Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
Infertilidade - "Consultório" Serviço de Saúde - Respostas às questões colocadas on line e por telefone

Transmitido pela RTP1, no dia 22 de Setembro de 2009

 
Respostas às questões dos telespectadores
 
Introdução (por António Manuel Setúbal, médico especialista em Infertilidade)
Na globalidade, as questões colocadas pelos telespectadores confundem o tratamento da infertilidade com a procriação medicamente assistida (PMA).
Relativamente à infertilidade, praticamente 40% dos casos têm uma resolução total ou parcial através de cirurgia específica.
 
Na globalidade dos casais, a infertilidade, sobretudo na sociedade cosmopolita ocidental, tem um carácter feminino/masculino/misto. Embora a infertilidade feminina seja a mais frequente, o factor masculino ou o factor misto, i.e. homem e mulher, representam aproximadamente 40% da totalidade de casos de infertilidade do casal.
 
A infertilidade masculina está relacionada com a quantidade e com a qualidade dos espermatozóides. As suas causas são pouco conhecidas; no entanto, julga-se que factores ambientais e o stress sejam os mais importantes.
 
No que respeita a infertilidade feminina propriamente dita, a causa principal do seu aumento nos últimos anos é uma doença designada endometriose. No entanto, esta doença tem um padrão e uma evolução extraordinariamente lentos, sendo necessários vários anos até causar infertilidade.
 
Na realidade, esta doença que afecta mulheres muito jovens começa (sobretudo em casos de infertilidade profunda) por se revelar com um aumento progressivo de sintomatologia clássica: dismenorreia (dores menstruais), dispareunia (dor na relação sexual), disquésia (cólicas abdominais/intestinais na altura da menstruação), alterações do comportamento intestinal (mais frequentemente diarreia ou aumento das dejecções na altura da menstruação, ou obstipação na altura da menstruação).
Outros sintomas mais graves poderão associar-se ao longo dos anos, de forma progressiva e lenta. Inevitavelmente, se prolongada durante muitos anos, a endometriose conduz a infertilidade feminina.
 
Outros factores de infertilidade feminina são hoje menos frequentes e relativamente fáceis de despistar através do exame clínico e de exames complementares de diagnóstico. Incluem-se, por exemplo, a clássica obstrução tubária secundária a infecções abdominais (por exemplo, peritonite pós apendicite, ainda que na juventude), casos de malformação uterina, ou doenças endócrinas menos frequentes como, por exemplo, a síndrome de ovários poliquísticos ou outras síndromes de anovulação.
 
O tratamento da infertilidade faz parte, naturalmente, do âmbito de actividade dos médicos Ginecologistas do Hospital da Luz e de outras unidades do grupo Espírito Santo Saúde. No entanto, relativamente à procriação medicamente assistida, optou-se por não disponibilizar esse serviço já que existem no país cerca de 10 laboratórios em Lisboa, 5 no Porto e 3 em Coimbra, incluindo públicos, privados e privados com apoio público.
 
Questões colocadas pelos telespectadores 
“Consultório” online:
 
Rita Isabel: Porque é que os casais que já conseguiram uma gravidez, quando vão procurar ajuda no Hospital, por exemplo à MAC (Maternidade Alfredo da Costa) não têm direito a fazer os mesmos tratamentos que um casal que nunca teve filhos?
No meu caso fiquei com uma infertilidade secundária depois da gravidez e agora não tenho direito a fazer os tratamentos.
Só terei sucesso se for a um privado? Porque é que acontece a infertilidade secundária? Nunca tive problemas com os meus ciclos…
 
Dr. António Setúbal: A infertilidade secundária designa a infertilidade numa mulher que já procriou. As causas de uma infertilidade secundária podem ser femininas (por exemplo, lesão da cavidade uterina após raspagem uterina de um parto, entre outras) ou masculinas (por exemplo, mesmo em homens que já tenha tido filhos, ocorrer uma diminuição da produção e qualidade dos espermatozóides).
O diagnóstico da sua infertilidade secundária depende de múltiplos parâmetros de avaliação, quer femininos quer masculinos; obviamente o facto de recorrer a um privado não é garantia de sucesso. A questão principal é o diagnóstico, a forma de tratamento, e a capacidade de resposta ao seu caso, seja o serviço público ou privado.
 
asapinto: Gostaria de saber porque razão as seguradoras não comparticipam ecografias nem os tratamentos para a fertilidade.

Dr. António Setúbal: Esta questão está fora do âmbito da nossa actividade médica no Hospital da Luz na área da infertilidade. No entanto, não será demais salientar que de acordo com a legislação recente em vigor está previsto um acordo entre o SNS e prestadores privados no âmbito da infertilidade.
Quando à questão em concreto, é um tema que tem de ser visto junto das seguradoras e/ou subsistemas de saúde.
 
Inês Beirão (27 anos): Tenho uma doença rara transmitida pelo cromossoma X, pelo que cada filho que possa vir a ter terá 50% de possibilidade de ser saudável ou de nascer com a doença. Por esta razão penso fazer fertilização in vitro, para apenas implantar embriões saudáveis. E, de qualquer forma, esta doença não me fará abortar, no caso de uma gravidez espontânea.
Onde se faz este tipo de tratamento em Portugal? Apenas posso implantar 2 embriões como nos casos "normais" de infertilidade? É possível congelar possíveis embriões saudáveis para outras implantações?

Dr. António Setúbal: Pelo que se pode entender do enunciado da sua questão, o problema não reside no tratamento em Portugal, mas sim no diagnóstico pré-implantação. Esse diagnóstico já é possível ser realizado em Portugal, em pelo menos um dos centros existentes. Quando à questão de implantar 2 embriões nos casos ”normais” de infertilidade, trata-se do protocolo habitual, e consensual um pouco por todo o mundo. Relativamente à questão da congelação de embriões saudáveis para outras implantações a resposta é sim, ou seja, é possível.
 
Isabel Lopes: Estou numa luta com a infertilidade há 4 anos. E, no meu caso a infertilidade é inexplicável. Já gastei bastante dinheiro em tratamentos hormonais mas ainda não consegui um bom resultado.
Sou de Viseu e neste momento estou a ser seguida pelo Hospital da Universidade de Coimbra. Infelizmente nem todos os Hospitais, como é o caso do Hospital S. Teotónio de Viseu, têm forma de ajudar os casais com esta "doença" que é a infertilidade.
Fiz um tratamento hormonal que foi seguido pelo Hospital de Viseu, durante 3 meses mas como não havia mais a fazer, fui direccionada para o Hospital da Universidade de Coimbra, onde estou à espera de fazer uma inseminação artificial.
Infelizmente só há muito pouco tempo, nós, casais inférteis começamos a ter um pouco de ajuda do Estado. A medicação é muito cara e infelizmente o tempo de espera para os tratamentos é muito. Só damos conta de mais um ano a passar e...
Pergunto eu, iremos ter mais ajuda? Não vamos estar tanto tempo à espera para um fazer uma inseminação artificial ou uma fertilização in vitro?
Concordo que cada vez mais esta causa da "infertilidade" seja debatida e que encontrem mais soluções pois é com muita dor que nós, os casais inférteis lutamos contra ela. SONHO UM DIA SER MÃE!

Dr. António Setúbal: Com base no resumo do seu caso, é impossível aferir qualquer tipo de diagnóstico. Não estando em causa a competência dos múltiplos serviços pelos quais já passou, é completamente impossível elucidá-la do que é mais importante: o seu diagnóstico. Só conhecendo-o será possível propor uma terapêutica seja médica, cirúrgica, ou conjugada para o seu caso.
 
Lúcia Brandão (30 anos, auxiliar de acção educativa, Braga): Estou a tentar engravidar há 3 anos. Estou à espera de uma consulta de FIV (fertilização in vitro) e só tenho uma trompa. Terei possibilidade de engravidar?
 
Dr. António Setúbal: A questão principal não está associada à presença de uma só trompa. O mais importante é determinar um diagnóstico correcto de toda a sua situação no sentido de instituir uma terapêutica médica, cirúrgica ou conjugada.
 
Manuela (46 anos, reformada, Paços de Ferreira): Tive 2 abortos com 5 semanas. Comecei a tentar engravidar aos 44 anos porque casei há 3 anos.
Há tratamentos que possa fazer?
Dr. António Setúbal: Claro que sim. A gravidez em mulheres com mais de 40 anos na sociedade cosmopolita actual, muito embora difícil por razões de ordem biológica, continua a ser possível. Um dos tratamentos mais frequentes, muito embora controverso, é a doação de ovócitos.
 
