Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Cancro colo-rectal: Colonoscopia – custos e listas de espera no SNS

Telefonema de Victor Santos, 65 anos, reformado bancário, de Lisboa

Victor Santos (65 anos): O que estão aí a falar aconteceu-me a mim e queria dar o incentivo a quem tem medo: devem ir ao médico e a tempo e horas. Não se pode deixar andar a situação, que torne depois impossível fazer alguma coisa.
Eu reparei ao olhar para a sanita que havia lá sangue. Fui ao médico e disse que queria fazer uma colonoscopia. E fiz. Já estava de tal maneira que tinha dois póliplos e tive logo que ser operado, porque tinha um cancro.
 
Portanto os poliplos já eram malignos?
Victor Santos (65 anos): Já, já eram malignos. Fui operado, depois fiz seis tratamentos de quimioterapia e tem corrido bem. E  amanhã vou fazer a colonoscopia, para ver como isto está a andar.
 
Se me permite, o senhor tem felizmente um bom sistema de saúde, que é o dos bancários e, portanto, provavelmente não teve tempos de espera entre umas coisas e as outras?
Victor Santos (65 anos): Sim, fui a uma consulta hospitalar queixar-me e depois a partir daí não levou muito tempo.
 
É realmente uma circunstância que muitos portugueses não se podem gabar. Mas ainda bem que o sistema de saúde dos bancários funciona, tanto quanto sei com grande eficácia…
 
Victor Santos (65 anos): Mas no meu caso não é a assistência bancária que me atende, é o meu banco que tem acordo com a CUF.
 
De qualquer forma tem um subsistema de saúde; não está no sistema geral. Tem filhos?
Victor Santos (65 anos): Tenho um filho com 40 anos, mas na minha família não há ninguém que tenha tido este tipo de problemas.
 
Mas agora, provavelmente o seu filho irá ter outro tipo de cuidados?
Tem 40 anos, depois de isto ter acontecido tomou as previdências necessárias para tratar da sua saúde.
 
Este doente tem um bom sistema de saúde. Agora vamos supor que tem outro doente que, por razões familiares, faz um teste de sangue oculto nas fezes e dá positivo, e o senhor tem necessidade de fazer uma colonoscopia.
Quais são as possibilidades que tem, através do Sistema Nacional de Saúde, de obter uma resposta rápida para esse doente?
 
Rui Cernadas (médico de família): Excelente pergunta, vou explicar. Em Portugal devemos ter mais ou menos cerca de 400 gastrenterologistas a funcionar operacionalmente, portanto provavelmente a resposta não será talvez aquela que gostaríamos.
Mesmo do ponto de vista terapêutico, e trabalho na área do grande Porto, tenho dificuldade em pedir uma colonoscopia em menos de três, quatro, cinco semanas.
E é legítimo que os doentes não queiram realizar um exame complementar de diagnóstico como é a colonoscopia, pela ansiedade. E que a queiram fazer sob anestesia, que hoje começa a ser mais frequente. Ora isto implica não só outro tipo de custos mas também outra duração no que toca à realização dos exames e às condições em que são feitos.
 
Portanto, Isto quer dizer que o tempo de espera é diferente. Não tenho qualquer hesitação em dizer que hoje espero muito mais por uma colonoscopia (e não estou a falar na perspectiva do rastreio, estou a falar na perspectiva da terapêutica, dos casos diários), cerca do dobro do tempo, que estava a esperar há dois ou três anos atrás.
 
E porque é que não se faz como no caso das cirurgias, em que o Estado convenciona algumas especialidades cirúrgicas em que os médicos possam ser retribuídos extra-horário, para diminuir as listas de espera?
Pporque é que não se pensa o mesmo para as colonoscopias, que podem salvar vidas?
E também dinheiro?
 
Rui Cernadas (médico de família): Os métodos endoscópicos estão convencionados com entidades privadas, não estão é nas instituições do SNS (do próprio Estado) a merecer um programa que preveja um maior número de realizações. Isto é que é complicado.
Agora o Estado possui, para além da sua capacidade de resposta, acordos com entidades privadas para a realização destes exames.
 
Mas há muitas entidades privadas interessadas?
José Manuel Romãozinho (Prof. na Faculdade de Medicina de Coimbra): Posso-lhe dizer que neste momento existe um sub-financiamento da parte do Estado dos actos endoscópicos. O Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica Portuguesa desenvolveu um estudo sobre a avaliação dos actos endoscópicos, dirigida pelo Dr. Miguel Gouveia.
Chegou à conclusão que o custo unitário das endoscopias, reportado a 2007, excede em 40% aquilo que o Estado paga pelo mesmo exame, no ano de 2009.
Estes dados foram fornecidos a partir de uma unidade pública, o IPO de Coimbra.
 
Quanto é que custa uma colonoscopia num centro privado?
José Manuel Romãozinho (Prof. na Faculdade de Medicina de Coimbra): É muito variável. Mas nos hospitais públicos o preço real excede em mais de 40% aquilo que o Estado paga para fazer o exame.
Este subfinanciamento dos actos endoscópicos, sobretudo nos hospitais públicos faz com que não seja atractivo para os gestores desses hospitais, contratarem colegas para fazer os exames; porque estão a perder dinheiro! E isso poderá justificar as longas e anti-éticas listas de espera para fazer estes exames.


publicado por servicodesaude às 18:52
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