensão arterial. Até porque os vários factores de risco como a obesidade, o consumo exagerado de sal ou o sedentarismo, a este homem agora reformado, só lhe escapa apenas um:
 
João Morais (director de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): “O senhor Gildo só tem uma coisa boa: não fuma. É o que falta neste pacote”.
 
Gildo Coelho Pedrosa (58 anos): ”E não bebo…”.
 
João Morais (director de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): Porque é o que falta neste pacote, em que se insere também frequentemente este factor, que é um factor terrível; fortemente penalizador, demolidor das nossas artérias, que é o tabagismo”.
 
De acordo com o Estudo “Prevalência, Conhecimento, Tratamento e Controlo da Hipertensão Arterial em Portugal”, existem mais de 3 milhões de portugueses hipertensos, mas apenas 1 milhão e 600 mil sabem que são doentes. Números assustadores se tivermos em atenção que a hipertensão arterial é considerada um dos principais factores de risco das doenças cardiovasculares, que em Portugal o AVC tem a mortalidade mais elevada da Europa e que o enfarto do miocárdio é uma importante causa de morbilidade e mortalidade.
Para se ter uma ideia, pessoas com uma hipertensão persistente têm um risco de AVC quatro a seis vezes superior ao das pessoas com pressão arterial normal, além de acelerar o processo de arteriosclerose.
 
Ainda segundo o mesmo estudo a prevalência da hipertensão arterial em Portugal foi de 42%, sendo que o Norte tem o valor mais baixo e o Alentejo o valor mais elevado, com praticamente metade da população hipertensa:
 
 
 
Teresa Ganhão (dietista do Hospital do Litoral Alentejano): “Tem muito a ver com as nossas tradições alimentares. O nosso pão é muito salgado e aqui come-se muito pão. E também tem muito a ver com o consumo de gorduras e de carnes, nomeadamente as carnes de porco, os enchidos…”.
 
Isilda Viegas (especialista em Medicina Interna do Hospital do Litoral Alentejano): “Existe também na população a cultura dos petiscos. Aqui come-se muito as açordas, as migas, a carne de porco frita; tudo sempre muito bem temperadinho…”.
 
Nos primeiros anos a hipertensão arterial não se manifesta e não provoca quaisquer sintomas ou sinais de doença. Mas quando se manifesta, pode provocar AVC, enfartes e insuficiência cardíaca ou renal:
 
Omar Pereira (especialista em Medicina Interna do Hospital do Litoral Alentejano): “De facto os doentes têm a noção da hipertensão arterial mas a grande maioria, de alguma maneira, negligencia essa hipertensão, porque na grande maioria dos casos é uma doença que não sentem”.
Falam de hipertensão, como falam de dislipidémia - todos falam do facto de terem o açúcar um pouco alto -, mas falam do que não sentem. E, infelizmente, apercebemo-nos que os doentes começam a tomar mais conhecimento destas situações quando têm uma manifestação”.
 
Foi o que aconteceu a Maria Alice, vítima de um AVC há cerca de um ano:
 
Maria Alice Germano (60 anos): "Eu fiquei com desvio labial, à esquerda, fiquei sem equilíbrio – andava numa cadeira de rodas - e depois, com a fisioterapia e com os cuidados todos que tive, passei a andar com uma bengala…”.
 
O AVC deixou-a muito debilitada mas foi graças aos exercícios físicos de fisioterapia que recuperou mais de 80% da mobilidade. Apesar das limitações, Maria Alice continua a achar que o seu AVC nada teve a ver com a sua hipertensão:
 
Maria Alice Germano (60 anos): “Eu media a tensão arterial com alguma regularidade, mas nunca achei que fosse necessário tratar a hipertensão, porque achava que não tinha.”
 
Isilda Viegas (especialista em Medicina Interna do Hospital do Litoral Alentejano): É também um conceito que existe. A maior parte dos doentes e a população em geral não valoriza a hipertensão.
Provavelmente, a senhora teria uma hipertensão ligeira, que não era do seu conhecimento e do seu médico, ou então não ia ao médico há algum tempo e não estava medicada. Portanto, no momento em que teve o seu AVC, a hipertensão “disparou”.
 
Apesar da hipertensão ser, na maioria dos casos, uma doença controlável, não tem cura. Ou seja, com a alteração de hábitos alimentares, com exercício físico e, sempre que necessário, com medicação, um doente poderá ter a sua tensão arterial controlada:
 
Omar Pereira (especialista em Medicina Interna do Hospital do Litoral Alentejano): É descoberta uma hipertensão, é iniciada uma terapêutica, normalizam-se os valores e as pessoas têm automaticamente a ideia de que “passou”. Da mesma maneira que quando têm uma gripe ou uma infecção, em que fazem um período de antibiótico.
E depois as pessoas admiram-se quando, após a interrupção da terapêutica, voltam novamente aos valores anteriores. Esta é, consequentemente, outra das perguntas: “mas eu não estava curado?”.
 
