Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Cancro colo-rectal: Associação Portuguesa dos Ostomizados

Além de ser doente, representa a Associação Portuguesa dos Ostomizados, que são os doentes que ficam com o tal “saquinho” para defecar, já que muitas vezes não pode ser adoptada outra solução.

O senhor António Cabral, hoje com 70 anos, tem uma história que começa aos 44 anos com uma anemia, não é?
 
António da Silva Cabral (presidente da Associação Portuguesa dos Ostomizados):
A primeira coisa que me mandaram fazer foi a pesquisa de sangue oculto nas fezes, porque apareceu-me uma anemia forte e muita fraqueza.
Foi grave porque estava no princípio do cólon ascendente, a seguir ao intestino delgado e foi-me tirado todo o cólon. Mandaram-me repetir o exame, fizeram-me um clister opaco e depois o médico disse que tinha que ser operado imediatamente.
Mandaram-me fazer todos os exames já referidos, com excepção do clister opaco que depois levaria à colonoscoipia.
 
Foi descoberto uma polipose familiar (João Pimentel (Prof. da Faculdade de Medicina de Coimbra): que se traduz pela existência de um número acentuado de pólipos que vai de uma centena a milhares de pólipos. Tem um traço familiar porque é uma doença que se transmite por um traço autossómico dominante e daí o facto de ser chamada de polipose adenomatosa familiar.
 
Apesar da sua mãe ter morrido muito cedo, aos 38 anos, ninguém relacionou uma coisa com a outra, pois não?
António da Silva Cabral (presidente da Associação Portuguesa dos Ostomizados): Não. E embora a tecnologia então utilizada já fosse o inicio do que é hoje, perfurou o intestino e foram descobrir um cancro no fígado.
Tive três filhos e a mais velha, faleceu com nove anos, também de doença oncológica, mas no cerebelo, e não se fez nenhuma ligação.
 
Eles evitam tirar o ânus e o recto, portanto fizeram-me uma colostomia subtotal, ou seja, tiraram-me o cólon todo. Mas sabiam que tinha pólipos no recto, portanto foi com a condição de ser seguido muito de perto para tirar os tais pólipos. (Os pólipos tiram-se por electrocussão).
 
Aos 48 anos, quatro anos depois de me tirarem o cólon e de me terem tirado 43 pólipos do recto – que queriam poupar na primeira intervenção -, vieram a descobrir que tinha um adenocarcinoma já muito perto do ânus, e aí tive que tirar tudo.
 
Mas disseram-me: esta doença não é sua, é de origem familiar, o que me obrigou a ir descobrir na família toda alguma ligação. A minha filha morreu no Hospital de Santa Maria e a minha mãe no IPO. Aí já vieram pedir todos os documentos possíveis já se admitia que eu tinha a polipose e a minha família também.
 
Os casos assim, são raros?
João Pimentel (Prof. da Faculdade de Medicina de Coimbra): Esta cirurgia foi há mais de 30 anos. Hoje, este tipo de cirurgia em que se remove todo o cólon, todo o recto e todo o ânus, para se tratar a polipose familiar, é rara.
Hoje o que se faz é uma colectomia subtotal, fazendo a tal junção com o recto, ou então fazendo a remoção de todo o cólon, todo o recto, mas preservando o ânus, construindo-se um neo-recto (com uma bolsa do intestino delgado), que permite que o doente continue a fazer as suas dejecções através do ânus passados uns meses.
O número de dejecções aumenta consideravelmente mas dá uma qualidade de vida considerável.
 
Este caso levanta ainda outras questões: a diminuição da mortalidade pelo cancro colo-rectal assenta no rastreio e diagnóstico precoce do cancro, mas também da melhoria dos tratamentos. E essa melhoria dos tratamentos passa, não só pela melhoria do gesto cirúrgico mas também pelos tratamentos adjuvantes: quimioterapia e radioterapia.
 
Por outro lado, hoje os exames de imagiologia têm um cuidado enorme com o diagnóstico e o estadiamento da doença e permitem-nos definir o tipo de cirurgia e a necessidade ou não de terapêutica adjuvantes, como a quimioterapia e a radioterapia pré-operatórias.
 
Devia de ser uma política estatal, nacional, que os doentes com cancro no recto fossem tratados em unidades diferenciadas e tratados por cirurgiões com especial dedicação e com diferenciação para este tipo de cirurgia.


publicado por servicodesaude às 13:37
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