Ana Pedro (33 anos, Técnica de Ambiente, Lisboa): Tenho o útero pequeno e questiono-me se posso engravidar ou se isso me pode levar a ter um aborto. Há algum paralelismo entre ter o útero pequeno e poder não engravidar?
Dr. António Setúbal: O importante é ter um diagnóstico concreto do que é um “útero pequeno”. Será uma malformação, como por exemplo um útero em forma de T, ou uma outra qualquer?
Geralmente este tipo de problemas está relacionado em com malformações uterinas, muitas delas passíveis de correcção por cirurgia.
 
Maria Gomes (39 anos, Lisboa): Já fiz caparoscopia e acho que o problema seja  o facto do meu marido ter cerca de 9 milhões de espermatozóides…
Qual é a probabilidade de sucesso para uma gravidez?
 
Dr. António Setúbal: Tudo aparenta ser um caso de infertilidade masculina; se não existir patologia feminina a probabilidade de sucesso de uma gravidez depende das várias técnicas de PMA. Neste caso, a probabilidade ronda os 30%.
 
Ana Moreira (39 anos):Tive um linfoma de Hodgkin. Posso engravidar?
 
Dr. António Setúbal: Felizmente sim. A questão principal é saber a que idade contraiu e tratou o linfoma. Muitas dos fármacos usados neste tratamento, desencadearam a ocorrência no futuro de úteros miomatosos que poderão influenciar ou não a gravidez. Ou seja, o linfoma de Hodgkin se totalmente tratado não interfere com a sua gravidez. O tipo de fármacos usado no tratamento é que o poderá fazer. Para uma resposta definitiva à sua questão a informação fornecida é insuficiente.
 
Maria (34 anos, Educadora de Infância, Castelo Branco): Porque as pessoas vão para o estrangeiro? Em Portugal não há doação de ovócitos e de espermatozóides?
 
Dr. António Setúbal: À sua primeira questão não sabemos responder.
Relativamente à segunda questão, a resposta é afirmativa, isto é há doação de ovócitos e de espermatozóides em Portugal.
 
Paulo Marques (33 anos, Montijo): Somos seguidos há 7 anos. Há 2 meses fui à maternidade e tenho o diagnóstico feito. O médico disse que era impensável mandá-lo para o privado gastar cerca de 10 mil euros, mas o problema é que no SNS não existem médicos para fazer a recolha e o estudo dos embriões.  
 
Dr. António Setúbal: Não sabendo qual é o diagnóstico, não temos possibilidade de responder à sua questão. No que se refere aos custos, desconhecendo o que lhe é proposto não temos capacidade para os avaliar.
Ao contrário do que afirma, no SNS existem médicos que fazem recolha e estudo de ovócitos, de espermatozóides e de viabilidade de implantação pós-fertilização in vitro.
 


publicado por servicodesaude às 18:25
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Terça-feira, 22 de Setembro de 2009
Infertilidade - Introdução (por Maria Elisa Domingues)

O Serviço de Saúde de 22 Setembro de 2009 abordou o tema da Infertilidade.

 
Cerca de 290 000 casais portugueses sofrem de infertilidade, situação que provoca uma boa parte de sofrimento; difícil de entender por quem já teve filhos, sem dificuldade, normalmente, ou porque simplesmente não os quer ter.
 
Até 2006 não havia qualquer lei que regulasse (a procriação medicamente assistida) e, ainda agora, os serviços do Estado não conseguem responder aos tratamentos que hoje a medicina oferece. E que são caros, às vezes muito caros.
 
A ministra da Saúde tomou medidas, por todos consideradas positivas, ao baixar o preço dos medicamentos e ao determinar que o Estado possa encaminhar os doentes para o privado. Mas, porque a medida é recentíssima, as situações acumuladas demorarão a resolver-se. Para muitos casos, será demasiado tarde.
 
Várias questões ficaram, no entanto, fora da lei: por exemplo, até que idade podem as portuguesas tentar a reprodução medicamente assistida? Este é um vazio difícil de entender e, porventura, perigoso.
É, por outro lado, aceitável que as mulheres solteiras não possam recorrer a esses tratamentos, como acontece noutros países?
 
Outra questão ainda: fará sentido, continuar a permitir a colocação de vários embriões em cada mulher, para maior garantia de sucesso do tratamento, quando é sabido que a incidência de gémeos, bebés triplos ou quádruplos vêm, muitas vezes, acompanhada de nascimentos prematuros, doenças graves ou até severas deficiências, com enorme sofrimento para todos; particularmente pais e bebés afectados?
 
Nalguns países, a situação foi resolvida de forma simples, com entendimento entre médicos e governo para uma maior tranquilidade dos utentes.
 
Fomos à Bélgica, ouvir o Prof. Willem Ombelet, uma das maiores autoridades mundiais em Medicina de Reprodução, contar como mudaram as regras para os casais belgas. E ouvimos ainda as histórias de Ann Marie, Teresa e Sandra:
Reportagem


publicado por servicodesaude às 20:19
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Infertilidade - Reportagem: Tratamento em Portugal e o exemplo belga, de sucesso

A história do tratamento da infertilidade é uma história de sucesso. Em 30 anos o mundo viu nascer o primeiro bebé em laboratório e a tecnologia permitiu a democratização dos tratamentos, tornando-se cada vez mais acessíveis a todos.

A ânsia de sucesso na medicina não olhou a meios para atingir o fim. Mas dos tratamentos de infertilidade não nasceram apenas bebés; nasceram também novos problemas:
 
Willem Ombelet (Sociedade Europeia de Reprodução Humana): O problema é que para temos boas taxas de sucesso, tínhamos que colocar vários embriões na mulher. Pelo menos há alguns anos. Nessa altura, tivemos muitos gémeos, trigémeos e quadrigémeos.
Dessas gravidezes nascem muitos prematuros, com vários problemas após o nascimento, ou a longo prazo. Podem ser surdos ou cegos e todos os problemas congénitos que possa imaginar, são mais comuns nessas pessoas.
De facto, criámos muitas complicações apenas porque queríamos ter sucesso.
 
Neste pequeno canto da Europa, na cidade de Genz, na Bélgica, situa-se um dos centros de excelência para o tratamento de infertilidade. Inaugurado há cerca de 15 anos, é dirigido por uma referência mundial na área: Willem Ombelet (The Walking Egg – “BORN”).
Foi aqui que se desenvolveu a ideia de que os tratamentos podiam e deviam mudar.
 
Willem Ombelet (Sociedade Europeia de Reprodução Humana): O que sabemos hoje, é que se tivermos bons embriões, e apenas utilizarmos um - no máximo dois -, a taxa de sucesso final é praticamente a mesma.
E podemos criopreservar os embriões em excesso. Assim, a taxa de sucesso é quase a mesma, sem todas as complicações de uma gravidez múltipla.
 
Da evidência médica à criação legislativa, acabou por ser um pequeno passo.
 
Willem Ombelet (Sociedade Europeia de Reprodução Humana): Convencemos o ministro e as pessoas das organizações de fertilidade que seria uma boa ideia por menos embriões e fazer dessa medida uma lei nacional.
Com o dinheiro que se poupa, facilmente se pode pagar aos laboratórios, para se fazer a fertilização in vitro.
 
Os resultados falam por si:
 
Willem Ombelet (Sociedade Europeia de Reprodução Humana): Temos menos 50% de gravidezes múltiplas e os custos são bastante mais baixos.
Isto quer dizer que toda a gente está feliz e que os pacientes em vez de pagarem 1500 euros por ciclo, pagam apenas 200 euros.
 
Apesar de ser possível adoptar esta medida em qualquer país, em Portugal a situação ainda é bem diferente; com a disponibilidade financeira de cada um a comandar as hipóteses de sucesso nos tratamentos de infertilidade.
 
Apesar de algumas promessas nesse sentido, nos hospitais públicos o tratamento não é comparticipado na totalidade, e o processo ainda é moroso e complicado.
Talvez por isso, Teresa Marques tenha optado pelo privado e gasto aquilo a que podemos chamar “uma pequena fortuna”:
 
Teresa Marques (38 anos): Nós costumamos dizer que foi mais que um carro. Foi perto de 20 mil euros de certeza, com os medicamentos e os três tratamentos.
 
O caso de Teresa e Marcos é idêntico ao de muitos casais. Optaram por ter filhos tarde, quando ela já tinha 34 anos. Depois de vários meses a terem relações sexuais desprotegidas, perceberam que se podia passar alguma coisa.
Teresa foi primeiro ao ginecologista, logo depois, aconselhada a ir ver um especialista.
 