Globalmente, 7 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a pressão arterial alta. Em Portugal, e apesar de esta ser uma doença conhecida por quase toda a população, continuamos a menosprezar a evolução da doença que lentamente acaba por lesar os vasos sanguíneos e os principais órgãos vitais do organismo, como o cérebro, os rins e o coração:
 
João Morais (director de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): “Partimos de uma história que é dominada pela hipertensão arterial mas hoje estamos a incorporar mais problemas. Temos mais obesos, à medida que temos mais obesos, temos mais diabéticos e à medida que temos mais diabéticos temos mais enfarto do miocárdio, mais acidente vascular cerebral (AVC), mais tromboses periféricas, etc.”.
 
Se juntarmos a este facto, a fraca alimentação, o stress do dia-a-dia e a oferta cada vez mais variada de fast foods fritos ou refrigerantes, estão criadas as condições ideais para o desenvolvimento da hipertensão. Por isso, e mais do que nunca, a forma para resolver este problema, é atacá-lo ainda em idade jovem:
 
João Morais (director de Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): “A única coisa que tenho a oferecer à criança que hoje nasce é prevenção, prevenção, prevenção, prevenção, prevenção… E é por isso que a escola e a família têm um lugar fundamental nisto, muito antes de qualquer Serviço Nacional de Saúde ou qualquer sistema de saúde”.
 
Mas não só. A intervenção contra a hipertensão passa também pela vontade do executivo em mudar, de facto, hábitos ancestrais. Prova disso é a lei que estabelece os limites máximos da quantidade de sal no pão e que define as orientações para a rotulagem de alimentos pré-embalados com sal, que foi aprovada na anterior legislatura.
Porém, como ainda não está regulamentada e é necessário formar os agentes económicos, esta lei vigorará, na melhor das hipóteses, a partir de Agosto de 2010.
Para a elaboração da lei foram ouvidas a Fundação Portuguesa de Cardiologia, a Ordem dos Médicos e alguns agentes económicos interessados. Mas as farmácias que, no caso da hioertensão, são um primeiro abrigo dos utentes, ficaram de fora.
 
Cristina nunca pensou que aos 40 anos pudesse sofrer de hipertensão. Quinzenalmente vai à farmácia medir a tensão arterial e garante estar a mudar, sobretudo os seus hábitos alimentares. Mas é graças à medicação que os seus valores se mantêm controlados:
 
Cristina Duarte (40 anos): “Chegaram a ser diariamente de 16-10, 16-11, 16-12. E chegou aos 18-12. Agora são de 11-7”.
 
As farmácias, dada a sua proximidade com o doente, poderiam ser parte integrante da solução. Os farmacêuticos são muitas vezes os primeiros a fazer o diagnóstico da hipertensão e também a aconselhar a ir ao médico:
 
Cristina Carneiro Veríssimo (farmacêutica): Acho que as farmácias estão subaproveitadas. Neste caso, quer por parte do estado, quer por parte de sociedades científicas de cardiologia e de hipertensão, porque poderíamos ser uns parceiros fundamentais, por exemplo, até na própria detecção da doença na população. Porquê? Porque as farmácias estão no país inteiro; têm uma área de cobertura territorial imensa e estamos abertas ao público. Consequentemente, poderíamos fazer rastreios a nível nacional, em que houvesse uma indicação: “dirija-se à sua farmácia” ou “meça a sua tensão arterial”. Ou seja, poderíamos sensibilizar as pessoas para este facto.
Aí, todos em conjunto, conseguiríamos detectar a doença em grande parte da população que, até hoje, não faz ideia que a tem”.


publicado por servicodesaude às 22:25
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Hipertensão - Apresentação dos Convidados

Dr. Eduardo Mendes – Médico de família, actualmente director do Agrupamento de Centros de Saúde do Oeste Sul (que engloba os concelhos de Torres Vedras, Lourinhã, Cadaval, Sobral de Monte Agraço, Alenquer e Arruda dos Vinhos).

 
Dr. Mário Espiga de Macedo – Coordenador do único estudo nacional sobre a hipertensão, que forneceu os dados apontados na reportagem. É especialista em Medicina Interna e em Cardiologia, professor de Medicina Interna na Faculdade de Medicina do Porto e investigador do IPATIMUP no Porto, onde coordena um outro projecto de investigação, que estará concluído talvez daqui a dois anos, sobre a genética da hipertensão. Além do que foi referido, é também consultor da Direcção-Geral de Saúde.
 
