Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Cancro colo-rectal: Diagnóstico - colonoscopia e pesquisa sangue fecal

Tanto o Prof. José Manuel Romãozinho como o Dr. João Pimentel participaram num grupo de trabalho cujas decisões finais estão na base da implementação de um grupo de rastreio, que está a ser implementado numa região vasta do Centro do país.

 
Como sabemos há três métodos de rastreio do cancro colo-rectal: o método de procura de sangue oculto nas fezes, o método da colonoscopia esquerda – que só abrange aquela parte do intestino onde aparecem mais póliplos, cerca de 75% - e ainda a colonoscopia geral, completa. 
Gostava de perguntar aos dois se estiveram de acordo com este critério, ou se foram “vencidos” no grupo de trabalho? (Sabemos que estas situações acontecem…. As decisões são obtidas por maioria num grupo de trabalho…)
 
José Manuel Romãozinho (Prof. Faculdade de Medicina de Coimbra): O cancro colo-rectal constitui um verdadeiro flagelo nacional.
Existem métodos de rastreio possíveis, desejáveis e ideais. O método ideal é indiscutivelmente a colonoscopia total, executada a cada 10 anos. Aliás, como se pratica em alguns países, nomeadamente nos E.U.A., na Áustria, na Alemanha mas também, curiosamente, no Chipre e na Grécia.
Existe depois o método, se calhar o mais adequado para Portugal, segundo a Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva, que eu subscrevo (e também já fui presidente desta sociedade) que é a colonoscopia esquerda, de cinco em cinco anos, tendo em conta os recusos humanos e técnicos disponíveis no nosso país.
Por último, existe o método possível, que comporta despesas mais reduzidas e que foi o método adoptado por 11 Estados-membros da União Europeia, incluindo o governo nacional.
Este método é um método de pesquisa anual, ou bianual, de sangue oculto nas fezes, completado com a colonoscopia, nos casos que são positivos. Não é o método ideal, nem desejável; será o método possível.
 
Mas não é o método que mais tranquiliza o médico?
 
José Manuel Romãozinho (Prof. na Faculdade de Medicina de Coimbra): De maneira nenhuma. Na minha perspectiva não.
Nós temos duas atitudes perante o diagnóstico do cancro colo-rectal. Se visarmos apenas a taxa de mortalidade, o objectivo menos ambicioso, então a pesquisa de sangue oculto das fezes, seguida pela colonoscopia - nos casos positivos -, será o método possível.
No entanto, se formos mais ambiciosos e se visarmos a prevenção; e quisermos reduzir a incidência de cancro colo-rectal no país, temos que recorrer aos métodos endoscópicos, porque são os únicos que, ao permitir a remoção atempada dos póliplos – que são os percussores do cancro -, permitem prevenir o cancro e evitam o sofrimento associado ao cancro.
 
O sofrimento mas também os custos económicos associados ao cancro; que muitas vezes parece que nos esquecemos…
 
José Manuel Romãozinho (Prof. na Faculdade de Medicina de Coimbra): Em Portugal, segundo dados de 2006, comporta um custo individual de 30 mil euros.
Queria referir no entanto que a colonoscopia total, de 10 em 10 anos, pelos custos que comporta (estima-se que se esse método fosse usado em Portugal, comportaria um custo anual entre 50 a 75 milhões de euros)  e o número de colonoscopias totais que teriam que ser feitas por ano no nosso país – cerca de 360 mil – levam-me a julgar que não temos nem recursos humanos nem técnicos para isso.
 
Mas temos meios para a colonoscopia esquerda, de 5 em 5 anos. É um exame quepermite prevenir o cancro, mas como foi o governo que optou e temos com certeza que ter em consideração custos económicos, optou-se então pelo método que exige recursos mínimos.
Mesmo assim, e tendo em conta o todo nacional - e se o teste for estendido ao todo nacional – estima-se um custo entre os 12 e os 15 milhões de euros.
 
De qualquer maneira é bem melhor termos algumas experiências restritas, do que não ter nada…
José Manuel Romãozinho (Prof. na Faculdade de Medicina de Coimbra): Diria que nem é o bom, nem o óptimo; é o suficiente.
 
Está de acordo com o que disse o seu colega?
João Pimentel (Prof. da Faculdade de Medicina de Coimbra): Estou. Nós quando discutimos este assunto, em reunião de grupo, os argumentos a favor e contra tinham que ser postos em cima da mesa, e foram-no.
 
Tínhamos por um lado, a possibilidade do rastreio ideal, através da colonoscopia total, de 10 em 10 anos, ou um rastreio possível, que é este. E fazer um rastreio ideal que seria impossível, pela saturação de meios e serviços no nosso país, optámos por este método que, pelo menos – esperamos que sim -, nos vai pelo menos reduzir a mortalidade.
Já reduzir a incidência (número de novos casos), aí já não sabemos bem… mas entre termos o ideal, ou não termos nada, pelo menos temos o possível.
Estes argumentos foram esgrimidos, discutidos e achámos esta solução de consenso.
 
Por outro lado, pensamos que se a própria população começar por uma pesquisa de sangue oculto nas fezes, aderirá mais do que se for sugerido fazer uma colonoscopia.
 
Em geral as pessoas têm medo de fazer a colonoscopia?
João Pimentel (Prof. na Faculdade de Medicina de Coimbra): Têm muitas vezes um receio infundado.
Não sou gastrenterologista nem endoscopista; sou cirurgião, mas os doentes passam por mim na fase de diagnóstico e no follow up (seguimento) pós-cirúrgico para realização deste tipo de exames. E até terem feito um primeiro exame há um certo receio infudado de que o exame possa provocar dores ou complicações.
Estou convencido que a população aderirá mais à pesquisa de sangue oculto nas fezes e depois, nos casos positivos, em que as pessoas já têm de facto o receio de ter alguma coisa, então aí já irão fazer a colonoscopia, no sentido de ver ou não se existe uma eventual lesão associada a essa pesquisa de sangue oculto nas fezes, que der positiva.
 
O problema é que todos sabemos que a pesquisa de sangue oculto nas fezes tem falsos-positivos. E também falsos-negativos. E os falsos-negativos é que são o grande problema, de se poder deixar escapar algum problema.
 
E é importante que as pessoas saibam isso, porque se estiverem perante um caso em que lhes foi dito que o exame é negativo, podem questionar o médico e dizer: “Mas eu sei que há casos de falsos negativos”.

 



publicado por servicodesaude às 21:47
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