Teresa Marques (38 anos): O Marcos, o meu marido, fez o exame habitual dos homens, o espermograma. E estava tudo bem. A partir daí, o diagnóstico do problema passou a estar centrado em mim.
Tivémos que passar para tratamentos de “segunda linha”. E acho que esse foi o momento mais difícil, para mim.
 
Tal como na natureza, não é certo que os tratamentos resultem à primeira tentativa. No caso concreto, a técnica utilizada foi a microinjecção intracitoplasmática do espermatozóide.
Teresa e o marido não seguiram os conselhos dos especialistas e fizeram o teste rápido de gravidez na farmácia. O resultado foi negativo, mas depois chegou o telefonema do médico.
 
Teresa Marques (38 anos): Estava deitada no sofá, de rastos, numa depressão. Mas o médico disse ao Marcos que era positivo. Eu disse: “Não é possível porque fizemos o teste e deu negativo”. 
O médico garantiu que o resultado era positivo e foi um momento inesquecível! Com a vantagem de saber o dia e a hora em que a minha filha foi feita.
 
É em São Romão, Seia, que Sandra Goma transporta o sonho que tem desde criança e que trouxe de Angola.
 
Sandra Goma (36 anos): Eu venho de uma cultura em que “a mulher é para reproduzir”. Todas as mulheres sonham ser mães, e eu também. E achei que quando chegasse a altura não teria problemas nenhuns.
 
Há quase quatro anos que Sandra e Mário tentam ter um filho e apesar de estarem inscritos na Maternidade Alfredo da Costa, desde 2005, até ao momento não foi identificada qualquer razão para o insucesso. Este Verão, tentaram pela primeira vez a fertilização in vitro, mas sem resultado.
A frustração e a angústia de tentar ter um filho aumentam de dia para dia, até porque a família dela está a ficar maior:
 
Teresa Marques (38 anos): Agora tive mais um caso que mexeu comigo. Eu sou a mais velha e a minha irmã, que tem 20 anos, é agora mãe. Teve um bebé…
 
Mário: Nós vimos toda a gente a ter filhos… É um complemento da felicidade dos casais.
É um momento da felicidade para eles, que nós também queríamos, mas que acaba por não ir acontecendo, ou pelo menos não aconteceu até aqui. É complicado…
 
O casal admite a violência de todo o processo. E para se ter uma ideia, imagine que as simples compras de roupa para um sobrinho podem-se transformar em dor.
 
Teresa Marques (38 anos): Tenho que entrar em lojas de roupa para bebé e tenho que escolher. E elas dizem: “compra como se fosse para ti…”
Ter que suportar esses momentos de “tortura”. Estou a comprar para os outros, mas penso que podia ser para mim.
 
Mário: É um misto de felicidade e amargura por não ser ainda a nossa vez.
 
O casal não desiste do sonho, apesar de saber que o prazo de validade para Sandra ter um filho diminui um pouco a cada dia.
 
Teresa Marques (38 anos): Já conversei com o meu marido. Já pensei desistir, mas apesar dele já ser pai, dá-me força. E são aqueles sonhos que não se matam, assim, por nada. Eu acredito que um dia vou ser mãe e quero muito ser mãe, por isso continuarei a tentar.
Se tivesse dinheiro ia ao privado, como muitas amigas minhas, porque ali é tudo mais rápido; temos dinheiro, pagamos, e as coisas andam. Como não podemos…
 
É de volta à Bélgica, no centro em Genz, que encontramos Ann Marie, para quem a questão do dinheiro e das esperas do público e do privado não fazem qualquer sentido.
Ela é uma das muitas mulheres que tem direito a apoio estatal, em caso de infertilidade. No seu caso, está na clínica para a terceira tentativa da desejada segunda gravidez.
 
Ann Marie (30 anos): Já fizemos duas tentativas antes desta, que não resultaram. Mas isso é também uma coisa que acontece na natureza.
Esta tarde vamos tentar por outro embrião e ver o que é que acontece. Se tudo correr bem… isso só vamos saber daqui a duas ou três semanas.
 
Ao contrário de Sandra que demorou praticamente quatro anos para ter direito a um tratamento, aqui o processo da primeira gravidez de Ann Marie, foi rápido e eficaz
 
Ann Marie (30 anos): Decidimos que íamos ter filhos em Outubro de 2006 e fiquei grávida entre Janeiro e Fevereiro de 2008.
Neste tempo, tentámos primeiro de forma natural, depois com a ajuda de comprimidos e, mais tarde, tivemos que fazer todos os tratamentos da fertilização in vitro. Ou seja, um ano e meio; penso que não é nada.
 
Processos rápidos, satisfação dos utentes e mais riqueza para o Estado. Um exemplo de um processo que nasceu da cabeça dos médicos, encontrou eco na vontade dos políticos e nos desejos da população.

Será que em Portugal, a lei também nasceu da colaboração entre os especialistas de Medicina da Reprodução e o Governo?



publicado por servicodesaude às 19:26
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Infertilidade - Apresentação dos convidados

Prof. João Silva Carvalho – Professor da Faculdade de Medicina do Porto. É o presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos.

Foi até há muito pouco tempo, durante seis anos, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução.
 
Dra. Manuela Barata - Obstetra e ginecologista. Foi membro do Centro de Medicina de Reprodução do Hospital Santa Maria, até ao ano 2000, altura em que foi convidada a montar o Centro de Medicina da Reprodução do British Hospital, uma das instituições privadas que foi recentemente certificada pela Direcção-Geral de Saúde.
 
Prof. Jorge Branco – Presidente do Conselho de Administração da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), vice-presidente do Conselho Pedagógico da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Lisboa e é o actual coordenador nacional do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva.
 
Dra. Ana Oliveira Pereira – Psicóloga clínica, fez o seu curso no ISPA, concluiu o mestrado em psicologia na área da saúde. A sua vida profissional conduziu-a a uma experiência na MAC e ao contacto com as questões da infertilidade, pelas quais se viria a interessar de modo particular. Trabalha hoje numa das instituições privadas ligadas a essa área.


publicado por servicodesaude às 18:07
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Infertilidade - Lei PMA belga: mais tratamentos, menos embriões

Vimos na reportagem que os belgas resolveram alguns dos problemas que os tratamentos de infertilidade colocam; o serem caros e penosos. De um modo muito ágil, através de um compromisso entre médicos e governo que, naturalmente, deu também satisfação aos utentes.

 

Em vez de gastarem somas brutais no tratamento dos prematuros e nas incubadoras (e que não seriam prematuros, se não fossem produto destes métodos de reprodução), limitaram o número de embriões que podem ser implantados, a um ou dois, no máximo.
E com o dinheiro poupado, o governo paga seis ciclos de tratamento a todos os casais inférteis. Ou sejam, casais que ficam pelo menos com seis oportunidades de ter, gratuitamente, o que para muitos em Portugal é ainda muito caro.
 
Seria interessante apoiarmo-nos na experiência belga (que vem de 2003 e a nossa lei só nasceu em 2006) com vantagem, utilizando esta experiência?
Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): Este problema levantado pelo nosso colega belga é um problema que se levanta na Europa toda. Também em Portugal se diminuiu muito o número de embriões a serem transferidos. E hoje não será lícito transferir mais do que um ou dois embriões.
Nenhum serviço em Portugal, estou convencido, transfere mais do que dois embriões. A gravidez múltipla deve ser sempre vista como uma complicação da técnica e deve ser evitada.
O próprio Dr. Silva Carvalho tem um trabalho publicado sobre isto, que conheço bem, em que conseguiu calcular exactamente a quantia poupada, com esta mudança de atitude.
Esta mudança fez-se em Portugal, como na Bélgica e está em prática em todos os centros de PMA (Procriação Medicamente Assistida).
 
Está em prática, mas de uma forma menos contratualizada e mais aceite tacitamente…
Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): Isto decorre de uma causa científica que foi levada a cabo; não há propriamente uma contratualização.
O Ministério da Saúde tem poupado e de facto o dinheiro que se poupa é significativamente importante. E com esse dinheiro pode-se fazer outras coisas.
 
Prof. Silva Carvalho, qual o número a que chegou, do que poderá ser poupado quando realmente a implantação se limitar a um ou dois embriões? Não sei se todos os centros privados, em função do lucro, sempre o cumprirão …
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Este problema tem múltiplas variáveis.
O estudo a que o Dr. Jorge Branco se referiu está feito para Portugal; já tem dois, três anos.
É um estudo que orientei, feito por um aluno de mestrado, que foi apresentado à Faculdade de Economia de Coimbra com sucesso e depois apresentado em várias reuniões científicas; e publicado. Mas aconteceu o que é frequente em Portugal: não ligaram muito, ou quase nada.
 