Dra. Elsa Feliciano – Nutricionista, trabalha na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, onde visita frequentemente lares de idosos e escolas. É colaboradora na Fundação Portuguesa de Cardiologia e vice-presidente da Associação Portuguesa de Nutricionistas.
 
Dr. João Morais – Cardiologista e director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André, em Leiria.


publicado por servicodesaude às 21:28
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Hipertensão - Doença Assassina e Silenciosa

Há quem diga que a hipertensão é uma assassina silenciosa, porque quando o médico descobre que ela existe já é tarde, como aconteceu ao senhor Gildo...

João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): Nós vivemos com vários assassinos silenciosos; não é só a hipertensão arterial.
Quando identificamos a hipertensão arterial não é tarde na grande maioria das pessoas, porque nunca é tarde para ter mais saúde.
A identificação da hipertensão arterial pode ser muito importante ao longo da vida, para iniciar atempadamente um programa de prevenção da doença cardiovascular. E essa faz-se até aos 80 anos.
 
O que é muito importante no estudo coordenado pelo Dr. Mário Espiga de Macedo é, não só o número de pessoas hipertensos, que anda a par do que acontece na maior parte dos países ocidentais, mas a quantidade de pessoas que, sendo hipertensas, desconheciam-no. Esses, pelo menos, quando chegam às mãos do médico, já lá deviam ter chegado.
 
Mário Espiga de Macedo (Coordenador Nacional das Doenças Cardiovasculares): É verdade. Na análise que foi feita, mais de 50% da população estudada, que era hipertensa, desconhecia a sua situação.
E temos a particularidade de que para os muito jovens, com menos de 40 anos, era um mundo muito escuro relativamente ao conhecimento da hipertensão e dos efeitos da sua doença.
 
Este estudo foi dividido em três escalões etários: até aos 34, dos 35 aos 64 e a partir dos 65. Mas mesmo até aos 34 já há muita gente hipertensa.
Mário Espiga de Macedo (Coordenador Nacional das Doenças Cardiovasculares): Já é uma quantidade apreciável. Mas mais importante é a percentagem de pessoas que desconhece e não trata, o que vai fazendo com que a doença vá progredindo. E às vezes a primeira manifestação é uma situação catastrófica ou, pelo menos, de grande gravidade. Às vezes podemos ajudar mas outras não podemos ajudar tanto como o poderíamos ter feito.
A prevenção é fundamental e quando nós temos 50% de desconhecimento de hipertensão, temos que ter campanhas que cheguem às pessoas para que se faça o diagnóstico.
 
Se metade das pessoas desconhecia que tinham hipertensão, isso quer dizer que, de facto, a prevenção falhou?
Mário Espiga de Macedo (Coordenador Nacional das Doenças Cardiovasculares): Falhou e falhou aquilo que hoje está no Plano Nacional de Saúde, mas que ainda não está a ser cumprido, que é o exame anual de saúde.


publicado por servicodesaude às 20:30
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Hipertensão - Diagnóstico e Terapêutica

É claro que um médico de família tem um papel essencial. Antes de chegarem aos especialistas, é com o médico de família que os portugueses (que a ele têm acesso) primeiro contactam.

Como é que o médico de família aconselha os doentes, nomeadamente a ter hábitos de  vida saudáveis? E, para já, quantos são os médicos de família que ainda medem a tensão arterial aos doentes?
Eduardo Mendes (médico de família): A maioria dos médicos de família, não tenho dúvidas; para não dizer todos.
 
Se calhar não está bem informado…
Eduardo Mendes (médico de família): Não.Se não mede ele mesmo, tem a sua equipa de trabalho, por exemplo os enfermeiros, que medem a tensão e têm um papel extremamente importante nesta área.
Os médicos de família são especialistas na sua área e são os que estão mais bem colocados para prevenir, diagnosticar e para fazer a primeira intervenção terapêutica na área da hipertensão.
 
Em princípio começa por fazer uma intervenção farmacológica. A pessoa que está com a tensão alta, tem que a baixar?
Eduardo Mendes (médico de família): Sim, pode ser uma intervenção farmacológica mas também deve ser acompanhada através de outras medidas. E esse é que é o grande proiblema.
Baixar a tensão por via farmacológica pode ter alguns resultados a curto prazo mas, como vimos na reportagem, o Gildo abandonou a terapêutica e não fez o que era preciso, que era ter alguns cuidados alimentares… Como se vê, só a terapêutica não chega.
 
O problema são todos os outros factores de risco. E a perspectiva temporal. Tem que ser algo adoptado ao longo da vida. No caso do Gildo, imagine o que é tratar alguém a quem foi diagnosticada hipertensão aos 15 anos, até aos 56 ou 57. Foram 40 anos de tratamento e seguramente não foram só os fármacos.
Esta é a grande problemática de abordagem às doenças crónicas silenciosas. Quando dói é fácil; quando não dói… as pessoas tomam os medicamentos e não percebem muito bem.
 
