Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Cancro colo-rectal: Reportagem

 

Maria dos Santos nunca imaginou que estivesse reformada aos 52 anos. Mulher do campo, sempre encontrou na fé a força necessária para lutar contra as adversidades da vida.
Há dois anos, recorda, começou por sentir-se cansada, mas atribuiu a falta de energia ao peso da idade. O problema começou com uma ida à casa de banho:
 
Maria dos Santos (52 anos): Um belo dia, perto da Páscoa, deu-me uma dor de barriga e fui à casa de banho. E quando me levantei vi a sanita cheia de sangue.
Nunca me tinha acontecido aquilo, não me saía da acbeça e um dia liguei para o posto médico e marquei uma consulta.
 
No posto médico marcaram um exame - uma colonoscopia -, à qual foi com a filha pois tinha medo de não conseguir guiar de volta para casa:
 
Maria dos Santos (52 anos): Qual não é o meu espanto, quando estava a fazer o exame e o médico me diz que tinha que ser operada o mais depressa possível. Aquilo caiu-me como um balde de água fria por mim abaixo. Não estava nada à espera.
 
Maria sabia agora que tinha um cancro colo-rectal, um tumor maligno que afecta o intestino grosso, mas pouco ou nada sabia sobre a doença e suas consequências. E as palavras dos médicos continuaram a surpreende-la:
 
Maria dos Santos (52 anos): Disseram-me: “Pode tratar dos papéis para a reforma”. E eu fiquei a pensar: “O quê; já? É assim tão grave?”
 
A situação era de facto grave. Fez quimioterapia e radioterapia, que a deixaram muito debilitada. A recuperação foi muito difícil, até porque lhe retiraram parte do intestino e, durante quinze dias, teve com um saco criado artificialmente no abdómen para a saída das fezes.
Maria contou sempre com o apoio da família e agarrou-se à fé para passar os momentos menos bons. Hoje, olha para trás e lembra que nem todos sobreviveram ao pesadelo:
 
Maria dos Santos (52 anos): Acho que foi um sonho mau. E depois olho para trás, para pessoas mais novas que eu, algumas andaram comigo a fazer quimioterapia e já cá não estão.
 
Maria dos Santos faz parte duma dura realidade no nosso país. Todos os anos cerca de 7 mil pessoas são diagnosticadas com cancro colo-rectal e metade dessas pessoas morrem, o que representa 10 mortos por dia, por causa desta doença no nosso país.
Esta elevada mortalidade transformou o cancro colo-rectal na primeira causa de morte por cancro em Portugal, tendo inclusivamente superado o cancro do pulmão.
 
A troca de uma alimentação mediterrânica por comidas menos saudáveis, o sedentarismo, o aumento da esperança média de vida, é um somatório de causas para estes números alarmantes, mas sendo uma doença verdadeiramente diagnosticável e tratável, o que tem falhado em Portugal é a prevenção ou, se quisermos, diagnósticos precoces, como foi o de Maria Santos ou de João Gomes.
A remoção de eventuais póliplos, detectados atempadamente, poderá evitar até 85 por cento das mortes por cancro colo-rectal.
 
João reparou que os intestinos não estavam a funcionar correctamente e por isso marcou uma consulta no médico de família. Seguiu-se uma colonoscopia e a certeza de que tinha agido correctamente:
 
João José Gomes (62 anos): Às vezes a pessoa sente que tem que fazer alguma coisa, para detectar alguma doença que tenha. Tive essa sorte, de dizer logo à médica o que sentia e de ela também ser inteligente e me mandar logo fazer aquilo.
Se tivesse esperado mais um ou dois anos era capaz de já não ser viável fazer a operação. Ou fazê-la mas ficar com “um saco” para toda a vida.
 
O resultado do exame determinou que João Gomes tinha cancro do cólon. Fez quimioterapia e radioterapia antes de ser operado e voltou à quimioterapia depois da operação; uma altura complicada em que sentiu de perto a morte:
 
João José Gomes (62 anos): “Se eu tive medo morrer?” Todos nós andamos cá para morrer, mas quanto mais tarde melhor.
 
Este homem de 62 anos superou o cancro mas a mulher, um ano depois, não sobreviveu a um cancro do pulmão.
Nos dias de hoje tem na companhia do filho, o João Pedro, de 19 anos, muito mais que uma razão para viver:
 
João Pedro Simões (19 anos): Não foi fácil, mas tive de o apoiar, cá em casa, fora de casa… acho que estamos muito mais unidos.
 
Luís Pires vive na localidade de Eixo, em Aveiro, e recorda a doença que o atingiu há quase 10 anos. Na altura, diz, não se falava tanto do cancro do cólon. Talvez por isso não tenha sido fácil e rápida a detecção da doença. Tinha dores abdominais e sangue nas fezes:
 
Luís Pires (65 anos): Sei lá quantos exames fiz, para no fim dizerem que era hemorróidas. A conclusão da médica no inicio foi “não encontramos nada; em princípio é hemorróidas…”. Mas eu mesmo assim não me convenci.
Então perguntaram-me se eu queria fazer outro exame, que seria mais doloroso. E então fui fazer a colonoscopia e foi aí é que recebi o resultado.
 
Nunca antes de ter cancro Luís tinha feito uma colonoscopia. E hoje, depois de ter feito mais de 10, continua a dizer que é um exame difícil e doloroso. Mas Luís sabe também que este exame pode salvar vidas:
 
Luís Pires (65 anos): Qualquer pessoa que tenha qualquer sintoma, deve perder a vergonha e ir fazer logo este exame. É a coisa mais importante para se poder detectar logo no início, porque se deixam avançar… é perigoso. É o que eu digo a qualquer pessoa porque toca a todos.
 
Luís, como João ou Maria, tem agora a vida mais tranquila e mais cuidada. Os hábitos alimentares alteraram-se e todos os anos são vigiados.
Em Dezembro do ano passado, a Administração Regional de Saúde do Centro deu inicio a um programa de rastreio do colo e recto em dezenas de centros de saúde da região.
 
O critério de selecção para fazer o exame é apenas o da idade. Estão a ser chamados aos centros de saúde todos os que têm entre os 50 e os 70 anos, com ou sem sintomas.
O objectivo é lutar contra a pior taxa de mortalidade deste cancro na Europa e garantir o diagnóstico e o tratamento precoce das situações detectadas.
O rastreio piloto é baseado no teste de pesquisa de sangue oculto nas fezes, muito embora a colonoscopia seja encarada como o exame por excelência para este tipo de patologia.
 
Manuel António Silva (Director IPO de Coimbra): Foi muito ponderado no grupo de trabalho da ARS, que preparou o início do rastreio; foi muito debatida essa questão. E nós não somos claramente um país para começar um rastreio do cancro colo-rectal com uma colonoscopia. Em termos económicos é impossível. E assim conseguimos fazê-lo através deste método: pesquisa de sangue oculto nas fezes.
 
Apesar de este ser o cancro que mais gente mata em Portugal, critérios económicos prevalecem sobre os da eficácia, até porque Portugal não tem meios para optar por um rastreio de colonoscopia em massa. Por isso, mesmo no início do ano, a ministra da Saúde classificou este programa de rastreio de “audacioso” e afirmou que, de futuro, deverá ser alargado a todo o país.


publicado por servicodesaude às 23:30
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