Devo dizer que, a nível oficial, não consegui obter os números; ninguém mos soube dizer.
Não tenho de memória, porque depois depende da projecção para o número de partos ao nível do país e de uma série de projecções. Mas são, posso garantir, uns largos milhões de euros que se poupam se conseguirmos anular a taxa de triplos e se reduzirmos a taxa dos gémeos a 50 por cento.
 


publicado por servicodesaude às 17:19
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Infertilidade - Consequências PMA com vários embriões - bebé e mãe

A Inglaterra gasta um bilião de euros por ano, em casos desses, dos prematuros que têm que ficar nas incubadoras. E que não seria necessário gastar se fossem seguidos os procedimentos…

João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): São custos que ficam para toda a vida e que a sociedade também vai ter que suportar: com os cuidados neonatais, as taxas de cesariana, as complicações no parto e as próprias complicações na gravidez.
E depois há uma grande fatia de crianças que ficam com handicaps, como os problemas a que Ombelet se referiu na reportagem: surdez ou cegueira para toda a vida.
São custos muito grandes que a sociedade tem que suportar, a nível económico, já para não falar do sofrimento que causa nas pessoas e nas suas famílias, que é o custo mais grave.
 
Problemas que às vezes só surgem mais tarde…
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Sim, problemas que muitas vezes só surgem mais tarde, com o desenvolvimento da infância.
As mortes na infância e na adolescência tem uma incidência sete ou oito vezes superior nas crianças que nasceram de trigémeos, por exemplo, dos que as que nasceram de parto simples.
 
E também tem complicações para as mães, por exemplo na taxa de diabetes?
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Claro; na hipertensão, na diabetes… todas essas complicações maternas existem.
 
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Mas gostava de fazer aqui um pequeno ajuste: este problema existe pelo desejo da taxa de sucesso.
Um casal vai ao médico e diz: “Eu quero sair daqui grávido”. E os médicos por desejo de corresponder ao desejo expresso pelo casal - e também pela concorrência entre as clínicas e pelas taxas de êxito -, pensavam erradamente que se transferissem até três, quatro embriões, teriam uma maior taxa de sucesso. Em todo o mundo transferiam-se três ou quatro embriões.
Depois começou-se a constatar esta realidade. A pessoa engravidava, tinha sucesso, mas três ou quatro meses depois perdia a gravidez. No fundo era um insucesso enorme…
 
Na Bélgica fizeram o que Ombelet disse na reportagem. O Estado disse: “para além do sofrimento que causa nas pessoas, tem enormes custos”. E fez-se um acordo com os médicos em que estes passariam a só poder transferir um, dois embriões, ou três no máximo.
Pode-se transferir eventualmente três, mas só em situações muito particulares, de mulheres com muita idade ou que já fizeram vários ciclos.
E o Estado belga como contrapartida, disse: “ e nós pagamos seis ciclos de tratamentos a todas mulheres.”
 
Essa fase também já está um pouco ultrapassada. Na comunidade científica médica há já essa consciência, e o Estado também joga com isso. Não se pode continuar com esta prática e já há vários anos tem diminuído e vindo a racionalizar-se por si só.
 
Posso dizer que a nossa taxa de gémeos andava na ordem dos 25% e os últimos dados da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução, que são de 2007, já apontam para os 20%. Estou convencido que 2008 e 2009 serão anos com taxas ainda mais baixas. Portanto, a própria comunidade médica tem vindo a proceder de maneira diferente nessa matéria.


publicado por servicodesaude às 16:46
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Infertilidade - Diagnóstico e Tratamento - público e privado

Telefonema de Filomena Pardal, 37 anos, gerente de loja, em Leiria:

Tento engravidar há dez anos… Agora não estou a fazer nenhum tratamento, mas já fiz vários, inclusive três fertilizações in vitro, uma no Porto e duas em Barcelona.
Gastei muito dinheiro porque os tratamentos são muito caros.
Vejo a comunicação social a falar sobre a nova lei e a dizer que já permite efectuar os tratamentos nas instituições públicas
 
Há uma determinação nesse sentido, em que até o “público” pode mandar para o “privado” quando não tem capacidade para responder de uma forma mais ou menos expedita. No seu caso, com a idade que tem, de certeza que é candidata.
 
Filomena Pardal (37 anos): Queria deixar o seguinte testemunho: agora ando a ser seguida na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra, na minha área de residência e o médico por quem fui atendida, não me soube dar respostas.
 
Como tive ocasião de dizer essa disposição é muito recente. Em que mês é que foi à consulta?
Em Fevereiro.
 
A disposição de que falo é posterior à sua ida à consulta.
Posso perguntar porque é que optou por ir a Barcelona?
Porque fui mandada para lá pelo Dr. Cristiano Oliveira, do Porto, que é da clínica do Dr. Alfredo Barros. Eles é que me mandaram para Barcelona dizendo que lá eu teria muito mais facilidades em engravidar.
Fui a Barcelona duas vezes, gastei tudo, claro, à minha custa e do meu marido. Fiquei numa situação má, como deve calcular… Tive a ajuda de familiares, se não, teria sido impossível.
 
Nessa altura, você ou o seu marido lembraram-se de que as seguradoras também deviam ajudar-vos?
Não fazia a mínima ideia…
 
Não, não ajudam… Mas deviam ajudar, como noutras doenças… A infertilidade é uma doença.
Pois é. Por isso é que gostava de deixar o meu testemunho. Eu e o meu marido estamos a tentar “engravidar há 10 anos e isso é muito doloroso… Não somos nenhumas “coitadinhas”…
 
É assim que sente?
A pressão social é muito grande. Estou casada há 13 anos e as pessoas perguntam: “Então, para quando…?” Eu até podia não querer ter filhos… Não é o caso, mas há uma pressão muito grande.
Até hoje nenhum médico – e já fui ver vários – me disse como resolver o meu problema. E gostava que o Prof. Da Maternidade Alfredo da Costa me desse uma resposta.
Tenho um problema de ovulação e gostava de saber. Porquê? Se existe alguma razão, na minha infância, ou adolescência, para que eu agora com 36 anos não faça ovulação? Deixei de fazer ovulação desde os 26 anos, depois de ter deixado a pílula para tentar engravidar.
 
Penso que nem sempre a ciência sabe dizer porque é que as pessoas são inférteis…
Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): Em cerca de 10% dos casais que tentam engravidar nunca se chega a conhecer a causa exacta dessa infertilidade.
No caso que a senhora apontou, um problema ovulatório, as causas podem ser múltiplas. Em primeiro lugar, a mais frequente, é a menopausa precoce.
Não sei se é isso que se passa neste caso, se assim for, é de facto mais difícil de resolver.
Mas podem ser outras razões: ovários maus “respondedores” (resistentes à terapêutica).
Há muitas causas.
 
Ouvimos muitas vezes dizer, a propósito de muitas doenças, e como agora neste programa, que muitos procuram uma solução na ida a uma clínica no estrangeiro, principalmente a Espanha.
Há neste campo concreto – de Medicina de Reprodução -, alguma técnica que se faça em Espanha e que não se faça em Portugal?
Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): A senhora que telefonou foi a Espanha para aí há dez anos. Talvez nessa altura os centros de Barcelona estivessem mais desenvolvidos que os nossos. Hoje em dia penso que o que se faz em Portugal, faz-se em Espanha e no resto da Europa.
 
E esta senhora enquadra-se naquele grupo de pessoas que por estar a tentar há tantos anos, com certeza tem condições, não sendo atendida rapidamente no público, de ser transferida para o privado?
 
Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): Não é bem assim. O critério para os regimes privados destina-se às mulheres que estão em listas de espera há mais de um ano. Não há no envio, um critério de idade ou de história da doença.

Quem está inscrito num centro público, há mais de um ano, reúne as condições para ser enviado para uma instituição privada.



publicado por servicodesaude às 15:52
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Infertilidade: sofrimento, estigma social e depressão

A senhora que telefonou não disfarçava o sofrimento.

A sua experiência junto de outras doentes de infertilidade é de que se sentem olhadas de maneira diferente pelas outras pessoas?
(Ela pedia: “só não quero ser olhada como se fosse uma pessoa diferente…”)
 
Dra. Ana Oliveira Pereira (psicóloga): Acho que depende do contexto particular de cada pessoa. O morar em determinada zona pode ter alguma influência.
Não quer dizer que não exista uma certa estigmatização social. Mas também acho que por vezes as próprias pessoas carregam esse peso da infertilidade.
E o facto de não partilharem o problema – existem ainda hoje muitos casais que não partilham com ninguém, vivem a situação sozinhos e nem aos próprios pais contam -, torna as coisas mais penosas.
 