E a certa altura pensam que já estão boas.
Eduardo Mendes (médico de família): Ao contrário da impressão que se tem, esta é uma intervenção multiprofissional, de equipa. Começa seguramente pelo médico mas passa muito pela enfermagem, pelo nutricionismo….
 
O senhor sabe que muitos Centros de Saúde não funcionam assim….
Eduardo Mendes (médico de família): A maioria não tem nutricionistas. Não tenho dúvida nenhuma. Mas é isso que é preciso. Não se pode abordar estas doenças crónicas numa perspectiva exclusivamente médica ou medicamentosa porque, se assim for, estamos condenados ao fracasso. Vamos continuar a ter índices muito altos de AVC (acidente vascular cerebral) e de doenças cardiovasculares.
É preciso abordar a terapêutica, não só da hipertensão, mas também da diabetes, da osteoporose – as doenças crónicas – numa perspectiva multiprofissional e multidisciplinar.


publicado por servicodesaude às 18:31
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Hipertensão - Comer Bem e Barato – a Sopa

O Gildo disse algo na reportagem que é comum a muitas pessoas: “quando se é pobre, é difícil ter uma alimentação saudável”.

Toda a gente sabe e os médicos dizem frequentemente: “é preciso comer fruta, peixe, vegetais frescos…”. E o preço desses alimentos? As pessoas podem, na prática, fazer uma alimentação saudável?
 
Elsa Feliciano (nutricionista): É óbvio que não havendo dinheiro há muita dificuldade em comprar alimentos. E muitos dos alimentos que referiu são caros.
 
Por outro lado, muitas as vezes as pessoas também têm um percepção errada daquilo que é uma alimentação saudável. As pessoas valorizam determinados alimentos – como a carne, por exemplo – e outros que, por serem caros, as leva a pensar que devem fazer parte de uma alimentação saudável; o que não é verdade.
No global, muitos alimentos ainda podem se adquiridos a preços relativamente económicos. É o caso das leguminosas, dos cereais - como o arroz - e até do próprio pão. As leguminosas são as lentilhas, o feijão, o grão, as favas ou as ervilhas, que tiram a fome e são alimentos extremamente saciantes, que tiram a fome.
A utilização das frutas e legumes da época também é recomendada. Especialmente se forem incluídos numa sopa.
 
Antigamente os portugueses comiam todos sopa e a todas as refeições, não era? E embora a sopa possa ser feita de uma forma barata e dê para bastante tempo (não convém estar atulhada de batata e deve ter uma variedade de legumes como cebolas, cenouras, nabos e até talos de couve triturados); agora as pessoas comem menos sopa?
Elsa Feliciano (nutricionista): Sim,agora as pessoas comem menos sopa. E ainda há muita gente que associa a sopa a pobreza. E assim, se puder ir um pouco mais a “cima” e não comer sopa…
 
Também tem essa percepção, de que as pessoas, os doentes, associam a sopa à pobreza?
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): Depende muito dos meios onde se vive e onde se trabalha. Eu trabalho num meio que ainda é muito rural e apesar de tudo ainda é diferente. O consumo de sopa ainda é relativamente elevado num meio como o de Leiria e a sua zona envolvente.
Mas é evidente que populações mais citadinas tendem a desclassificar o consumo da sopa. É indiscutível. Primeiro, porque a sopa tem que se fazer.
 
Mas é rápido fazer uma sopa… E mesmo para quem não tem jeito para cozinhar, fazer uma sopa é fácil…
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): É muito mais fácil pôr qualquer coisa no microondas a descongelar ou a fritar.
 
Mas também é muito mais caro comprar alimentos confeccionados.
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): Esse é o aspecto paradoxal da nossa conversa. De facto, temos diversos problemas de natureza económica, não só para comprar medicamentos mas também para comer. No entanto, muitas vezes subvalorizamos aquilo que é mais barato em detrimento do que é mais caro, só porque parece que é mais fácil, ou até “mais moderno”; quando temos alimentos tão simples em que, como a Dra. Elsa referiu, até os talos são bons e saborosos para por na sopa.
28.46.000
Elsa Feliciano (nutricionista): Por vezes há também uma má gestão do dinheiro. Famílias com poucos recursos – e já fiz acompanhamento de mulheres desempregadas de longa duração – curiosamente, referem que depois de receberem, e enquanto tiverem dinheiro, vão muito ao café: tomam o pequeno-almoço, vão comer uns “salgadinhos”, beber um refrigerante...
 