Mas não era obviamente o caso… Esta senhora até falou em nome próprio, não era com certeza o caso.
Dra. Ana Oliveira Pereira (psicóloga): Não será o caso. Mas este sofrimento encontra-se. Tal como vimos na reportagem, a Sandra, o sofrimento que sentia quando ia comprar as roupas para a sua sobrinha.
São sentimentos que muitas mulheres têm vergonha de confessar; às vezes até de inveja; o que parece altamente desagradável…
 
Parece que é feio…
Dra. Ana Oliveira Pereira (psicóloga): Parece que é feio, e temos medo de confessar, mas é muito humano. A pessoa não inveja a outra; quer para si o que a outra pessoa tem.
 
E a Sandra ainda tem o peso da sua própria cultura, em que a pressão (para se engravidar e ser mãe) é muito maior, não é?
Dra. Ana Oliveira Pereira (psicóloga): A infertilidade do ponto de vista psicológico traz muita perturbação emocional porque é um cocktail que mistura muitos aspectos: aspectos sociais, culturais, psicológicos e médicos. Tudo isso junto traz muito peso; mais do que em muitas doenças de que falamos.
O que esta senhora referiu relativamente à causa da sua infertilidade ser desconhecida, aumenta muito mais o grau de perturbação. Não se sabe qual é o motivo, “então estou a lutar para quê?” Dai o grande desejo que as pessoas têm em encontrar uma resposta, uma causa para a sua infertilidade.
 
Isso acontece com qualquer doença…
Dra. Ana Oliveira Pereira (psicóloga): Por vezes à sentimentos de culpa: “Será que a causa foi alguma coisa que fiz? Será que foi a pílula? Ou foi a interrupção da gravidez que uma vez fiz? São tudo questões que reproduzem o discurso das pessoas.
Cada pessoa vive de determinada forma a situação mas é sempre algo de muito penoso. E às vezes é uma situação que se pode arrastar durante anos e anos.
 
Inicialmente, tentava-se encontrar uma causa psicológica para a infertilidade. Neste momento a maior parte dos técnicos que trabalham nesta área concordam que a perturbação emocional decorre da infertilidade, e não é uma causa da infertilidade. Para nós, enquanto médicos, é quase inevitável ter que lidar com algum sofrimento dos casais.
 
Um artigo de uma psicóloga, professora em Harvard, compara o sofrimento destes casais, à depressão que sentem por exemplo os doentes de cancro ou os doentes cardíacos graves.
Quem teve filhos com facilidade, ou quem não os quer ter, dificilmente pode entender que este sofrimento tem esta expressão, não é?
Dra. Ana Oliveira Pereira (psicóloga): Por isso é que é natural as pessoas pensarem que ninguém mais as entende, a não ser eles próprios, porque é tão intenso.
Nesse estudo, um dos instrumentos foi usar um conjunto de metáforas para ver como é que as pessoas referiam o sofrimento. E as palavras escolhidas, as metáforas, tinham uma carga superior às escolhidas por mulheres que sofriam de cancro ou que tinham tido enfartes, por exemplo.

Parece estranho porque quando pensamos em cancro associamos a uma ameaça da própria vida, mas aqui é a ameaça de sonhos, de projectos, e uma suspensão dos desejos do casal que está em causa.



publicado por servicodesaude às 14:06
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Infertilidade - Crianças nascidas em Portugal por PMA

Apesar disto, em Portugal temos apenas um por cento de crianças nascidas pelo método de procriação assistida. Porquê uma percentagem tão baixa face à média europeia?

Madalena Barata (obstetra / British Hospital): Porque até aqui os centros públicos não tinham capacidade de resposta para o que se necessitava. Agora, com este novo dispositivo legal, em que os centros públicos podem realmente mandar os casais para os centros privados, vai aumentar o número de ciclos realizados anualmente, logo, irá aumentar o número de crianças nascidas por este método, com certeza.
 
Estamos todos esperançados. A realidade é que em Portugal tem vindo a haver toda esta abertura legal, e agora temos todo o trabalho feito no sentido de certificar centros para poderem fazer contratualizações com o Estado: ao nível dos equipamentos, das instalações e dos recursos humanos.
Tudo isto está a criar uma dinâmica, que não tínhamos até aqui. E falava-se em infertilidade com dificuldade. Era quase uma curiosidade.
 
Agora, sem sombra de dúvida, as pessoas falam com abertura e, facilmente, como se vê neste programa, as pessoas telefonam e dão o seu testemunho, fazem perguntas, vão à procura da sua solução.
 
Esta questão diz respeito a 10% da população que é afectada, em Portugal, por esta doença
Madalena Barata (obstetra / British Hospital): Acho que agora, que o Estado abriu esta possibilidade de se mandar os casais para centros privados, também as companhias de seguros, que até aqui não consideravam a infertilidade uma doença, vão seguir o exemplo do Estado e participar.


publicado por servicodesaude às 13:11
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Infertilidade - Limite de idade nos tratamentos e taxas de êxito

Telefonema Helena Mendes, 42 anos, empresária, da Covilhã:

Estou a tentar engravidar, há dois anos, e não consigo.
Desloquei-me ao Centro Hospitalar da Cova da Beira, o da minha zona. Eles não têm clínica de fertilidade mas através de uma médica brasileira dei inicio ao processo habitual de exames, ecografias…, mas a médica acabou por detectar que eu não tinha problema absolutamente nenhum.
De seguida foi o meu marido fazer uma série de exames e não havia nada aparentemente anormal. A médica acabou por concluir que seria, talvez, do stress. Talvez devido á minha profissão.
 
Qual é a sua profissão?
Helena Mendes (42 anos): Sou empresária.
 
Os tempos não estão fáceis…
Helena Mendes (42 anos): Entretanto a médica disse-me que, derivado à minha idade, só no Porto, no Hospital de Santo António. Eu tentei mas aí foi-me dito que, com a minha idade, nem no público nem no privado.
Não perdi a esperança. Mas queria saber se é verdade ou se há algum centro onde eu me possa dirigir, com a idade que tenho?
 
Chegou a ser consultada, no hospital do Porto?
Não, porque me disseram logo ao telefone que nem adiantava marcar consulta.
 
O Dr. Silva Carvalho foi fundador do Centro do Hospital do Hospital de São João, no Porto. Esta resposta é normal?
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Sim e não. Os hospitais têm critérios variáveis no que diz respeito ao limite de idade das mulheres que aceitam.
 
Acha que o facto da Lei de Procriação Medicamente Assistida não estabelecer um limite da idade vem baralhar as coisas, ou pelo menos torná-las menos claras?
Não. Acho que é um problema diferente. O problema nos hospitais públicos é este: nos casais a partir dos 35 anos a probabilidade de sucesso começa a diminuir.
 
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Por volta dos 40 anos a possibilidade de sucesso por cada tentativa é muito baixa. Então, a racionalidade em alguns hospitais públicos é: “vamos gastar recursos e perder tempo com pessoas cuja probabilidade é muito pequena, quando temos outras, com mais probabilidade, que se ficarem à espera, vão chegar à idade das que têm menos probabilidades de engravidar?”.
 
Portanto, alguns estabeleceram um limite de idade: a partir dos 37 anos não aceitamos. Noutros, é a partir dos 39 ou 40 anos. Há vários critérios consoante cada hospital.
 
Aqui o que importa não é a idade cronológica da doente. A idade biológica é o mais importante, porque há doentes com 40 anos cujos ovários parecem de uma pessoa que têm 30 ou 35 e outras, suponhamos, aos 30 ou 35, têm uns ovários com uma idade biológica muito superior.
 
Não há milagres. Eu julgo que nesta idade: 40, 42, 45,46…,mas também aos 37 ou 38; cada caso tem que ser analisado para se perceber de facto qual é a idade biológica daquela mulher e quais as suas probabilidades.
O problema de não aceitarem uma pessoa de determinada idade, é também um problema de rentabilidade estatística daquele hospital.
 
Mas quando o utente fica sujeito a uma tal, ou total, arbitrariedade, é extremamente incomodativo…
Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): A fecundidade é um fenómeno biológico e depende da idade. Uma senhora com 42 anos tem menos de 5% de hipóteses de ter êxito. Isto trata-se de gestão de recursos e da melhor aplicação dos dinheiros públicos.
 
Isto que estou a dizer pode parecer muito frio, mas é a realidade. Se os recursos são escassos não podemos estar a aplicar dinheiros públicos em senhoras com uma taxa de êxito inferior a 5%; talvez 4% ou mesmo 3%; quando nas mulheres mais jovens a taxa de êxito é superior a 30%. É só por isto, não se trata de nenhuma arbitrariedade.
 
Eu disse “arbitrariedade” depois de ouvir o Dr. Silva Carvalho em que ele defendeu que o acesso dependia da idade biológica de cada mulher, e que esta mulher com 42 anos podia ter ovários com uma maior probabilidade de serem fecundados do que outra mais novas, cujos ovários não estivessem em tão bom estado…
Admito que possa haver excepções, mas o que referi são estatísticas internacionais; que uma mulher com 42 anos tem uma taxa inferior a 5%. Isto é irrefutável.
Fica dependente de uma gestão de recursos, que em Portugal são escassos – são em todo o lado.
Ganhou-se imenso em reconhecer – e isso aconteceu recentemente – a infertilidade como uma doença. Pode-se dizer que isto é um êxito.
 
Sem dúvida…
E é sobretudo um êxito para os casais que se vêm com um problema de infertilidade. Agora, ir contra a biologia é muito difícil.


publicado por servicodesaude às 12:18
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Infertilidade - Técnicas actuais de PMA - da Fertilização In Vitro à recente vitrificação ovócitos

Dirigindo um centro privado, no caso de as pessoas poderem pagar, qual seria a sua atitude?

Madalena Barata (Obstetra / British Hospital): A Medicina de Reprodução começou com a fertilização in vitro, numa altura em quer a obstrução ovárica era um grande problema.
Cerca de 10 anos depois surge a microinjecção (intracitoplasmática), que veio resolver muitos dos “tais” casos em que aparentemente não havia uma causa para haver infertilidade e, no entanto, o casal não conseguia engravidar. Ou, eventualmente para os casos masculinos graves.
 
Os homens podiam, e podem, conservar os espermatozóides, nomeadamente em situações de patologia. Nas mulheres, em termos de conservação dos óvulos - como têm um citoplasma muito grande -, eram extremamente difíceis de congelar.
 
Só que agora há uma técnica, a vitrificação dos ovócitos, que abre toda uma diferença ao lado das outras duas que referi antes. Fazemo-la no British Hospital.
Uma mulher; imagine uma rapariga de 16 anos, que vai fazer um tratamento anti-oncológico e que pode guardar os seus óvulos com sucesso, para os fertilizar um dia e realizar o seu projecto de família com alguém que tenha encontrado.
 
Madalena Barata (Obstetra / British Hospital): É para isso essencialmente que esta técnica foi montada. Mas também vai mudar o quotidiano da Procriação Medicamente Assistida (PMA) e dos próprios ciclos de tratamento.
Recebemos um casal, que tinha imensos óvulos, mas o senhor naquele dia não tinha espermatozóides, o que não era suposto acontecer. Se não tivéssemos esta técnica a punção tinha que ser feita para nada, porque não tínhamos espermatozóides para usar naquele momento. Ou seja, vitrificámos os óvulos.
 
Madalena Barata (Obstetra / British Hospital): A vida das mulheres é hoje muito difícil. As mulheres optaram em muitos casos por ter uma vida profissional bem sucedida. Imagine que uma mulher tem 32 anos e lhe é oferecida uma estadia no estrangeiro muito importante, que vai demorar três anos e esta mulher sabe que só aos 35, 36 anos é que vai começar a poder procriar.
A partir daí a taxa de êxito é menor, porque os óvulos já serão de menor qualidade. E a taxa de implantação dos óvulos, em mulheres acima dos 35 anos, é menor.
Então, se a mulher guardar os seus óvulos não ficará refém da sua idade. Ela congelou a sua idade biológica, quando tinha idade muito aceitável. Acho isto muito esperançoso.
 
Claro que não estou a falar na polémica de se poder guardar óvulos de mulheres que tenham 50 ou 60 anos. Mas até aos 45, 46 anos, porque de facto olhamos para mulheres que têm uma vitalidade e força de vida, mas quando vamos ver os exames hormonais, na prática não respondem.
Se essas mulheres tivessem tido óvulos guardados… Não estou a falar de embriões, que acorrentámos a um projecto com alguém, que pode ter acabado, se a mulher entretanto já tiver 42 anos e estiver, por exemplo, num segundo casamento.
 
Isto é constatar que a ciência muitas vezes vai ao encontro daquilo que é importante, que é a felicidade das pessoas.
 
E está a igualar um pouco mais as hipóteses dos homens e das mulheres?
Madalena Barata (Obstetra / British Hospital): Exactamente. Todos sabemos, até da cinematografia, em que os homens, ninguém imagina, continuam a ser pais. E as mulheres não.

É claro que a natureza encarregou-se de por a fêmea a procriar numa altura em que consiga tomar conta das suas crias. Acho que é errado afastarmo-nos demasiadamente daquilo que é natural, do que é humano, daquilo que é a essência das pessoas. Não o devemos fazer, só porque a técnica permite



publicado por servicodesaude às 11:22
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Infertilidade: Endometriose, idade e embriões congelados (tel.)

Telefonema de Sandra Almeida, 36 anos, administrativa, de Vila Nova de Gaia:

Sofro de endometriose, já fui operada duas vezes e no ano passado, com o apoio da Dra. Helena Serra, do Hospital de Gaia, fiz uma Fertilização in Vitro (FIZ).
Tive um menino que faz hoje 13 meses.
Já comecei novamente com a crise de endometriose, mas tenho três embriões congelados.  Gostava de perguntar se devo, ou não, arriscar uma próxima tentativa, sabendo que ao descongelar os embriões, alguns podem não estar em bom estado?
Estou com 36 anos e depois não sei se estou na idade, para ainda poder engravidar.
 
Sente-se muito ansiosa relativamente ao que há-de fazer?
Sandra Almeida (36 anos): Pois, claro. O que fazer com três embriões congelados?
 
É uma questão muito pertinente.
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Deve transferir os embriões congelados, rapidamente. E mais: se a gravidez não resultar dos embriões congelados, deve iniciar um novo processo e fazê-lo rapidamente. Não só porque o passar da idade leva à perca de qualidade dos óvulos e ao envelhecimento ovário, logo, à perda das possibilidades de gravidez; a própria endometriose é uma doença progressiva que vai afectar ainda mais a qualidade dos ovócitos.
Portanto, deve aproveitar todo o tempo útil e o mínimo da progressão da doença e da idade, para tentar ter um segundo filho, que é o que deseja.
 


publicado por servicodesaude às 10:33
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Infertilidade - Lei e queixas - idade para os tratamentos, custos e seguradoras

Está na associação há três anos, também teve problemas de fertilidade, mas conseguiu ultrapassá-los e hoje já tem uma filha com 2 anos. E está de parabéns, porque vem aí um segundo filho; está novamente grávida.

Em relação à questão da idade, em que alguns hospitais entendem fazer o tratamento da infertilidade… São queixas que ouvem com muita frequência na associação?
Filomena Gonçalves (vice-presidente da Associação Portuguesa da Infertilidade): Sim, recebemos todos os dias casais com estas queixas. E outras. A questão da idade é habitualmente referida como “criminoso”, que não se aceitem senhoras de uma determinada idade. E como critério, efectivamente, não está claro até que idade se aceita as senhoras, o que ainda é mais grave. Não está claro na lei.
A nossa posição enquanto associação, e somos bastantes sensíveis aos gastos dos dinheiros públicos, entristece-nos que não seja feita alguma avaliação por exemplo a senhoras com 36 ou 37 anos. E que se fechem as portas a senhoras - como o Dr. Silva Carvalho referiu - que possam ter uma idade biológica que ainda o permita.
 
Quais são os outros problemas que aparecem com mais frequência na associação?
Por exemplo, o facto de a nossa lei não permitir a mulheres solteiras tentarem a Procriação Medicamente Assistida?
É um problema que aparece com frequência, ou as pessoas percebem que assim seja?
Filomena Gonçalves (vice-presidente da Associação Portuguesa da Infertilidade): Temos pouco pessoas não inférteis a procurarem-nos. Já nos procuraram duas ou três mulheres singulares que pretendem ser mães, mas são mais outros casais que nos procuram.
 
Um preâmbulo: a comunidade infértil está bastante agradada, desde há dois anos para cá, por se falar mais de infertilidade do que nos últimos 20 anos. Estamos contentes com a chegada da legislação, com a perspectiva de encaminhamento dos casais e, sobretudo, com a comparticipação dos medicamentos, que tem sido mais que tremenda para os casais.
Agora os medicamentos são comparticipados em 69%, antes era apenas 37%, portanto é uma ajuda muito boa.
 