Vimos na reportagem que consumir salgadinhos ao almoço, ao balcão de um café e depois pensar-se que se ficou sem fome e bem alimentado é frequente...
Elsa Feliciano (nutricionista): As pessoas até pensam que estão a fazer dieta, ao comerem uma sopa e dois salgadinhos.
 
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): É, porque as pessoas associam o fazerem dieta ao comerem pouco. E como dois rissóis é pouco, do ponto de vista da quantidade alimentar, as pessoas entendem isso como se estivessem a fazer dieta, ignorando tudo o que está errado naquele salgados. Isto é muito comum.
 
Mário Espiga de Macedo (Coordenador Nacional das Doenças Cardiovasculares): Eu digo muitas vezes aos doentes que é preferível comerem um pão com um fiambre magro do que comerem um salgadinho. Tem muito menos calorias do que comer os tais salgadinhos, menos gordura e menos sal.
 


publicado por servicodesaude às 17:34
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Hipertensão - Comer Bem – Menos Sal e Fritos

Vimos na reportagem os restaurantes com letreiros a dizer: “temos enchidos” e outros; um apelo normal até porque estamos em crise...

Eduardo Mendes (médico de família): Temos que abordar aqui outra questão fundamental, que é a da educação, da literacia. Isso começa de pequeno; começa na escola.
E também não podemos diabolizar as coisas. O cozido à portuguesa é um bom alimento, desde que não se abuse dos enchidos e das carnes gordas. É tudo cozido, para começar, e há vários legumes: a cenoura, a couve, o arroz, o feijão e até o grão, em alguns sítios do país. Agora não podemos comer cozido à portuguesa todos os dias ou só comer orelha de porco e enchidos e pôr os legumes de parte.
O rissol, o croquete e o pastel de bacalhau têm um problema, que é a sua quantidade de óleo, porque são fritos. E o problema não é comer um de vez em quando; o problema é comer um todos os dias, sistematicamente.
Hoje entramos nas pastelarias e vemos muita gente com um prato de sopa. E não tenho dúvidas que tem vindo a ganhar algum espaço na alimentação dos portugueses, nomeadamente ao almoço.
 
Agora resta saber como é que a sopas desses sítios são feitas, o que é que levam…
Eduardo Mendes (médico de família): Sim, é preciso discutir isso mas é também preciso ver que a seguir à sopa, ou vem o rissol ou vem um bolo. E isso todos os dias, sistematicamente, o que não é saudável. E isto repete-se na escola. Os miúdos têm acesso a comida fácil, do ponto de vista nutricional e alimentar muito pobre, rica em gordura e açucares, e habituam-se desde pequenos a comer isso.
A lei que vai impor a redução do sal, é uma luta do Dr. Luís Martins e do Professor Pádua de anos. Estou ansioso para saber qual o resultado dessa alteração daqui a cinco ou seis anos; provavelmente vamos ter alguns resultados visíveis e mensuráveis.
 
A lei ainda não está regulamentada e só estará, na melhor das hipóteses, a partir de Agosto de 2010.


publicado por servicodesaude às 16:36
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Hipertensão - Hipertensão – Consequências Cardíacas, Cerebrais, Renais e Periféricas (Tel.)

Carlos Reis, 66 anos, reformado, de Aveiro: Sou hipertenso, fui operado e fiz quatro bypass. Passados uns anos retiraram-me um rim, a tensão arterial baixou um pouco,  e continuo a tomar medicamentos.

O meu problema são as pernas, que me doem muito.  Ao fim de 10 minutos a andar tenho que parar porque sinto grandes dores.
Fiz um doppler há um ano e meio e o doutor mandou-me andar cerca de 30 minutos por dia. Mas as dores continuam e agora ao fim de cinco, seis, minutos já me doem as pernas.
Gostaria de saber se há alguma hipótese de eu poder melhorar. Sinto-me desmotivado e deprimido.
 
Em termos de dieta alimentar, de fumar e beber, o senhor tem cuidado?
Carlos Reis (66 anos): Sim, deixei de fumar dois anos antes de ser operado. Em relação à dieta, tenho uma atitude bastante rigorosa. A minha comida tem pouco sal, como muitos vegetais, peixe grelhado ou cozido e muito pouca carne, até porque me foi tirado um rim e não posso abusar…
 
 
 
O senhor Gildo, na nossa reportagem, queixava-se da mesma coisa; que se cansava imenso a andar.
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): É, mas o senhor Carlos Reis tem provavelmente um problema particular dentro deste domínio da doença arteriosclerótica.
A arterioesclerose atinge qualquer parte, qualquer artéria do nosso corpo. O que é mais comum e mais conhecido são as artérias coronárias. Mas outros territórios podem ser também muito afectados: o território cerebral – dos acidentes vasculares cerebrais (AVC) -, o território renal e, ainda, o território arterial periférico; dos membros. Provavelmente é o que este senhor tem.
A doença que teve nas coronárias, e que lhe entupiu as artérias, é provavelmente a doença que lhe veio causar os problemas nas pernas.
 
Há possibilidade de resolver esse problema?
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): Talvez sim ou talvez não. O problema é que normalmente quando a doença afecta as pernas, numa fase avançada, é uma doença muito difusa e que não tem a mesma possibilidade que ele teve nas coronárias, de fazer enxertos e bypass. E pode não ter condições de o fazer nas pernas porque as artérias já estão muito difusamente doentes. Não sei se é o caso deste senhor.
No entanto, este senhor é exemplo de alguém que já foi afectado em pelo menos três territórios vasculares: as coronárias, a parte renal e, provavelmente, as artérias dos membros inferiores.
As dores que ele sente são causadas pela má ou deficiente irrigação de sangue arterial das pernas. É uma situação complexa, não quer dizer que não possa ter soluções. Há doentes que também fazem operações às pernas e que fazem dilatações das artérias das pernas. Tudo isso hoje já é possível, mas quando atinge desta forma e com esta expressão, muitas vezes não é fácil.
Agora, a última coisa que este senhor pode perder é a motivação. Provavelmente o melhor tratamento que pode fazer é o exercício físico, principalmente quando as pernas já foram afectadas.
 
Eduardo Mendes (médico de família): Estou de acordo, está ali envolvido o território arterial periférico, exactamente como foram envolvidos o território cardíaco e renal. A solução é cirúrgica. Tal como lhe foram feitos bypass cardíacos é possível fazer bypass nos membros inferiores, embora possa ser complicado ou até não ser possível essa solução. Existem também drogas que ajudam nesta situação.
A minha grande questão é como é que isto não foi explicado a este doente. Isto tem que ser explicado.
 
Neste caso, por exemplo, o exercício dentro de água não é menos penoso?
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): Normalmente tem algumas vantagens, mas neste caso pode não ser, até pela temperatura da água. O calor pode ser um factor de agravamento dos sintomas e pode não estar recomendado fazer exercícios dentro de água a temperaturas elevadas.

 



publicado por servicodesaude às 15:39
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Hipertensão - Oscilações da Tensão na Adolescência (Tel.)

Laurinda Jordão, 44 anos esteticista, do Porto:

Tenho um filho menor de 15 anos, que tem vindo a ter alterações na sua tensão arterial. Sempre foi saudável, faz imenso desporto, alimenta-se bem e, no entanto, a tensão dele regista valores na ordem dos 10.5-6.9.
Entretanto, comprei um aparelho de medição da tensão arterial e tenho vindo a fazer um controlo diário, à mesma hora. Há dias em que regista tensões 11.8-6.8, outros dias em que regista 10.4-6.2. Como disse, ele é uma pessoa saudável e não há nada que indique estas oscilações, a não ser o facto dos meus pais terem sido ambos hipertensos.
 
Eduardo Mendes (médico de família): Gostava de perguntar a esta senhora se o seu filho se queixa de alguma coisa. Se não se queixa de nada e a tensão está baixa, nestas idades, na adolescência, com as alterações hormonais; então está tudo bem.
Agora se esta criança desmaia ou tem outro tipo de sintomas, então é preciso investigar.
Estes aparelhos de tensão, a maior parte deles, não estão certificados. E como são aparelhos digitais, às vezes pequenas arritmias funcionais podem interferir no próprio funcionamento do aparelho. Por isso, tenho muita dificuldade em aceitar valores de aparelhos em que não conheço a origem, porque os aparelhos certificados são caros.
 
É uma espécie de aparelho de DVD de contrafacção…?
Mário Espiga de Macedo (Coordenador Nacional das Doenças Cardiovasculares): O mais importante, é preciso dizer, é que todos estes valores são normais, mesmo os tais 10.5-6.4, num miúdo de 15 anos. É normal, nem sequer é baixo, é normal!


publicado por servicodesaude às 14:41
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Hipertensão - Idosos – Maior Probabilidade e Riscos

No seu estudo, o único em Portugal sobre doenças cardiovasculares, refere naturalmente que a partir dos 65 anos são muito mais numerosos os casos de hipertensão arterial.

As pessoas idosas têm uma predisposição para virem a ter hipertensão arterial, independentemente quase do seu estilo de vida?
Mário Espiga de Macedo (Coordenador Nacional das Doenças Cardiovasculares): Isso mesmo. É quase uma evolução natural, que decorre do passar dos anos. Com a idade existe uma maior probabilidade de ter uma tensão arterial mais elevada e portanto tem que se contar com isso. Cerca de 65% a 70% da população com mais de 65 anos tem probabilidade de ser hipertenso.
 