No entanto estes casais continuam a sentir-se muito frustrados com toda a morosidade. Os apoios foram prometidos há dois anos e só agora é que começam a chegar os primeiros encaminhamentos.
E é doloroso, porque surge uma esperança, gera-se uma expectativa e depois há um grande sentimento de frustração. Estas são as queixas que mais recebemos.
 
Filomena Gonçalves (vice-presidente da Associação Portuguesa da Infertilidade): O facto de a infertilidade não ser reconhecida como uma doença pelas seguradoras, é preciso que se refira: se houvesse vontade para forçar as seguradoras a aceitarem a infertilidade como uma doença e as levar por exemplo a aceitar três tratamentos, também iria aliviar o próprio Serviço Nacional de Saúde deste encargo.
 
Considera que aí justificava-se toda a pressão política?
Filomena Gonçalves (vice-presidente da Associação Portuguesa da Infertilidade): Com certeza, sem dúvida nenhuma. Essa tem sido uma das nossas grandes lutas e reivindicações.


publicado por servicodesaude às 09:43
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Infertilidade - Doação de gâmetas: banco público ou centros privados

Filomena Gonçalves (vice-presidente da Associação Portuguesa da Infertilidade): Há uma questão pouco falada e que interessa a muitos casais, que é a doação de gâmetas. Até este momento não foi encontrada solução no SNS para estes casais.

Os casais que não conseguem obter gâmetas seus, têm que optar pela doação. É a única forma que têm de procriar. E só conseguem encontrar solução em tratamentos privados, que são muito dispendiosos.
Também houve a promessa de um banco de gâmetas que não foi concretizada. E o facto é que a questão não se encontra solucionada no SNS.
Nós não queremos forçosamente que exista um banco de gâmetas. Queremos apenas que estes casais possam ser encaminhados para os serviços privados.
 
A existência de um “banco de gâmetas” é fundamental? Ou os casais que precisam desse recurso podem ser encaminhados para os centros privados? Isso dispensaria custos que uma implantação de um banco naturalmente implica?
Prof. Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa: Realmente não há em Portugal um verdadeiro banco de gâmetas. A própria ministra anunciou há algum tempo que o Centro de Estética do Porto – Joaquim Magalhães - iria ter esse serviço, mas de facto ainda não tem, pelo menos que nós saibamos. E é de facto importante que aconteça em Portugal.
 
Enquanto director de uma maternidade, provavelmente o investimento que um banco de gâmetas custa, pode não ser, para já, a melhor forma de resolver o problema, porque podemos importar gâmetas, como outro produto biológico.
 
Penso que neste momento, relativamente aos espermatozóides – gâmetas masculinos -, penso que vamos primeiro optar por essa saída; a da importação. E porquê? Porque exige muitos recursos humanos, porque provavelmente metade do esperma recolhido acaba por não ser bom, perde-se.
E esta é uma área em que, sabemos, há poucos recursos humanos. Não só em médicos, como em biólogos especializados.
 
Há pouco tempo, com a remodelação do seu Centro de Reprodução, na maternidade - que todos dizem ser de grande qualidade - debateu-se com a questão de falta de pessoal.
Até mesmo com a dificuldade em arranjar um director que teve que vir de Espanha…
 
Prof. Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): Neste momento esses problemas estão ultrapassados. Temos um director que foi director de um centro de PMA, foi o presidente da Sociedade de Medicina de Reprodução espanhola e da Sociedade Europeia de Medicina de Reprodução; com muitos trabalhos científicos publicados nesta área.
 
Ainda relativamente aos gâmetas, já referi o que vamos fazer com os gâmetas masculinos. No que toca aos gâmetas femininos, ou iremos ter o nosso banco, ou ter o apoio de um hospital privado que possa preservar ou vitrificar os óvulos que nós precisarmos.
 
Estamos numa fase de viragem. A infertilidade ser considerada uma doença foi o grande facto que mudou tudo. E vai certamente obrigar as companhias de seguros a olhar para esta doença de outra maneira.

Até aqui não era doença, tinham essa desculpa. Agora deixam de a ter. Acabaremos todos por ganhar, sobretudo os casais com problemas de infertilidade.



publicado por servicodesaude às 08:50
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Infertilidade - Nova lei: certificação dos centros e etapas tratamento

A legislação também prevê a constituição do grupo de pessoas que devem assegurar a procriação, nos moldes científicos mais adequados aos centros de reprodução.

Sei que não está de acordo com o que diz a lei e que quando era presidente da Sociedade dirigiu uma vasta documentação ao Ministério da Saúde no sentido de serem ouvidas as vossas preocupações. Coligiram informação de outros países, onde tudo isto já estava implantado, no entanto a Sociedade nunca foi ouvida.

João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): É lamentável, mas é verdade.

Uma das senhoras que telefonou dizia que tinha sido seguida pela sua médica, que não sabia a causa e que não parecia existir nenhum problema consigo.

Queria que muitas vezes usam-se procedimentos clínicos e a causa está na biologia. E só durante os tratamentos é que se descobre que o óvulo e o espermatozóide do marido não se entendem; que não há fecundação. Ou que os embriões são de má qualidade e não se desenvolvem.
Há problemas que entram na área da Infertilidade mas que são da área da Biologia. E quando se faz uma análise clínica como a médica fez são impossíveis de detectar.
 
Ou seja, não é suficiente essa avaliação e a pessoa precisa passar para outra etapa?
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Passar para outra etapa e ir para um local onde se possa fazer essa investigação.
 
E nos centros devem existir equipas multidisciplinares que assegurem todas essas valências?
Exactamente.
 
E nesses centros há outros métodos de avaliação para resolver esses problemas?
Antes da Procriação Medicamente Assistida há outras etapas que devem ser percorridas, não é? A etapa clínica e a etapa cirúrgica, por exemplo?
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Exactamente. E essa é uma das minhas discordâncias relativamente à forma como o processo tem sido conduzido aqui em Portugal. Estamos numa nova área, a da reprodução.
Em todo o mundo, e as principais sociedades científicas da Europa, reconheceram a necessidade de que ginecologistas e obstetras adquirissem competências especializadas para lidarem com esta área.
Há currículos específicos e é preciso percorrer um determinado trajecto para se ser diferenciado nesta área. Área que depois tem um contributo multidisciplinar de geneticistas, andrologistas, endocrinologias, psicólogos...
 
Por isso é que há uma Sociedade de Medicina de Reprodução, em que se pressupõe que o médico seja qualificado e possa fazer um diagnóstico correctamente, propor uma terapêutica e avaliar um prognóstico.
E no âmbito da terapêutica, ser capaz de fazer tratamentos médicos, tratamentos cirúrgicos e Procriação Medicamente Assistida (PMA), que é o patamar a que se deve recorrer depois de ter feito uma correcta avaliação e um tratamento médico ou cirúrgico.
 
Discordo que tudo tenha sido sempre conduzido, nomeadamente a lei, em função da PMA.
Aí a lei é taxativa: é uma lei de cuidados em Medicina de Reprodução, o que obriga os centros médicos a ter cuidados médicos, cuidados cirúrgicos e que tenham as valências necessárias para também terem Medicina de Reprodução Assistida.
 
A nossa Lei de Procriação Medicamente Assistida e os enquadramentos superiores isolaram sempre a PMA, como se fosse ela mesma uma disciplina. E não é verdade. É apenas uma forma de tratamento, que deve vir a seguir a outras. Portanto tenho algumas discordâncias quanto à forma como as coisas foram conduzidas aqui, do ponto de vista legal, em Portugal. Eu discordei, em nome da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução. Nunca fomos ouvidos, nunca houve diálogo.
 
Em todo o caso com a regulamentação da lei, feita 18 meses depois, andámos para a frente. Foi criado um Conselho Nacional para a Procriação Medicamente Assistida, que é presidida por um juiz.
Neste momento, e como responsável do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva, qual é o seu relacionamento com esse conselho? Parece-lhe que está a funcionar bem?
 
Prof. Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): O funcionamento e o diálogo que temos com o conselho são óptimos. E temos também médicos que defendem os aspectos clínicos e médicos da melhor forma.
 
Em todo o caso as funções do conselho são éticas e jurídicas, não é?
Prof. Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): Sim. Só com vista às técnicas de PMA e não relativamente à infertilidade em si.
 
E é esse Conselho Nacional que, com a Inspecção-Geral de Saúde, vai certificar esses centros privados?
 