Convém por isso que se controle a sua tensão com muito mais cuidado. Até porque a hipertensão arterial nos idosos aumenta também o risco de deterioração cognitiva assim como de várias demências. Todo o risco de doença arterial cardíaca, renal e periférica se mantém na pessoa idosa.
É um conceito antigo mas um valor de tensão arterial mais alto nos idosos não é correcto. Um idoso deve ter uma tensão arterial como uma pessoa normal de 30 ou 40 anos. Deve-se ir ao médico de família, seguir os seus conselhos e tomar os medicamentos necessários.
 
E não deixar de os tomar se, por acaso e ocasionalmente, numa semana ou noutra a tensão arterial tiver baixado um bocadinho.
Mário Espiga de Macedo (Coordenador Nacional das Doenças Cardiovasculares): É um problema em todas as idades mas mais grave nos idosos porque, ao parar a medicação, pode haver uma subida brusca, logo a seguir à paragem dos medicamentos, e isso pode originar muitos problemas de saúde.


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Hipertensão – Alimentação nos Idosos

 

Visita muitos lares. Para muitos idosos e para muitos dos que estão institucionalizados, comer é quase o único prazer que resta, não é?
Elsa Feliciano (nutricionista): Sim, comer é quase o único prazer que resta. Vivem o seu dia quase a pensar na refeição que vão fazer a seguir
 
Até porque têm poucas actividades lúdicas organizadas, ou outras, que lhes preencham o tempo…
Elsa Feliciano (nutricionista): Alguns estão muito tristes, sozinhos e isolados. E nos idosos há uma grande apetência pelo sal, não só porque foi um hábito que adquiriram de pequenos – há 50, 60 ou 70 anos atrás o sal tinha um papel muito importante na conservação dos alimentos -, mas também por causa da questão da diminuição do gosto. Ou seja, como há uma diminuição do gosto, há uma tendência para pedir o saleiro e por mais sal.
 
Além disso os idosos não gostam dos chamados “alimentos modernos”; por exemplo um iogurte magro…
Elsa Feliciano (nutricionista): Nem magro, nem nenhum. É claro que há excepções, mas não é, na generalidade, um alimento que comam com gosto.
 
Portanto,  gostam do seu pão com manteiga…
Elsa Feliciano (nutricionista): E gostam do leite e do café. E não gostam de sopas passadas; gostam de sopas que tenham feijão, grão, massas…
 
Mas isso é saudável….
Elsa Feliciano (nutricionista): É. Mas do ponto de vista energético, uma sopa muito forte seguida de uma refeição igualmente forte, para quem vai estar o resto da tarde à espera de lanchar, acaba por ter um conteúdo energético um pouco exagerado. Há que ver a composição da sopa e depois escolher um segundo prato mais ligeiro.
Depois há os pratos que eles não apreciam nada, como as carnes picadas, os empadões, os hambúrgueres, os esparguetes à Bolonhesa, o salmão, porque é cor-de-rosa, é esquisito… Ou seja, há questões culturais e relacionadas com hábitos alimentares.
Agora, há instituições que são extremamente cuidadosas, até com a elaboração das ementas, em que eles sentem gosto em comer e depois há outras instituições que são terríveis.
 
A Proteste (DECO) fez um estudo sobre o conteúdo de sal das refeições servidas em cerca de 30 lares em Portugal Continental. Havia casos em que apenas uma refeição tinha à volta de 14gr de sal. Só a sopa chegava a ter 7, 8, 9 gr de sal, quando o máximo aconselhado, por dia, são 5gr. Fiquei muito impressionada quando vi o resultado daquele estudo.
 
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): Os idosos têm vários problemas alimentares. As pessoas que têm hoje 70 a 80 anos, passaram fome, a grande maioria, tirando alguns com situações económicas particulares.
Aquilo a que hoje chamamos de fome, e que provavelmente ninguém sabe o que é, eles passaram-no. E portanto hoje, que têm o que comer, é-lhes muito difícil aceitar a ideia de que têm que comer menos. Isto é terrível.
 
Não é por acaso que no Alentejo, que era uma das regiões onde as pessoas passavam pior há 40 e há 50 anos, é hoje onde se regista a mais alta taxa de hipertensão arterial do país. De facto tem toda a razão: essas pessoas passavam fome.
 
João Morais (director do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santo André): E por isso as pessoas hoje comem assim. Antes faziam o aproveitamento total da comida. A minha avó comia o que sobrava na mesa, porque a comida não se deitava para o lixo. Hoje isto está desarreigado dos hábitos das pessoas e portanto não é fácil lidar com um idoso e explicar que tem que comer de forma diferente. Principalmente quando se diz que tem que comer menos. Isto é uma coisa que lhes faz imensa confusão.
 