Prof. Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): E é esse Conselho Superior Nacional que com a Inspecção-Geral de Saúde, propõe à ministra a certificação desses centros.
 
João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Disse, e é verdade, queo Conselho da Sociedade Portuguesa da Procriação Medicamente Assistida é quem vai certificar esses centros, pelo que vai dar um parecer, vai avaliar…
Mas como é que justifica que numa sociedade com nove elementos, só tenha um elemento com na Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução?
 
Prof. Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): É a constituição oficial desse conselho.

João Silva Carvalho (Faculdade de Medicina do Porto): Mas não está bem.



publicado por servicodesaude às 07:53
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Infertilidade - Só metade procura tratamento e importância prevenção

Dos cerca de 300 mil casais que sofrem de infertilidade, apenas metade procura tratamento. Qual é, para si, a explicação para este fenómeno?

Manuela Barata (obstetra / British Hospital): Penso que este fenómeno conheceu um ciclo. “Era assim”, mas penso que as coisas estão a mudar.
A Associação Portuguesa de infertilidade criou a facilidade do acesso, que é muito importante nestas situações. O casal pode consultar online os centros, que normalmente têm site e fazer uma primeira abordagem.
Há um primeiro momento em que a mulher acha estranho não conseguir engravidar, mas ainda não consegue dizer a si própria. Depois de o fazer, diz ao marido e vai procurar ajuda.
 
Manuela Barata (obstetra / British Hospital): Penso que o aspecto económico também deve pesar. Mas penso que com tudo aquilo que tem sido feito em termos legislativos, acho que as pessoas vão ter cada vez menos a retracção de procurar ajuda, que agora está muito facilitada.
As pessoas já sabem quais são os centros que existem e podem com mais facilidade ter o acesso: Onde ir? Quanto custa? Como posso eu lá chegar?
 
E sobretudo não terem vergonha…, como dizia há pouco uma telespectadora, porque a infertilidade é apenas uma doença, entre tantas outras que todas as semanas continuaremos aqui a tratar.
 Prof. Jorge Branco (Maternidade Alfredo da Costa): Todo este esforço do Ministério da Saúde, de requalificação de centros públicos e de acordos com os centros privados, vai no sentido de proporcionar uma maior oferta, aliás, exigida pelas Nações Unidas; que diz que deve haver a promoção para que toda a gente tenha acesso a serviços de saúde de qualidade.
 
E depois, se isto é uma doença, então há que a prevenir. Porque é mais fácil e mais barato. A primeira recomendação é que se tenha o primeiro filho o mais precocemente possível, de forma que, se houver problemas, tenhamos tempo para os tratar. E não apareçam nas consultas e nos centros com 37, 38 ou 39 anos. Já é muito mais difícil ajudá-las.
Há que fazer uma mudança nos hábitos de vida, tabaco, obesidade, etc., e chegar mais cedo.


publicado por servicodesaude às 05:59
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Infertilidade - Ficha Técnica

Autoria, coordenação e apresentação

Maria Elisa Domingues
 
Convidados
Filomena Gonçalves
Mariana Barata
Maria Pereira
Jorge Branco
Ana Oliveira Pereira
João Silva Carvalho
 
Reportagem
Buenos Aires Filmes
 
Produção
Miguel Braga
 
Pesquisa
Alexandra Figueiredo
Miguel Braga
 
Jornalistas
Miguel Braga
Raquel Amaral
 
Imagem
Gonçalo Roquette
Daniel Ruela
Filipe Lopes Graça
 
Edição
Teresa Mota
 
Pós-produção vídeo
Sara Nolasco
 
Pós-produção Audio
Miguel Van Kellen
 
Gestão e edição conteúdos Internet
(Portal SAPO)
Natacha Borges
 
Atendimento telefónico
Duarte Rosa
Margarida Castanho
Rui Domingues
Mariana Dias
 
Câmaras
Rui Machado
Nuno Faneco
Elias Barbosa
Rogério Santos
Floriano Esteves
 
Mistura de Imagem
João Trindade
 
Controlo de Imagem
António Carlos Mateus
 
Som
João Carrasco
Joana Perucho
 
Iluminação
Armindo Caneira
 
Técnicos de Electrónica
José Borges
Rui Loureiro
 
Assistentes de Operações
Jaime Silva
Manuel Simões
Pedro Gonçalves
André Machado
 
Caracterização
Fátima Tristão da Silva
Ana Filipa
 
Assistente de guarda-roupa
Paula Silva
 
Assistentes de Artes Visuais
Bruno Silva
Eurico Lourenço
Joaquim Saraiva
Luís Marques
 
Registo Magnético
Margarida Almeida
 
Gerador de Caracteres
Luís Pereira Torres
 
Teleponto
Sílvia Van-Dunen
 
Genérico e Grafismos
Nicolau Tudela
Teresa Martins
 
Música genérico
Ari de Carvalho
 
Assistente de Realização
Carlos Cid Carmo
 
Anotadora
Paula Macedo
 
Chefe Técnico de Produção
Moreira Nunes
 
Criação cenográfica
Gil Ferreira
 
Execução cenográfica
Isabel Rodrigues
 
Produção
Paula Paiva
 
Realização
Pedro Miguel Martins


publicado por servicodesaude às 02:03
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Infertilidade - Links Úteis

Associação Portuguesa de Fertilidade - Infertilidade

http://www.apfertilidade.org/web/index.php
 
Infertilidade é uma doença
http://www.apfertilidade.org/web/index.php/o-que-e-a-infertilidade/51-infertilidade/143-a-infertilidade-e-uma-doenca
 
Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução
http://www.spmr.pt/faq.aspx
 
Clínicas de Infertilidade – Públicas
http://www.apfertilidade.org/web/index.php/clinicas-de-infertilidade/147
Maternidade Alfredo da Costa - http://www.mac.min-saude.pt/
 
Tratamentos Infertilidade
Mulher - http://www.fertilityportugal.com/treatment/Female_Treatments/index.jsp
Tratamentos Infertilidade
Homem - http://www.fertilityportugal.com/treatment/Male_Treatments/index.jsp
 
Programa Nacional de Saúde Reprodutiva e Rede de Referenciação de Infertilidade

http://www.saudereprodutiva.dgs.pt/
 
Sociedade Portuguesa de Ginecologia
http://www.spginecologia.pt/
 
Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia - European Society of Human Reproduction and Embriology (ESHRE)
http://www.eshre.com/page.aspx/18 (vídeo PMA)
 
European Network of Exellence on Embryo Implantation Control
http://embic.med.uni-jena.de/public/index.php?option=com_content&task=view&id=2&Itemid=192&limit=1&limitstart=0
 
American Society for Reproductive Medicine (ASRM) - http://www.asrm.org/news.html
 
International Society for Stem Cell Research - http://www.isscr.org/index.htm
 
The Walking Egg Project: Willem Ombelet, Koen Vanmechelen
http://www.zol.be/Internet/uploadedFiles/Nieuws/born.pdf
 
“Infertility in developing countries - Hidden and forbidden desires"
 
Willem Ombelet - http://www.eshre.com/binarydata.aspx?type=doc/1_Arusha_-_W_Ombelet_-_Opening_lecture.pdf
 
Procriação  Medicamente Assistida - http://pt.wikipedia.org/wiki/Reprodu%C3%A7%C3%A3o_medicamente_assistida
 
Fertilização in vitro
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fertiliza%C3%A7%C3%A3o_in_vitro
 
Microinjecção Intracitoplasmática
http://www.youtube.com/watch?v=uu4U-v9U6nY (vídeo)


publicado por servicodesaude às 02:00
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Infertilidade - Legislação

Diário da República I Série n.º97 de 21/05/2007. Designação de quatro personalidades para o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida
 

Diário da República I Série n.º62 de 28/03/2007. Designação do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida

 

Diário da República I Série n.º143 de 26/07/2006. Regula a utilização de técnicas de Procriação Medicamente Assistida

 

 

 

 

Diário da República I Série n.º29 de 11/02/2008. Regulamenta o artigo 5.º e o n.º 2 do artigo 16.º da Lei n.º 32/2006, de 26 de Julho, que regula a utilização de técnicas de procriação medicamente  ...

 

Diário da República I Série n.º97 de 21/05/2007. Designação de quatro personalidades para o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida

 

Diário da República I Série n.º62 de 28/03/2007. Designação do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida

 

Diário da República I Série n.º143 de 26/07/2006. Regula a utilização de técnicas de Procriação Medicamente Assistida

 
 


publicado por servicodesaude às 01:55
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