Eduardo Mendes (médico de família): Mas há um outro lado do problema, que é um bocadinho o oposto deste que estamos a falar: a grande maioria dos idosos não estão institucionalizados; vivem em casa sozinhos. E ao viverem sozinhos, ou passam fome porque não têm dinheiro para comer, ou não fazem comida. E muitos idosos sobrevivem porque há organizações que lhes levam comida a casa; e comida a sério.
 
Na grande parte dos idosos o pequeno-almoço baseia-se no pão com manteiga, café ou cevada com leite, às vezes umas papas e, eventualmente, alguma fruta ou algum queijo ao almoço. Se há uma sopa, come-se, e normalmente o jantar é uma sandes e mais uma papa.
 
A maior parte dos idosos não estão institucionalizados, vivem sozinhos, com reformas miseráveis. E a maior parte do seu pequeno rendimento vai para os medicamentos. E às vezes, para comerem um pouco melhor, têm que tirar nos medicamentos.
Não nos podemos esquecer disto. Este é um problema com que um médico de família se debate no dia-a-dia.
 
Já vi muitos farmacêuticos a perguntar aos idosos: “qual é o medicamento que o senhor/a acha que lhe faz mais falta?”
Eduardo Mendes (médico de família): Exactamente. E é por isso que a política dos genéricos tem vindo a aumentar. Acho que se deve prescrever cada vez mais genéricos e que os médicos de família estão a fazer esse esforço. E devem continuar porque é muito importante para as pessoas mais pobres e com reformas mais pequenas.
Os genéricos são tão bons como os medicamentos de marca; temos que confiar nas instituições. E não podemos esquecer este problema da má alimentação dos idosos, quer os institucionalizados (por excesso de sal ou de comida), quer por falta de dinheiro ou de condições.
 
Ou até por falta de quem lhes leve a comida, no caso daqueles que não têm a sorte de ter essas visitas domiciliárias…
Elsa Feliciano (nutricionista): Essas instituições que fazem o apoio domiciliário fazem um trabalho louvável.
 
Absolutamente. Infelizmente ainda não chegam a todo o lado; ainda não existem em número suficiente. O voluntariado em Portugal também ainda não tem a expressão que tem em outros países.
Felizmente isso acontece em algumas áreas, como os Cuidados Paliativos, mas levar a comida aos idosos, visitá-los, limpar-lhes a casa e ajudá-los na sua própria higiene ou, pura e simplesmente, fazer-lhes companhia, ainda é insuficiente.


publicado por servicodesaude às 12:45
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Hipertensão - Links Úteis

LINKS

 
“Estudo da prevalência, tratamento e controlo da hipertensão em Portugal”, da autoria do Prof. Doutor Mário Espiga de Macedo, 2005.(Publicados no 19º Boletim EUROTRIALS, SAÚDE EM MAPAS E NÚMEROS).
http://www.eurotrials.com/contents/files/Boletim_19.pdf):
 
Riscos Hipertensão (folheto informativo do Hospital Egas Moniz):
http://www.hegasmoniz.min-saude.pt/NR/rdonlyres/0B23BF8D-F80F-4B46-8580-3C77C21C8A56/2587/Hipertens%C3%A3oarterial.pdf
 
Fundação Portuguesa de Cardiologia
http://www.fpcardiologia.pt/default.aspx
 
Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral
http://www.spavc.org/engine.php?cat=1
 
VIVER APÓS UM ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL – Auto-cuidados na Saúde e na Doença
Guia para as Pessoas Idosas (DGS)
http://www.portaldasaude.pt/NR/rdonlyres/65FA49E9-DC02-48B0-ACE6-F9CF8E147110/0/i005652.pdf
 
Tudo o que deve saber sobre Arritmias
http://www.fpcardiologia.pt/docs/CRC%20n%c2%ba%2011%20Arritmias_Final.pdf
 
 
Ordem dos Médicos - https://www.ordemdosmedicos.pt/
 

Lei nº 75/2009, D.R. nº155, Série I de 12.08.2009

Estabelece os limites máximos da quantidade de sal no pão e define as orientações para a rotulagem de alimentos pré-embalados com sal

http://www.min-saude.pt/NR/rdonlyres/B8029F0A-B899-445B-BDD7-6190B0333C18/0/lei75_2009reducaosal.pdf
 
Medscape
http://www.medcenter.com/Medscape/content.aspx?LangType=1046&banner=rc_hypertension&menu_id=49&id=16500
 

 



publicado por servicodesaude às 04:21
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